A reabertura é necessária: está na hora de poder voltar

Nos dias 16 e 22 de março, os governos de Rio de Janeiro e São Paulo, respectivamente, decretaram quarentena em virtude da pandemia que acabara de desembarcar em território nacional. De lá pra cá, foram 5 meses de angústia, incertezas e um amplo gradiente de sofrimento que atingiu nossa população – do tédio ao luto, o coronavírus não passou despercebido por ninguém.

Não demorou para que um evento dessa magnitude logo fosse tomado de assalto pela política. Declarações descabidas do presidente, que ansiava por uma marcha forçada durante a pandemia, fizeram com que seus opositores se agarrasem de modo inconsequente àquilo que ele buscava evitar – o isolamento.

O isolamento surgiu como a arma mais efetiva de combate ao coronavírus, recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), referência principal do discurso tecnicista. Porém, quando se trata de política pública, é preciso ter em mente que tais ferramentas ditas “técnicas” são limitadas e seus resultados variam bastante de acordo com a realidade em que são aplicadas. Jamais existirá solução simples e perfeita para algum problema social. E o isolamento, certamente, não desmente esse pensamento.

Feita essa introdução, gostaria de defender no presente artigo o direito dos ginásios de reabrirem suas portas, sem a injusta represália moral que se tem ouvido ecoar dentro da comunidade.

O quanto e até quando o isolamento é viável ?
Essas duas perguntas deveriam ter guiado as autoridades públicas desde o início da pandemia. O impacto que o isolamento causa na vida econômica de uma sociedade é tamanho que, a partir de um dado momento, o risco de se expor ao vírus vai pesando cada vez menos frente a outras necessidades.

Dentre muitos outros fatores (vou me ater somente aos relevantes para a discussão), a composição da economia de um país é determinante para resistir a esse cenário. Países com indústria moderna, baixo índice de desemprego e que possuem um governo com finanças equilibradas conseguem maior fôlego.

       Vejamos o Brasil:

    O setor de serviços é responsável por cerca de 73% do PIB;

    O setor de serviços é responsável por 70% das horas trabalhadas no país;

    O consumo das famílias é responsável por 65% das despesas do país;

    Taxa de desemprego está por volta de 12%;

    O setor informal (tudo o que é produzido sem regulamentação nos 3 setores) era responsável por 18% do PIB em 2010 e vem crescendo junto ao desemprego nos últimos anos;

    Estamos em déficit primário desde 2015 (governo gastando mais do que a arrecadação)

A quase totalidade da massa trabalhadora alocada no setor de serviços e no setor informal não tem como fazer home office, uma vez que os serviços são presenciais e as atividades informais são precárias.

O consumo é o principal motor da nossa economia, entretanto, em um cenário como esse, as pessoas reduzem drasticamente suas despesas devido à perda de renda ou ao receio de que isso ocorra.

O governo, já fragilizado em decorrência da recente recessão, vem abusando de uma série de déficits. Isso reduz a capacidade de resposta à crise.

Portanto, um país com o nosso perfil econômico não tem como sustentar um isolamento rígido por muito tempo, a menos que o governo declare Estado de Exceção. O que seria um prato cheio para o caldeirão político em que vivemos. As consequências, inimagináveis.

Sendo assim, por que apostar todas as fichas em algo que não é sustentável?

Pelo direito de voltar
Como havia dito anteriormente, existem outros fatores que explicam a falência do isolamento no Brasil. As contradições sociais que vivemos fazem com que boa parte da população, que já convive com risco iminente de violência e falta de saneamento básico, não enxergue o vírus como ameaça real. Essa percepção também pesa cada vez mais ao longo do tempo.

De tal modo, concluindo-se que o isolamento não pode mais ser instaurado como política pública, ele passa a ficar limitado à esfera privada, ou seja, dependente da avaliação e das possibilidades de cada um.

E então, nos deparamos com uma questão essencialmente democrática: se algo é facultado à escolha particular do indivíduo, então isso não te diz respeito. Impor a sua consciência à consciência alheia, justificada por uma suposta moral superior, é intolerância. Lembre-se de que coisas horríveis acontecem justificadas por “amor à vida” ou na tentativa de protegê-la.

O direito dos nossos treinadores de abrirem seus ginásios novamente deve estar assegurado e respeitado por todos, independente de suas motivações. Perseguir e atacá-los num momento como esse seria extremamente injusto.

E a empatia ?
Por fim, além de defender o direito de reabertura, também argumento para isentá-los da suposta “falta de empatia”. Sabemos que as pessoas têm bastante liberdade para serem estúpidas, mas não é o caso aqui.

Pergunto ao leitor: onde está toda essa empatia por problemas tão graves quanto essa doença e que assolam nossa sociedade há tanto tempo? Você deixa de consumir drogas mesmo sabendo que ela deixa uma trilha de morte até chegar em você? Você deixa de comprar determinadas marcas mesmo sabendo que ela tem envolvimento com mão de obra semi escrava?  Você deixa de ir no rodízio mesmo sabendo que em frente tem um sem teto passando fome?

A maioria desses problemas afeta uma classe bem específica. Eu poderia dizer que agora é mais fácil criarem empatia porque o problema não faz distinção de status. Mas não faz o meu estilo.

As pessoas reagem de modo diferente aos estímulos que recebem. Nós passamos por uma enxurrada de informação (e desinformação) durante a primeira pandemia espetacularizada da história. A superexposição midiática e a polarização política criaram um falso sentimento de fim do mundo. Que não existe.

A vida segue com todas as suas contradições, cabe a nós continuar nosso rumo de modo sóbrio e ciente de nossas limitações.

Iago Bastos é atleta e diretor de Estratégia do C1C

 

 

 

 

 

 

 

 


Revisão: Isabella Boddy (C1C PR)

 

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