As Mulheres estão Seguras no Cheerleading?

No mês passado, Giulia Gabriela, ex-atleta de cheerleading, tornou público um caso de assédio envolvendo o treinador do Django All Star. Os relatos que se seguiram expuseram o que já era óbvio: o assédio a atletas não é algo pontual, um problema de um único ginásio, mas uma situação que precisa ser entendida como algo sistêmico, recorrente e abafado por ginásios e pessoas que não querem ter sua marca relacionada ao assunto.

Não, as atletas não estão seguras. A afirmação resume o que veio à tona nas últimas semanas por meio de muitos relatos nas redes sociais sobre abusos de todos os tipos dentro do cheerleading. A maior parte dos relatos aponta para algo que, até bem pouco tempo, era culturalmente permitido – se não incentivado – em uma cultura machista e profundamente tóxica no que diz respeito a questões de gênero: a insistência na abordagem sexual não correspondida.

Mas a insegurança pode ir ainda mais longe. Casos envolvendo menores de idade dão a dimensão do problema que o esporte precisa enfrentar e, nessa semana, novo relato aprofundou ainda mais a ferida aberta pela exposição feita por aquelas que tomam coragem e optam por contar suas histórias.

Mais uma história

Na última semana, a atleta Luciana Mesquita procurou a redação do Cheer One Channel para expor o seu relato, motivada pelas últimas publicações feitas contando casos de assédio que assombraram o esporte nas últimas semanas. De acordo com o relato da atleta e os prints e áudio encaminhados à redação, o caso teria ocorrido no final de 2019, durante uma viagem do ginásio Royal Cheer Rio (RCR) até Uberlândia, onde a equipe disputou o Cheerfest Supernational, um dos três campeonatos da temporada nacional. A equipe se preparava para no dia seguinte voltar ao Rio de Janeiro, quando, segundo a atleta, aconteceu o fato.

A situação envolve a atleta e seu ex-namorado, Rodrigo Torres, também atleta e private coach do RCR. Os dois dividiram quarto durante todo o campeonato, mesmo após o término do relacionamento, por motivos financeiros. “Pira (Rodrigo) era meu ex-namorado, um amigo próximo o suficiente para eu confiar dividir o quarto em uma viagem”, disse Luciana.

O Cheer One Channel traz a seguir o relato de ambos os envolvidos, resguardando detalhes explícitos devido ao teor delicado do conteúdo.

Luciana conta que, no dia seguinte à festa promovida para comemorar o pós-campeonato, acordou sentindo-se mal. “(…) eu acordei passando muito mal, tanto que pedi para ele (Rodrigo) buscar um suco para mim e mandei ele ir tomar café sozinho. Resultado: passei mal e caí na cama, apagada”. Ela acordou com seu ex-namorado, Rodrigo Torres, sobre ela. Ambos estavam nus, mas ela havia dormido vestida. “Eu mandei ele sair e, honestamente, congelei. Não sabia o que fazer. Ainda tínhamos uma viagem de 16 horas para voltar para o Rio de Janeiro. Só quando cheguei no Rio que comecei a processar o que havia acontecido”, conta a atleta.

Após o retorno, Luciana conversou com Rodrigo por mensagens no celular e, após isso, cortou relações definitivamente. “Ele me mandou um áudio que eu ainda não consigo escutar porque choro nos primeiros 10 segundos, ele começa a se justificar, colocando a culpa em mim…”, conta a atleta. Nas mensagens, Rodrigo tenta se justificar pelo o ocorrido, dizendo que o ato foi consentido e incentivado por Luciana. A atleta conta que, ao chegarem no Rio, amigas intervieram pedindo que Rodrigo se afastasse e ele concordou.

Abordagem sexual sem o consentimento de uma mulher, que no caso estaria inconsciente, é ilegal e tem nome: Estupro de Vulnerável, previsto no artigo 217-A, §1º do Código Penal. Sendo assim, procuramos o acusado para saber sua versão da história de acordo com os preceitos do bom jornalismo.

Em relato ao C1C, Rodrigo afirma que, na ocasião, Luciana disse que estava passando mal, mas o chamou para deitar-se com ela na cama: “Ela não estava inconsciente, até porque ela pediu para eu me deitar com ela (…). Não estou dizendo que ela me chamou para fazer alguma coisa na cama (…) e aconteceu o que aconteceu porque houve reações. Não me aproveitei, não esperei ela dormir para eu poder fazer alguma coisa. Não fiz nada que não tivesse tido alguma abertura”. E ressalta: “então, não. Pra mim ela não estava inconsciente e ela estava reagindo às coisas que eu estava fazendo”.

O papel dos ginásios

Quando o assédio acontece dentro do cenário All Star, geralmente o primeiro envolvido, mesmo antes da polícia, é o ginásio. É nos coaches e dirigentes que atletas procuram refúgio e apoio para que as denúncias resultem em ações.

