As diversas faces da discussão sobre a “postura de atleta”

No domingo, dia 13/12, a head coach e dirigente do Brasília Xtreme, Luiza Brasiel, fez uma live em sua conta do Instagram para falar sobre prints que tinham chegado até ela. As imagens retratam uma situação que, segundo ela, vinha acontecendo desde 2019: pessoas tecendo comentários maldosos sobre seu ginásio.

A questão é que essa discussão é maior do que um grupo de WhatsApp ou os comentários sobre o BX nas redes. Mas, para entender isso, é preciso primeiro entender o que aconteceu. 

O caso 
O estopim segundo a própria Luiza foram prints de um grupo de WhatsApp específico: o Bunker. O grupo foi criado com o intuito de reunir atletas LGBTQ+ que não se sentem acolhidos nos outros espaços do cheerleading. “O grupo serve mais como uma rede de apoio e conexão para a comunidade para abordarmos assuntos que muitas vezes somos inibidos em outros grupos ou até mesmo nas competições pela presença de pessoas héteros”, conta Dilan Kayne, citado por Brasiel na live.

Não é uma impressão unânime: diversas pessoas, nos comentários e em privado para Luiza – que repostou algumas destas mensagens -, apontam o grupo como um espaço onde a “cultura shady” é alimentada dentro do esporte. Para Dilan, reduzir o Bunker a isso seria desconsiderar todos os bens para os quais aquele grupo já serviu. 

Os prints, segundo Luiza, acusavam o Brasília Xtreme de sediar treinos onde os atletas não usariam máscaras. Houve, ainda, uma comparação com a equipe Top Gun, que causou polêmica por competir durante a pandemia sem máscaras. Ela destaca que o BX adotou diversas medidas de segurança para que pudesse voltar a funcionar com treinos de tumbling. Entre elas estava a proibição da retirada de máscara dos atletas dentro do ginásio.

O atleta chegou a conversar diretamente com a coach para esclarecer o que, segundo ele, foi um mal entendido. Luiza conta que a conversa foi tranquila. “Ele afirmou que coisas ditas um ano atrás não representam necessariamente a opinião dele atual. Eu acredito que as pessoas mudam, se arrependem e evoluem e quero acreditar que isso é o que aconteceu. O nosso ginásio não guarda ressentimentos e estamos de portas abertas caso ele queira conhecer o nosso trabalho de perto, e será bem recebido pela nossa equipe.” 

O caso traz à tona algumas discussões que, segundo muitos, precisam ser feitas dentro do meio do cheerleading.

A postura shady
Em 2018, o Cheer One Chanel chegou a postar um artigo de Pyter Areas sobre a toxicidade no meio cheerleading. Ele falava da postura de fazer comentários destrutivos e ácidos sobre outros atletas de forma gratuita, comparando com situações representadas em séries estadunidenses que sempre retratam cheerleaders como pessoas mesquinhas, ácidas, competitivas ao extremo e, até mesmo, apenas más em diversos momentos. 

Apesar de muitos atletas terem tido o primeiro contato com o cheerleading através desses filmes e séries, a perpetuação do estereótipo é uma escolha coletiva. Outro ponto levantado na repercussão da live de Luiza é sobre a “postura de atleta”, muito discutida no meio brasileiro de cheerleading. Manter essa postura de atleta, inclusive para além das competições, tem impacto direto na imagem dos ginásios.

Ações dos atletas vs imagem dos ginásios 
As mensagens que foram a gota d’água para Luiza eram, segundo Dilan, de uma conversa no grupo sobre ginásios e atletas do Rio que eram criticados por treinar stunts enquanto em outros estados as mídias com os mesmos stunts recebiam comentários elogiando. “Eu me referia a uma conversa que tivemos dentro do grupo sobre atletas do BX que estavam treinando juntos em locais públicos e sem proteção. Eles estavam postando abertamente em redes sociais. Eu não listei nomes, pois eram alguns atletas que pertenciam ao mesmo ginásio e isso ficou subentendido a quem acompanhou a conversa”, conta o atleta. Apesar de ter se referido ao Brasília Xtreme no comentário que parou nas mãos de Brasiel, Kayne destaca que atletas de diversos ginásios foram citados nas conversas.

Na live, Luiza diz que acredita que as imagens dos ginásios não devem ser representadas pelas pessoas individualmente, além de lembrar que os técnicos não têm poder sobre as ações dos atletas fora dos ginásios. “Se você tem problema com uma pessoa do BX, você vai colocar outras 129 na conta? Não faz sentido”, destacou.

É comum que os atletas acabem sendo “o rosto de um ginásio” em determinada situação, especialmente na hora das críticas. Uma pessoa que erra e faz parte de um ginásio Y raramente vai ser colocada como “pessoa que errou” apenas. Ela quase sempre será a “pessoa do ginásio Y que errou”. E isso se soma à questão da postura como atleta, mesmo fora de treino, incluindo as redes sociais.

Códigos de conduta: Cheerleading vs Outros esportes 
Quando a docu-série “Cheer” foi ao ar na Netflix no início do ano, muitas pessoas se mostraram chocadas com o fato de os atletas falarem que a treinadora da Navarro, Monica, vigiava suas posturas nas redes sociais e também na vida off-line. O que poucos sabem é que, em outras modalidades, essa postura não é tão rara como se mostra no cheerleading. 

Analisamos três códigos de ética internacionais: dois de cheerleading (ICU e USAF) e o do Comitê Olímpico Internacional para as Olimpíadas Tóquio 2020, que não inclui o cheerleading.

O Código de Ética da ICU, Artigo 7, inciso C, diz que é passível de punição “representações falsas, imprecisões ou declarações fundamentalmente desonestas sobre a ICU, seus membros e representantes ou o cheerleading, em geral”.


