A imprensa não é o seu inimigo

Rodrigo Mariano – Diretor de Jornalismo C1C

O Brasil vive um tempo sombrio para a imprensa. A escalada autoritária se avoluma sobre a liberdade de imprensa. Normal: nenhuma ditadura no mundo se instaurou sem calar jornalistas. Os jornais e outros veículos continuam existindo, obviamente, mas só publicam mediante autorização prévia. E isso faz toda a diferença. Porque uma imprensa que tem que aguardar anuência de quem quer que seja para publicar fatos não é uma imprensa livre. E quando a imprensa não é livre, não há nenhuma chance de haver democracia.

Estamos vivendo isso hoje. Quando o autoritarismo se torna comum, corriqueiro, cotidiano, a gente começa a naturalizar absurdos. De repente são normais posturas que antes eram vistas como algo extremamente perigoso. Como, por exemplo, exigir que um veículo de informação haja de acordo com os interesses de quem é notícia e não do público em geral.

Nessas últimas semanas, tudo foi muito pesado para o C1C. Nossa agenda editorial estava montada com as mais variadas matérias, e tudo o que eu queria era alimentar as redes e tentar me distrair no tempo livre, mesmo com mais de mil mortos por dia no nosso país. Apesar disso, nós temos o dever de informar.

Acontece que quando você trabalha com informação, não é você que escolhe do que vai falar. Os fatos obrigam a cobertura. Se algo relevante para o esporte e para os atletas acontece, a gente tem que parar tudo que está fazendo e focar nossa mão de obra nesse assunto específico. E é claro que tem. Porque se você deixa passar e não publica sobre, a cobrança vem a cavalo: passou pano, tem rabo preso, só posta quando convém. ISSO NÃO É JORNALISMO!

Acontece que, desde a CNN até o C1C (e quanta distância entre os dois, eu sei), é a informação que define a pauta e não o inverso. É muito chato parar tudo que foi planejado porque alguém ameaçou alguém em um debate sobre sair ou não no meio de uma quarentena. É muito cansativo ter que jogar a agenda do dia fora e passar horas e horas seguidas à disposição de um trabalho que exige investigação, apuração cuidadosa, checar uma, duas, três vezes cada informação, confirmar com fontes diferentes para ter certeza que ninguém está exagerando em nada. Mas isso é parte do trabalho. Quem não quer fazer escolhe outra coisa para trabalhar. Ainda assim, acreditem, eu definitivamente não imaginei publicações sobre assédio e suas repercussões quando fundei um site esportivo. Esse não é o tipo de matéria que a gente quer publicar. Esse é o tipo de matéria que a gente é obrigado a publicar e cumprimos a nossa obrigação quando o fazemos. E mesmo quando publicamos, as pessoas tomam o discurso inverso ao que tomaram antes: isso não é oficial; não esperou uma nota; não podem fazer isso. ISSO NÃO É JORNALISMO!

É verdade que quando começamos o site lá em 2017, o trabalho era diferente. Basicamente, não fazíamos jornalismo ao pé da letra. Publicávamos aquilo que ia agradar as pessoas e achávamos que aquele era o caminho a ser seguido. Era quase uma janela para um mundo perfeito do cheer, onde tudo é mais bonito. Lembro de um campeonato especialmente desastroso em 2017 sobre o qual eu não publiquei UMA linha. Não queria desestimular os organizadores ou desprestigiar quem estava lá. A gente permitia que pessoas tratadas nas matérias lessem o texto antes de publicar. Era um nível de comprometimento tamanho – e eu assumo isso porque a linha editorial do C1C é ditada por mim desde sempre – que ao olhar para trás nem acredito que me preocupava tanto com o ego alheio. Por tolerar esse comportamento quase publicitário, passamos a ser pressionados para não publicar sobre determinados assuntos. Fomos fortemente incentivados a publicar o que convinha e a esconder o que não convinha. Por pouco não perdemos completamente a direção da nossa linha editorial, porque cada força puxava para um lado e, na ânsia de agradar a todos, era impossível trabalhar. Logo ficou claro: aquilo, de fato, NÃO ERA JORNALISMO.

Mas em janeiro as coisas mudaram. Um episódio em especial deixou claro que precisar do apoio e das bençãos das pessoas não estava levando a absolutamente nada. Aceitar que deveríamos nos omitir para não perder o apoio de ginásios, organizadores de campeonatos ou quem quer que seja era só errado. Foi aí que a linha editorial mudou totalmente. Abrimos mão de toda e qualquer colaboração financeira em troca de serviços de jornalismo. Compramos caro a nossa independência e, desde que publicamos esse artigo, que foi bastante comemorado na época, assumimos um novo paradigma. Ali a gente assumiu que, realmente, aquilo que era feito antes NÃO ERA JORNALISMO. Não completamente. 

Jornalismo a serviço da vontade de meia dúzia NÃO É JORNALISMO. É outra coisa…

E a gente retorna a essa semana, quando fomos obrigados a publicar sobre temas sensíveis, espinhosos, desagradáveis e não fugimos dessa obrigação. Para montar os textos, fizemos contato com o máximo de envolvidos possível. Escutamos muitas fontes anônimas – como fazem todos os veículos. E, de novo, mais uma vez, novamente, nos atacaram. Atacar a imprensa é esporte hoje em dia: em 2019, foram 11 mil ataques virtuais a sites, jornais, revistas e TVs por dia. Os ataques são sempre bem parecidos: alguém não gosta ou concorda com uma publicação e imediatamente coloca o veículo no lugar do inimigo. As alegações também são repetidas e vocês já conhecem: “ISSO NÃO É JORNALISMO”!

