A arte, a ciência e a importância de interpretar as mensagens com honestidade

ARTIGO de Isabella Boddy – Coordenadora de Revisão/Jornalismo C1C

Nas últimas semanas, o Cheerleading tem se mostrado fiel – até demais – ao caos político brasileiro, e as falhas e faltas que apontamos “lá fora” parecem ser presentes aqui também, no esporte e em nós mesmos. Algumas são mais polidas, sutis e melhor disfarçadas, outras sequer são notadas. Mas existe uma que, protegida pela liberdade, é muitas vezes enganada pela ignorância: a interpretação de texto.

Costumamos aprender na escola, com a discussão de charges, tirinhas, notícias e artigos de opinião, a interpretar o que outro quis dizer no papel, com palavras ou imagens. Indagamos, questionamos, supomos e propomos, tudo em prol do desenvolvimento de uma leitura crítica e, assim, criamos uma sensação de que, baseados na nossa visão, chegamos completamente ao significado daquele texto. Mas, talvez tenha nos faltado um pouco de humildade para lembrar que a nossa própria régua não dá conta de medir o mundo – não podemos dar como verdade só aquilo que queremos entender.

Umberto Eco, linguista, filósofo e semiólogo italiano, há anos trata da liberdade da interpretação e de seus limites. Para o autor, podemos fazer uso ilimitado de um texto, mas isso não se aplica às interpretações. Estas devem sempre respeitar a intenção do autor e do próprio leitor, e, principalmente, a do texto, em sua unidade. Ou seja, as nossas interpretações podem ser infinitas – e aí está nossa liberdade -, mas algumas delas deverão ser descartadas em respeito e coerência ao que de fato está exposto em um texto – seja ele verbal ou não.

Frank e Ernest – Bob Thaves. O Estado de S. Paulo. 22.08.2017.

No exercício de interpretação, é comum prestarmos atenção, primeiramente, em apenas uma, a que mais nos atrai, das diversas partes de um texto, e não no todo. E é comum, também, não darmos muita bola pro restante. Mas, parece que frequentemente esquecemos – ou fazemos questão de não lembrar – que o juízo que fazemos de tal parte só será válido se for verdadeiro, coerente, com o restante das partes.

O que isso significa? Que não podemos colocar traços, em uma charge, por exemplo, onde eles não existem. Na Literatura, isso também se aplica. Devemos ler uma obra com bom senso e respeito à intenção do texto: temos a liberdade de interpretar uma história de acordo com nossa própria bagagem – Capitu traiu ou não traiu? -, mas não podemos, jamais, extrapolar o que de fato foi escrito pelo autor. Se assim o fizermos, estaremos conjecturando sobre o que não existe.

Precisamos sair do nosso próprio mundinho e olhar, de verdade, para o todo. É compreensível que isso seja difícil, afinal, “O Dilema das Redes” (2020) nos mostrou que fomos, e estamos, muito mal acostumados, por conta dos algoritmos das redes sociais, a ter nossos feeds extremamente individualizados: tudo nos é apresentado conforme, especialmente, o que gostamos. E essa individualidade virtualmente criada nos passa a sensação de termos acesso a e controle de um universo muito particular e próprio. O agravante é o tempo que passamos nessas redes: o real e a realidade online acabam se misturando, e temos a plena convicção de que essa realidade particular é a vida real – e não apenas uma parcela, muito pequena, do mundo que nos é forjada pelo algoritmo.

 

Somos todos Aroeira – colagem

Ora, nada mais esperado, então, do que nos revoltarmos quando algo que nos desagrada, que não condiz com o que acreditamos ser certo ou que não podemos controlar conforme a nossa vontade, aparece na tela. Mas, vale mencionar aqui, novamente, as partes e o todo. A interpretação que fazemos do nosso próprio mundo só pode ser verdadeira para todos se for coerente com o restante do mundo.

Essa individualização constante afeta, inclusive, a nossa percepção da arte, da educação e da informação. Nos acostumamos com a arte enquanto entretenimento, algo a serviço das nossas vontades e perdemos a consciência de que ela veio para incomodar e proporcionar algum tipo de reflexão falando do mundo. Perdemos a consciência de que uma charge, que também é uma forma de expressão artística, tem papel político e histórico-social de transmitir uma mensagem, de criticar, e não de ser legal. A nossa vontade de sermos sempre agradados embaçou nossa visão da arte enquanto meio de autoexpressão – e não de bajular -, e nos fez perder a noção de que é direito – e papel – de veículos de comunicação, e também de indivíduos, de fazer uso dela para este fim.

Estamos desacostumados com coisas que nos incomodam, provocam, tiram da zona de conforto. Que nos façam refletir, que façam o outro refletir e nos questionar. Não gostamos de ser questionados, contrariados e criticados, de que falem mal de nós. Mas precisamos nos forçar a lembrar que a charge, a arte e o jornalismo estão aí para isso: falar. Cabe a nós a decência de ouvir, olhar – e interpretar – o todo.

 

Referências 

Eco, Umberto. Sobre a literatura. Tradução de Eliana Aguiar. Rio de Janeiro: Best Bolso, 2011.

HAN, B-C. Sociedade da transparência. Petrópolis: Vozes, 2017b.

HAN, B-C. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2017b.

_____. No enxame: perspectivas do digital. Tradução de Lucas Machado. Petrópolis: Vozes, 2018.

RABENHORST, Eduardo R. Sobre os limites da interpretação. O debate entre

Umberto Eco e Jacques Derrida. Prim Facie, v. 1, n. 1, p. 1-17, 11. Disponível em: https://periodicos.ufpb.br/index.php/primafacie/article/view/4205


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