As equipes do Brasil Profundo – Parte 2

Há cerca de dois meses, o C1C apresentou três times do Brasil Profundo que ajudam a semear o esporte no país. Conheça agora mais três equipes espalhadas pelo território nacional!

Em junho, o Cheer One Channel realizou um mochilão virtual para conhecer as profundezas do cheerleading brasileiro, e conheceu algumas equipes que estão caminhando em direção ao reconhecimento do esporte em sua região. Depois de longos dias de descanso, a busca por equipes voltou. Conheça agora mais três times!

Cheerleaders Camaleão (@cheerleaders_camaleao)

 

Atletas do Cheerleaders Camaleão no final de 2018.

 

Por problemas de planejamento, para chegar ao quarto destino, foram mil trezentos e noventa e cinco quilômetros ao sul. Na maior cidade do estado vizinho do HellHounds Cheerleaders – equipe apresentada na primeira parte dessa matéria -, Joinville, em Santa Catarina, conheça o time universitário Cheerleaders Camaleão.

Fundados em 2013 como uma equipe de Cheer Pom para animar eventos da atlética Camaleão da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) por meio de apresentações em jogos e festas, não tinham conhecimento de teorias e técnicas do esporte. Foi em 2017, depois de irem atrás de vídeos em plataformas digitais e de um  primeiro contato com um atleta do cheerleading, desbravaram não só um campeonato, mas dois!

Animados e extremamente energizados com a nova fase que a equipe agora começava, participaram com um stunt no Campeonato Paranaense e com a equipe inteira em duas categorias do Campeonato da UBC: Cheer Pom e Team Cheer.

Após vivenciarem três experiências incríveis, é claro que o horizonte se expandiu. Com ele, a necessidade de serem melhores cada dia mais foi aumentando. De tanto quererem fazer isso acontecer, hoje contam com a experiência do coach Zazá Guttierres, ex-atleta do Arkhaios, e de alguns atletas que participam de camps pelo país para trazer novas técnicas e skills em suas rotinas. 

Segundo Beatriz Esteves e Viviane Okada, capitã e vice-capitã, respectivamente, integras e treinos com outras equipes são as atividades externas que mais auxiliam os membros mais novos a mergulharem de cabeça nas técnicas dos movimentos.

Em relação ao conhecimento sobre regulamentos, ambas afirmam que, por serem uma equipe pequena e universitária, o estudo precisa ser por conta própria, já que a verba da equipe fica totalmente voltada ao subsídio das competições e à aprimoração técnica dos atletas.

Um exemplo atual de investimento e de grande importância na questão técnica do time foi a contratação da consultoria do treinamento online do Tiago Bento, coach e proprietário do Spirit of Titans,  para a montagem da rotina de competição.

Apesar desse fato mostrar que o acesso ao conhecimento dos polos não é totalmente inacessível, Beatriz e Viviane afirmam que enxergam diferenças nas práticas. Uma delas foi a respeito do tumbling: “Devido ao número de equipes nos polos, acreditamos que as técnicas e treinos têm maior efetividade no avanço dos atletas, principalmente na área de tumbling, na qual nossa região tem bastante defasagem devido a falta de equipamentos para treino e técnicos. Nos polos, o número de atletas avançando é maior e assim conseguem passar essas técnicas para outros e tem um contato mais fácil com eles, aqui nós ainda temos que enfrentar a barreira da distância desses atletas.”

Ainda falando sobre as diferenças, mais uma vez o estereótipo do esporte reforçado por outras equipes da região foi relatado: apresentações compostas apenas por movimentos de dança, por mulheres, e infelizmente a exposição de uma sexualização. Para mudar esse cenário, os Cheerleaders Camaleão colocam como um dos objetivos em suas apresentações a tentativa de disseminação do esporte e quebra de rótulos com a presença de homens, movimentos além da dança e muito respeito.

Prestes a encerrar, a capitã e a vice guiam a conversa para um cenário mais interno. De acordo com elas, uma das maiores barreiras que encontram é a respeito da rotatividade de seus atletas, que acaba desacelerando a evolução da equipe como um todo. Além, é claro, das dificuldades financeiras e de equipamentos que já foram comentados em outras entrevistas dessa matéria.


Spark Cheerleaders
(@sparkcheers)

 

Atletas do Spark Cheerleaders durante os Jogos Jurídicos Rondonienses 2018. Foto: PhotoShow

 

Mil seiscentos e quarenta e seis quilômetros depois está o quarto destino: Rondônia. Representando a Faculdade de Direito da Faculdade Católica de Rondônia, o Spark Cheerleaders foi fundado no ano de 2016 com o intuito de animar a torcida da Associação Atlética Acadêmica Edson Antônio Sousa Pinto (A.A.A.E.A.S.P). Inicialmente, contou com uma formação de 12 meninas e 12 meninos dispostos a representar o espírito do esporte.

Durante esses quatro anos de existência recheados de sacrifícios, pressões e evoluções, chegaram a participar de um campeonato local: o Jogos Jurídicos Rondonienses de 2018, que englobou as Faculdades de Direito de Rondônia e Acre, no qual conquistaram o primeiro lugar.