É notícia aquilo que me agrada, que eu concordo, o que eu vou compartilhar com prazer. Já o que eu não concordo, não gosto, não atende aos meus interesses é fofoca. “Ora, como ousa a imprensa passar por cima da minha autoridade”, pensa o crítico. “Eu não estou feliz. Se publicar, é passível de processo”, dizem os apoiadores de ontem quando o que vai sair não pinta um quadro bonito deles, mesmo que que sejam apenas fatos. “Para que vai falar sobre isso se tem tantos assuntos legais para falar sobre?” Pressão. Pressão do tipo mais cru e triste. Pressão para controlar narrativas. Temos que aguardar as notas oficiais. Temos que guardar a notícia até alguém decidir que é hora. Fontes anônimas? Jamais. Jornalismo com base em fontes anônimas – sim, vocês já imaginam… – NÃO É JORNALISMO. 
Pois bem. Meia hora de Google é suficiente para deixar claro que isso é opinião. E opiniões não são fatos. O ignorante no assunto vai encontrar casos como o Watergate, quando os jornalistas Bob Woodward e Carl Bernstein do Washington Post expuseram um escândalo que derrubou o presidente dos EUA. A fonte deles era anônima: um alto oficial do FBI. O que eles publicaram levou a uma pressão tamanha que Nixon caiu. No final do período militar, o Estadão publicou a matéria “Assim vivem os nossos superfuncionários”. Era a primeira vez que se denunciava a corrupção do setor público, os privilégios e regalias legados da ditadura. Ricardo Kotscho ganhou o Prêmio Esso em 1976. No mesmo ano, Marcos Sá Correa publicou no Jornal do Brasil os documentos “sigilosos” que comprovavam o apoio dos EUA ao golpe militar de 64. A busca também pode esbarrar em algo mais recente: Edward Snowden, funcionário da CIA e NSA, rouba informações que comprovam que o governo americano não só espionava cidadãos e empresas como usava essas informações de forma criminosa. O caso vem à tona graças ao jornalista Glenn Greenwald. Por publicar essas informações “sigilosas” – aspas aí porque não existe informação sigilosa quando o interesse do público é atingido -, Glenn ganha o Pulitzer, o maior prêmio dado a jornalistas no mundo.

Nenhum desses jornalistas que são respeitados como os melhores entre os melhores da profissão pediram autorização para publicar seus textos ou aguardaram posicionamento oficial. O trabalho deles derrubou grandes poderes, expôs esquemas que mudaram o mundo, trouxe à tona crimes escondidos do público e que jamais seriam descobertos de outra forma. Cada um deles FEZ JORNALISMO

Contra a vontade dos envolvidos, eles publicaram sem pedir autorização. Porque exigir que um jornalista peça anuência para publicar algo tem nome: é CENSURA.

Tentar coagir a imprensa a publicar apenas o que achamos interessante é DESONESTO. É conduta criminosa, antidemocrática, anticivilizatória. Diz muito sobre o caráter de quem se coloca no direito de tentar botar cabresto, de escolher o que deve e o que não deve ser publicado, de quem acha que pode de alguma forma dirigir o trabalho da imprensa.
Então, eu, Diretor Executivo e Chefe de Jornalismo do C1C desde 2017, responsável pelos erros e acertos do nosso jornalismo e hoje acompanhado de uma equipe ABSURDA, INCRÍVEL, uma rocha firme no meio da tempestade, achei que era importante publicar esse artigo com três objetivos claros: 

1) Contar que não é a primeira vez que somos pressionados para não publicar algo ou apagar conteúdo publicado. O autoritarismo espreita atrás de pessoas que parecem bem intencionadas. Não vamos ceder. A linha editorial do C1C não vai se mover nem um centímetro. Não tem post, tweet ou gritaria que vá desviar a gente do caminho do bom jornalismo. Se houver provas e fontes confiáveis, fatos que guardam alguma interface com o cheerleading serão publicados. Cancelamentos e comportamentos típicos de haters, tão comuns hoje em dia, não terão eco aqui;

2) Apontar o óbvio: nenhum jornal, site, revista, TV, canal de YouTube tem a obrigação legal ou moral de pedir autorização de alguém para publicar seja lá o que for. O jornalismo não se pauta pela autorização alheia. Bolsonaro não autoriza nenhuma matéria sobre ele, boa ou ruim, assim como Lula também não autorizava. Nixon não autorizou o Post a derrubá-lo. Nem a NSA entregou os documentos em um pen drive ao Snowden. Moro, então ministro da Justiça, tendo conversas vergonhosas expostas, não reagiu: sabia que era inútil. Não é opinião, é fato: a maior parte do que chega a nós pelos telejornais e sites é fruto de investigação, de conversas com fontes anônimas, de informações que são levadas à imprensa antes que as coisas de fato aconteçam. E é assim que tem que ser. ISSO É DEMOCRACIA;

3) Firmar novamente um compromisso com o jornalismo bem feito: com a apuração cuidadosa das informações e com a escolha de pautas de acordo com o interesse do nosso público. Reafirmar o que dissemos em janeiro: os fatos serão publicados, gostem ou não os envolvidos. O interesse dos atletas e do esporte, não de marcas ou ginásios, sempre nortearão o nosso trabalho e cada crítica que não aponte para a censura (uma face exposta do fascismo) será considerada, mas pressão alguma será capaz de nos calar.  


E nada disso é escolha minha. Esse é o único caminho possível dentro do Cheer One Channel porque ISSO, SIM, É JORNALISMO.

 

                                                                         Revisão: Carina Fischer (C1C PR), Isabella Boddy (C1C PR) e Letícia Conde (C1C SP)

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