Nesse caso, outro motivo que teria incentivado Luciana a realizar o seu relato foi a publicação de uma carta aberta pelo RCR, repudiando os casos de assédio divulgados. “Com o acontecimento recente sobre o caso de Brasília, esse assunto voltou a me assombrar e, quando vi a carta aberta do RCR, fiquei bem mal. Eles falavam de dar suporte para as meninas, um ambiente seguro, sendo que não foi isso que aconteceu comigo”, conta.

Luciana esperou o fim da temporada de campeonatos para relatar ao ginásio o que havia ocorrido, preocupada que sua denúncia pudesse ter algum impacto na rotina da equipe – após o Cheerfest, o RCR ainda participou do Campeonato Brasileiro de Cheerleading. Assim que as competições acabaram, a atleta entrou em contato com Márcio Tavares, dono e coach do ginásio carioca, que demonstrou apoio. “Mas já de antemão quero que saiba que eu sinto muito por esta situação estar acontecendo com você e que te apoio no que precisar!”, afirmou o coach em conversa com Luciana. Márcio também pediu a permissão dela para tratar do assunto com Davi França e Adriano Branco, coaches do RCR.

Em nova conversa, a atleta voltou a procurá-lo devido à proximidade das seletivas do ginásio e à incerteza do que fazer, e perguntou se seria possível pedir que Rodrigo não frequentasse o ginásio nos mesmos dias em que ela treinava, por não se sentir segura. Segundo prints da conversa enviados por ela ao C1C, Márcio leva em consideração o pedido e ressalta que a hipótese estava em aberto. Ele afirma ainda ter falado com sua equipe de marketing e com sua advogada para saber como proceder – e evitar possíveis denúncias por calúnia – e que poderia acompanhar Luciana à delegacia: “Cheguei a falar isso com minha advogada, que temos que apoiar e até levar a pessoa na polícia”. No entanto, Luciana disse na ocasião não estar pronta para prosseguir com uma denúncia na delegacia, por receio de não conseguir provar o crime ocorrido devido à falta de provas. Após essa conversa, segundo ela, nada foi feito até então.

Pela insegurança, a atleta não realizou o tryout da equipe, mas, ainda assim, teve seu nome divulgado na lista de aprovadas para a equipe All Girl do RCR Lady Rain. “Eu falei com o Davi depois, (…) ele disse que o Márcio só comentou por alto, mas que ele não estava a par da situação”.

A equipe do Cheer One Channel entrou em contato com Márcio, mas este preferiu não se pronunciar para além do que já contava nos prints encaminhados por Luciana.

Os desafios que os coaches enfrentam não se resumem em treinar seus atletas e compor uma rotina. Faz parte do trabalho desses gestores lidar com tensões constantes decorrentes do convívio das pessoas que formam o ginásio. Proporcionar um ambiente seguro e estável para seus atletas costuma ser uma prioridade. Não é uma tarefa trivial, mas o esforço para prevenir situações de abuso e injustiças é sempre necessário.

Um espaço seguro

Para acolher, amparar e ajudar com as questões práticas envolvidas em casos como o de Luciana, nasceu a Frente de Enfrentamento ao Abuso e Assédio no Cheerleading (FENAAC).

Segundo a direção do coletivo, formado por atletas de diversos ginásios e times universitários, o projeto foi fundado com base na cada vez mais óbvia necessidade de uma rede de proteção aos atletas de Cheerleading. “Os casos de violência psicológica, assédios moral e sexual, violências física, racial, moral – aqui incluso o bullying – e de gênero, negligência, pedofilia e abuso sexual não podem ter espaço no ambiente esportivo ou em quaisquer outros ambientes. O número crescente de casos é alarmante e a criação de um grupo de apoio e conscientização é necessária para lutar pelos direitos dos atletas e por ambientes de treino saudáveis, garantindo assim sua evolução de forma segura no esporte”, destaca o coletivo.

Com membros de diferentes equipes, estados e especialidades, a FENAAC pretende lutar pela implementação de políticas de proteção e conscientização à comunidade esportiva do Cheerleading. “Não vamos descansar até assegurarmos nossos direitos. Nosso objetivo é criar um grupo de apoio e prevenção, ajudando os atletas nos encaminhamentos de suas denúncias, orientando como proceder, quem procurar e como agir caso identifiquem ou sofram qualquer tipo de opressão ou abuso. Acreditamos que a informação e a educação são o melhor caminho para a mudança. Desta forma, pretendemos criar uma ponte de diálogo e debate, além da criação de conteúdo didático levando informação à nossa comunidade esportiva”, conta a direção da FENAAC.

Por fim, Luciana deixa uma mensagem para outras mulheres e meninas que se virem na mesma situação que ela: “Vocês não estão sozinhas e sempre vale a pena denunciar! Não deixem esse medo tomar conta de vocês. Para cada pessoa que ficar contra nós, terão outras milhares nos apoiando. O cheer é um esporte maravilhoso e nós merecemos respeito ao praticá-lo. Seja durante treinos, em viagens ou por redes sociais. Força para nós.”

 

Texto: Rodrigo Mariano e Louise Aguiar (C1C RJ) e Isabella Boddy (C1C PR)

Imagem da capa: Kevin Henriques (C1C RJ)

Revisão: Isabella Boddy (C1C PR)

 

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