Já o Código de Responsabilidade da USAF, que possui uma página apenas sobre conduta de atletas, tem três partes que chamam atenção: 

  • “Respeito a mim mesmo, meu treinador, outras equipes e dirigentes de eventos. Vou tratar todas as outras equipes e membros da equipe com o máximo respeito em todas as circunstâncias possíveis. Vou me respeitar o suficiente para concordar em treinar e competir tendo a minha segurança e a segurança dos meus companheiros como primeira prioridade.”
  • “Ver o quadro geral e exercer autocontrole em circunstâncias adversas. Vou aumentar o foco e a intensidade em praticar em vez de retaliar ou culpar os outros.”

 

A terceira fala exclusivamente sobre comportamento, tanto pessoalmente quanto na internet, dizendo: “Interagir, pessoalmente e pela internet, com integridade. Não vou comentar negativamente sobre meus oponentes em qualquer forma de mídia social: Facebook, Youtube, aplicativos de mensagem, etc. Eu entendo que isso reflete uma imagem ruim do meu esporte, do meu ginásio e de mim mesmo.”

Dentro do código de ética do COI, duas partes são aplicadas aos atletas: A seção A, que diz respeito aos princípios básicos do código; e a seção B, intitulada “Integridade de Conduta”. 

Na seção A, o Artigo 1 diz que os participantes devem seguir os princípios éticos nos quais foram fundadas as Olimpíadas, sendo o item 1 “respeito pelo espírito olímpico, que requer entendimento mútuo com um espírito de amizade, solidariedade e jogo limpo”. Já o 5 diz que é preciso “garantir as condições de segurança, bem estar e cuidados médicos favoráveis ao seu equilíbrio físico e mental”.

Já na seção B, podemos citar o Artigo 2, que diz que os atletas “devem agir com o mais alto grau de integridade e, principalmente, quando na tomada de decisões, devem atuar com imparcialidade, objetividade, independência e profissionalismo. (…) Eles não devem agir de uma maneira que possa manchar a reputação do Movimento Olímpico.” Já no Artigo 6, fica claro que os atletas também “devem abster-se de se colocar em qualquer conflito de interesses”. 

E o Brasil?
No Brasil, a prática de ter códigos de conduta formais dentro do ginásio não é tão comum, mas há casos, mais comuns no cheerleading universitário e escolar. No cenário dos ginásios All Star, o Firece Extreme, de São Paulo, traz em documento o aviso “Não serão toleradas fofocas, intrigas e mau comportamento de atletas nos treinos e fora deles. Em caso de comportamento que seja prejudicial à equipe, o atleta será inicialmente informado, em caso de reincidência o atleta poderá ser convidado a se retirar.” 

Já no caso do Arkhaios All Star, do Rio de Janeiro, é possível ler no Artigo 9, item III, que “a crítica vexatória e/ou desrespeitosa, em público, redes sociais, ou qualquer meio de comunicação” é considerada uma infração do código de ética e é passível de penalidade. Há outro trecho que também diz o mesmo sobre a prática de bullying de qualquer natureza, seja ele praticado nos ambientes de competição, de treinamento ou fora dele quando ligados à imagem do ginásio”.  

Em Minas, o Panthers All Stars traz em seu código interno que “o atleta deve se abster de comentários negativos sobre outras equipes (e obviamente sobre o próprio Panthers). Ao contrário, devem manter um clima esportivo saudável para o crescimento do esporte”, sendo essa infração passível de desligamento do atleta do ginásio”. 

Público x Privado
O Bunker é um grupo de WhatsApp com link público para entrada e com um grande número de participantes. Isso pode fazer com que muitas pessoas se questionem se ali realmente é um grupo privado, uma vez que, em tese, qualquer um pode ter acesso. Mas, ainda assim, vazar conversas de grupos de WhatsApp, a menos que seja material jornalístico, pode trazer problemas legais. Segundo a revista ConJur, já houve um caso de processo por danos morais pelo vazamento de conversa de grupo de WhatsApp em 2018. 

O próprio Dilan, ao ser procurado, enfatizou que os prints saíram de um grupo privado ao qual Luiza não tinha acesso e que a pessoa que passou os prints para ela está também errada. Ainda assim, talvez seja importante repensar o que postamos. No caso que gerou toda a questão, o grupo tem por volta de 85 pessoas, nem todas amigas e, às vezes, nem todas se conhecem. É possível acreditar no espaço como privado? O que é dito ali provavelmente vai continuar ali ou tem uma grande chance de parar em outros ouvidos (e telas)? O histórico não é bom. 

Com o ano começando, esse costuma ser visto por muitos como um momento de reavaliar comportamentos. Pode ser uma boa oportunidade para atletas, treinadores, preparadores, praticantes de cheerleading repensarem atitudes e posturas. Pode também ser a oportunidade para popularizar os códigos de ética entre os ginásios, confederações e demais esferas: documentos claros em relação à conduta não só nos espaços de treino e espaços competitivos como também fora deles.

Desde muito tempo, atletas são vistos como objetos de admiração pelos outros. Se o cheerleading realmente quer se levar a sério como o que é, um esporte, evitar enfrentamentos fora dos tatames é fundamental. Em tempos de Tik Tok, é possível que atletas precisem lidar com o fato de que suas ações impactam a imagem daqueles que representam e influenciam outros atletas que os admiram e têm como modelo. Isso também é espírito esportivo.

 

Texto: Ariel Strauss (C1C RJ)
Revisão: Gabriela Rapp (C1C GO), Isabella Boddy (C1C PR)
Arte: Louise Aguiar (C1C RJ)

 

Instagram did not return a 200.