A falta que o Cheerleading faz para quem depende psicologicamente dele

Atletas que têm no cheerleading um importante aliado no tratamento de transtornos psicológicos sofrem com a falta que o esporte faz nesse momento de isolamento social.

Editada em 26/06 às 21h30

Com a necessidade do isolamento social, medida adotada para combater o avanço da pandemia do coronavírus, muitas atividades que faziam parte do nosso dia a dia sofreram impactos e com o cheer não foi diferente. No entanto, para muitos atletas, o cheerleading é mais do que um esporte: ele é um aliado no tratamento de transtornos psicológicos e lidar com a sua falta não tem sido fácil.  

Pâmela Gonçalves, atleta do Deliders, equipe da Unesp de Rio Claro, lida há mais ou menos dois anos e meio com o transtorno de ansiedade. Ela conta que o cheer ajuda a fortalecer aspectos como atenção, concentração, foco e autoconfiança que a ajudam nos momentos de tensão e de possíveis crises.

Com a falta do esporte, Pâmela relata: “sinto diferença, principalmente, na concentração e rendimento para realizar afazeres comuns do dia a dia, ou mesmo do trabalho ou da Universidade. Psicologicamente, pela atual situação, o estresse é bem maior e as crises de ansiedade tendem a ser mais frequentes em situações mais críticas, mas, ao mesmo tempo, amenizadas pelo contato com o time em rede social, em desafios de cheer como entretenimento e principalmente de rotinas de treinos incentivadas e disponibilizadas pela comissão de treino do time do qual faço parte (Deliders). Além, é claro, de matar a saudade ouvindo cheer mix e assistindo rotinas dos anos anteriores”.

Já para Karen Martins, atleta das Morceguetes, equipe da Unesp de Araraquara, o cheerleading contribuiu positivamente no convívio social e na prática de condicionamento físico. Entretanto, a falta do esporte também tem afetado ela. “Eu estava afastada do cheer desde 2018 e estava retornando aos poucos nesse ano, com tudo planejado e encaminhado. No começo da quarentena, eu sofri muito com insônia e crises de ansiedade e depressão pela falta de esporte, pelo isolamento, entre outros fatores”.

Mais ainda, para Letícia Maria, também atleta das Morceguetes, o cheerleading colaborou muito para o seu bem-estar, tanto que, nesse momento, a falta do esporte tem afetado significativamente na questão da autoestima e na disposição para exercer alguma atividade física em casa.

Por meio do relato das atletas, percebe-se que é fundamental que os esportistas sejam preparados de forma geral – corpo e mente – dentro e fora dos treinos e das competições para que eles sejam capazes de enfrentar os desafios e as exigências do esporte. E, para isso, temos o que chamamos de Psicologia do Esporte.

 

O impacto da Psicologia do Esporte no cheerleading

Ao contrário do que muitos acreditam, a Psicologia do Esporte não é voltada somente para o esporte de alto rendimento, isto é, aquele cujo objetivo é preparar fisicamente o atleta para determinada modalidade esportiva. Segundo a psicóloga Tais Brasil, “a psicologia do esporte, na verdade, tem várias áreas dentro dela, então tem a psicologia do esporte voltada pro alto rendimento, a psicologia do esporte voltada para a área de recreação, de lazer e da atividade física como um todo, que seria a prática de qualquer tipo de atividade física, que seja na dança ou em academias, e tem a parte social também, dos projetos sociais que não tenham fim competitivo. Então, são vários lugares que ela pode se inserir e, para cada local diferente, para cada proposta diferente, seja para uma ONG, uma iniciação esportiva, um bem estar ou para qualidade de vida, ela vai ter ali uma ênfase diferente.”

Então, de acordo com Flávia Noro, estagiária em Psicologia do Esporte no Niterói Rugby Football Clube, no alto rendimento, o papel do psicólogo é enxergar o atleta como um todo e tentar ajudar e dar ferramentas para ele se conhecer e tentar entender como seus pensamentos, sentimentos e comportamentos podem atrapalhar ou beneficiar seu rendimento.

