2020 termina com choque de lideranças na UBC e Felipe Leal convoca eleições

Não há limites para as surpresas no microcosmo do cheerleading brasileiro. O ano mais caótico das últimas décadas em todo o mundo termina com uma reviravolta no cenário nacional do esporte: uma nova União Brasileira de Cheerleading é anunciada em redes sociais.

Atualizada em 31/12 às 4h48

A última hora do penúltimo dia do ano foi movimentada pela publicação e divulgação das redes sociais que seriam as novas mídias da União Brasileira de Cheerleading. A publicação de 30 de dezembro em @ubc_brasil segue a mesma linha que a entidade fez em @ubc.cheerleadingbrasil em abril de 2018: é o começo de uma nova fase, sob nova direção.

Nas fotos, Lara Magalhães, presidente da Confederação Brasileira de Cheerleading & Dança, aparece ao lado de Rodrigo Gonçalves, fundador e primeiro presidente da UBC. Uniformizado na foto, ele estava afastado do esporte desde o final de 2017 e em contato recente para entrevista, em 11 de dezembro, não sabia quem era o atual presidente da entidade, Felipe Leal. A legenda dos posts promete mais informações em vídeo a ser publicado nesta quinta-feira, 31/12.

A resposta da UBC foi publicada por volta das 4h30 no perfil oficial da entidade. O documento explica que a UBC “tomou conhecimento de que seu ex-presidente o Sr. Rodrigo Gonçalves da Silva juntamente com a Sra. Lara Barroso de Magalhães e os associados fundadores da entidade realizaram um pleito eleitoral de forma ilegal. Essa eleição não garantiu a participação dos clubes (ginásios) e dos atletas no colégio eleitoral, assim como garantido pela Lei Pelé. Ainda houveram outras ilegalidades, como por exemplo, o registro em cartório não competente e com o objetivo de induzir a comunidade CHEER a erro. A via eleita pela Sra. Lara Barroso de Magalhães foi inadequada, inabilidosa e desleal”. A nota encerra com o que parece ser uma terceira via para a resolução do problema: “a atual gestão concorda com a realização de novas eleições, mas dentro das regras previstas na Lei Pelé e em outras legislações pertinentes e com a participação dos atletas que são o alicerce de nossa entidade. Dessa forma, o Assessor Jurídico da UBC, o Dr. Marcelo Jucá irá a partir dessa data tomar todas as medidas necessárias para que sejam realizadas as eleições com a devida publicidade e de forma transparente e democrática”.

Nova UBC ou mesma UBC?

A confusão que tomou conta dos grupos e mensagens diretas na quarta-feira chegou a levar alguns atletas a pensarem que se tratava da fundação de uma nova entidade, mas não parece ser o caso. A presidência da UBC que hoje é ocupada por duas pessoas foi passada de Rodrigo Gonçalves a Benjamin Beltran no início de 2018. O mesmo Benjamin enfrentou Lara e Felipe no mundial, em Orlando, quando ele era o presidente da entidade. Registramos a história aqui. 

Na época, Lara e Felipe eram aliados e buscavam tomar a liderança de uma UBC que vinha de um campeonato muito criticado. Em Orlando, ficou claro que para Jeff Webb, presidente da International Cheer Union, o ideal seria se ambos conseguissem trabalhar junto com a UBC, um caminho muito mais fácil que mover um processo de substituição na Assembleia Geral da ICU.

No mesmo ano, a aliança entre Felipe e Lara foi quebrada e ambos seguiram caminhos distintos: ele se envolveu diretamente com a UBC, agora presidida por Clara Ascencio a pedido de Benjamin. Felipe foi eleito presidente no final do ano passado.

Já Lara buscou parcerias em Minas Gerais – seu estado natal –, São Paulo e Paraná e organizou todo o processo legal para a fundação de uma confederação. Os fatos recém-publicados apontam que Lara também se movimentou para buscar a união com a UBC, mas por outras vias.

Gestão ou gestões?

Os próximos dias vão definir o cenário atual dessa batalha que não é nova. Nós registramos parte dela nessa matéria de 2019. Na época, a produção teve a informação de que a passagem da presidência de Benjamin para Clara teria sido simbólica. Clara afirmou em 2019 que o processo com os papéis para a regularização da assembleia que a empossou como presidente da UBC estavam em andamento.