Após um período treinando apenas com a ajuda de vídeos e buscas na internet, a equipe contava até pouco tempo atrás com a ajuda de um treinador da cidade conhecido por integrar o Royal Cheer Rio (RCR), Luidy Santos, para desenvolver habilidades, ensinar sobre regras e movimentos do esporte.

Em conversa sobre o cheerleading como um todo e suas possíveis diferenças na hora da prática, Ana Carla Canosa, atleta e uma das atuais gestoras das redes sociais do time, diz que os integrantes, apesar de não conhecerem de perto como é a prática nos principais polos, possuem noção de que o esporte por lá é bem diferente do que praticam em Rondônia. Primeiro, por ser algo recente e, segundo, por não ser muito difundido e muito valorizado. “Algumas equipes, principalmente as novas, confundem o cheer apenas com dança (não por maldade, mas por falta de conhecimento) e sabemos que vai muito além disso.”, ela acrescenta.

Ainda sobre esse cenário, infelizmente carente de recursos necessários para a evolução e a expansão do esporte na região, surge o questionamento sobre as barreiras encontradas durante esse processo. Canosa revela que uma das maiores dificuldades enfrentadas pelo time é o desconhecido. E o cheerleading era tão desconhecido que aparentemente o campeonato de que participaram em 2018 foi o primeiro a reconhecê-lo como esporte e a tratá-lo de maneira competitiva. Outra barreira citada foi a falta de reconhecimento, assim como a falta de estrutura tanto técnica quanto financeira. “A galera aqui não vê como um esporte. Isso dificulta demais a nossa evolução. Fora a falta de treinadores capacitados. Tínhamos o Luidy, como falei anteriormente, que era ginasta e foi aperfeiçoando no cheer, mas ele foi embora. Também não temos incentivo na questão financeira. É bem difícil conseguir patrocínio, uniformes aqui são caros, pedir as coisas de fora para cá também é caro. Praticamente tudo sai do nosso bolso. Ser cheer aqui é ato de coragem”, ela encerra.

Soberanas (@soberanas_cheer)

 

Atletas da equipe Soberanas após o Tryout de 2020. Foto: Arquivo Pessoal

 

Percorrendo dois mil trezentos e oitenta quilômetros a leste, encontra-se o quinto e último destino: Bahia. Representando a Faculdade de Direito da Unifacs, o time Soberanas. Fundado em 2018 com o intuito de vestir a camisa da Associação Atlética Acadêmica A Soberana (A.A.A.A.S) e evidenciar toda a intensa animação da torcida azul e preta, iniciou-se com uma formação de 7 meninas dispostas a aprender.

A equipe tem quase dois anos de existência e ainda nenhuma estreia em campeonatos da região. Luisa Rocha Yamaguchi, atleta do time, nos conta como funciona a dinâmica de aprendizado do time desde sua fundação: “No começo, entramos de cabeça, sem qualquer orientação adequada. Atualmente, temos uma coach mais experiente que participa de cursos preparatórios e então nos guia.”

Ainda em conversa sobre a prática do esporte, a atleta conta sobre as dificuldades encontradas nesse trajeto de fortalecimento e expansão do cheerleading em sua região. Pelo já esperado da redação, os fatos listados coincidem com os já relatados por outras equipes dessa matéria: falta de locais adequados, falta de materiais e, inclusive, falta de direcionamento. Luisa não só enxerga o problema, como também traz uma proposta de solução para esta triste realidade: “Na minha opinião, a disseminação do esporte é o que precisamos para que se tenha uma evolução adequada, porque assim o mercado vai se atentar para um esporte que vem crescendo muito.”

Prestes a encerrar a entrevista, surge um assunto delicado que trouxe um rico – e controverso – tópico: atletas sem maior preparo como educadores físicos que se tornam coaches, prática que acabou dando origem ao esporte em Salvador por meio das Universidades de Medicina da região.

Mediante o exposto, ao falar sobre os motivos e pontos negativos desta defasagem na formação técnica de coaches, Luisa relata que, na realidade dos times de Salvador, a maioria das equipes conta com coaches sem formação em Educação Física – e que são, em grande parte, atletas de equipes tradicionais. Muitas vezes, essas equipes ainda optam por atletas relativamente inexperientes devido ao alto custo cobrado por outros mais experientes ou de formação mais completa, o que torna seus serviços inacessíveis a equipes de menor porte ou iniciantes no esporte. Luisa ainda aponta, como decorrência deste cenário, uma importante defasagem técnica e didática.

Essas são apenas alguns exemplos das inúmeras equipes espalhadas pelo Brasil. E, você, já conhecia alguma dessas? Nos conte lá na foto de divulgação desta matéria postada no instagram do @cheeronechannel!

 

Texto: Gabriela Rapp (C1C GO)

Produção: Juliana Dória (C1C BA)

Revisão: Isabella Boddy (C1C PR)

Arte da capa: Gabriela Goulart (C1C RJ)

 

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