“A questão toda é que no cheer, principalmente no Brasil, a maior parte do público que pratica cheer é da faixa etária do que a gente chama de adulto jovem. É aquela pessoa que está saindo da fase da adolescência, está indo para uma faculdade, está entrando em contato com uma realidade nova em que muitas vezes muitos dos alunos que estão ali já têm filhos, estão pensando em morar sozinhos ou então tiveram que morar sozinhos porque vieram de outro estado, estão tendo que lidar com as dificuldades financeiras, passam por uma responsabilidade maior e dentro disso tudo entram em um conflito psicológico”, destaca, ainda, Tais.

Além disso, ela ainda afirma que, por termos necessidade de variar nossos ciclos de contato, quando determinada pessoa procura o cheer, ela o faz muitas vezes pelo fato de estar buscando algo para o lazer, para interação, para conseguir se expressar e conseguir ser. Desse modo, o cheer se torna mais do que só técnica e passa a ser um espaço que os atletas têm como uma segunda casa. 

 

A importância do esporte para o tratamento

Segundo Flávia, a prática do esporte melhora a autoestima, o autoconceito, a imagem corporal, funções cognitivas e a socialização também, porque, ao praticar atividade física, você está em contato com outras pessoas na maior parte do tempo.

Para os profissionais que acompanham o tratamento de atletas, o cheerleading tem impacto no processo. Daniella Espíndola, atleta do Elite All Star, enfrenta questões psicológicas como o Transtorno do Déficit de Atenção (TDA), ansiedade e depressão e descreve a opinião da sua médica sobre o esporte. “Minha médica é 100% pró Cheer, porque ela diz que – independente do que for – pacientes com questões mentais precisam de motivação movida pelo amor, pela autossuficiência e pela felicidade, já que em nossas vidas cotidianas temos certa dificuldade em achar os mesmos. No momento que você se permite ser feliz e focado em algo, automaticamente você se torna suscetível a fazer isso em outras partes da sua vida, seja em relações fraternas, familiares ou amorosas (ou as 3). Baixa autoestima é o que mais te prende pra baixo, saber que você é necessário e até mesmo querido pelos seus colegas de time, saber que eles precisam de você e que você pode contar com eles… Faz um mundo de diferença. Às vezes, reciprocidade é apenas o que nós precisamos de outra pessoa”.

Para Ariel, atleta da Halo (All Girl nível 2 da Marvel All Stars), o cheerleading também teve uma influência muito positiva no seu tratamento da depressão, ansiedade e Transtorno do Déficit de Atenção, sem hiperatividade. Ela conta também que o seu psiquiatra falou que ela não pode parar com o cheerleading de jeito nenhum, porque ele é um pilar muito importante do seu tratamento.

Portanto, em um momento como o que estamos vivendo, em que treinar não é possível, Tais afirma que o melhor a fazer é tentar se aproximar do cheer, e não se afastar. “Então, se aproximar, estar em contato com o material, se empoderar mais do que o coach passa para você e manter contato social”.

Além disso, Flávia diz que é importante cuidarmos da nossa mente para que as coisas não fiquem ruins. Então, é importante ter um acompanhamento psicológico e continuar mantendo contato com a equipe. “É continuar se falando, tendo essa convivência mesmo que distante. E é tentar fazer coisas positivas, coisas que dão prazer, não se cobrar tanto, porque é aceitar que a situação em que estamos vivendo pede um pouco de calma”.

 

 

Texto: Letícia Conde (C1C SP)

Produção: Gabriela Delbem (C1C RJ)

Entrevistados: Pâmela Gonçalves, Karen Martins, Letícia Maria, Tais Brasil, Flávia Noro, Daniella Espíndola e Ariel

Revisão: Gabriela Rapp (C1C GO) e Isabella Boddy (C1C PR)

Foto de capa: Kevin Henriques (C1C RJ)

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