É aí que muitos apontam morar o problema: caso as passagens das presidências tenham sido simbólicas e Rodrigo Gonçalves tenha sido o único presidente “legal” da UBC, em tese, ele ainda teria poderes para passar a entidade para Lara? Em pesquisa ao longo do ano, tivemos acesso aos documentos públicos do Segundo Registro de Sorocaba. O requerimento de registro de 18 julho de 2017 traz a ata da assembleia que formaliza a fundação da UBC como associação de direito privado sem fins econômicos. O documento confirma a eleição de Rodrigo Gonçalves para um mandato até 18 de julho de 2021.

A gestão da União Brasileira de Cheerleading de facto até o momento recebeu a notícia com perplexidade. “Para a Gestão da UBC receber essa notícia nos surpreendeu muito. Estamos o ano inteiro acompanhando de perto as movimentações desse outro grupo de pessoas, mas não imaginávamos que iriam agir de forma imoral e ilegítima para obter poder. Acreditamos que está claro para a comunidade de cheerleading do país que essa disputa não se trata de unir o esporte e sim de uma disputa unilateral por poder, tendo em vista que, não satisfeita em se opor à UBC criando suas federações e confederações, Lara Magalhães se movimentou para se apoderar da UBC (…) Acreditamos que a suposta eleição de Lara Magalhães não cumpre os requisitos da lei e do estatuto da UBC e iremos tomar as devidas medidas legais para solucionar a situação”, conta Isabela Menezello, atleta, dirigente e colaboradora da UBC. [ ERRATA: Quando publicada, a matéria trazia atribuído à Isabela a vice-presidência da UBC. Erramos: Isabela colabora com a gestão de Felipe Leal, mas não é vice-presidente. ]

A presidente da gestão recém apresentada da mesma UBC, Lara Magalhães, respondeu por nota: “Estamos trabalhando com a nova gestão como foi anunciado, em fase de transição. Ela está cheia de profissionais de todos os nichos do cheerleading e em busca de dar oportunidade a todos do Brasil. Acreditamos na união do país e que todos podem contribuir, cada um da sua forma. Neste momento como você pode ver uma prévia do vídeo que será anunciado amanhã, estamos assumindo a UBC com toda a documentação, apoio nacional em diferentes estados, equipes e buscando dar suporte a todos aqueles que nos procurarem ouvindo e auxiliando no que for possível”.

A disputa se amplia

O que já era uma disputa amplamente conhecida no cenário nacional do esporte agora pode chegar à justiça. Lara sempre teve uma assessoria jurídica atuante e a UBC – gestão 2019/2020 – conta com a assessoria jurídica de Marcelo Jucá Barros, advogado especialista em direito esportivo e ex-presidente do Tribunal de Justiça Desportiva do Rio de Janeiro (TJD-RJ) e da comissão de direito esportivo da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).

Segundo ele, trata-se de uma tentativa de tomar o poder de forma desleal: “Recebi essa notícia com muita surpresa. Ao meu ver, se trata de uma claríssima tentativa de tomada de poder com a utilização de subterfúgios jurídicos rasos, vazios e muito desleais. Triste ver pessoas que dentro do esporte agem dessa maneira. Assumi a Gestão Jurídica da entidade e iniciei um trabalho de regularização da situação legal da Diretoria que é absolutamente legítima dentro do cenário esportivo. Em uma primeira análise e sabendo de fatos graves que no momento não posso revelar, afirmo de forma muito serena que essa suposta nova gestão não atende os requisitos mínimos exigidos pela legislação civil e esportiva. Está muito clara a engenharia jurídica adotada. A comunidade Cheer está unida. Atletas, árbitros, ginásios, enfim, todos que fazem parte do sistema estão juntos no sentido de mostrar que essa suposta nova gestão é ilegítima”, destaca o advogado.

Até o fechamento desta matéria, não foi possível entrar em contato com Felipe Leal. Não houve, até o momento, resposta por parte de Lara ou do novo perfil @ubc_oficial sobre a nota da UBC.

 


Texto: Rodrigo Mariano (C1C RJ)

Produção: Pyter Areas (C1C RJ)
Revisão: Lilian Fontes (C1C RJ).

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