Coach e atleta, Julia Lemos conta como foi lutar em família contra a Covid-19

Como foram os dias de uma das atletas mais reconhecidas do cenário All Girl carioca e brasileiro enquanto lutava contra o Covid-19.

Incerteza. A palavra aparece diversas vezes enquanto Julia Lemos, atleta da Marvel All Star e coach da equipe universitária Dragões da UFF, relembra a luta que ela e sua família enfrentaram nas últimas semanas. Julia é mais uma dos muitos brasileiros que estão sendo contaminados em taxas alarmantes pelo novo Coronavírus. Por sorte, ela está entre aqueles que não chegam a precisar de cuidados médicos. Mas nem por isso foi fácil passar pelos sintomas moderados da doença.

Da força para a base única com Jac Adami, que marcou a rotina da Marvel Furious Angels na última temporada, não sobrou nada. Agora, todas as energias e forças estavam concentradas na luta do corpo contra o vírus. “Não desejo isso para ninguém, porque bate uma incerteza muito grande”, conta Julia. Dores de cabeça diárias – que ainda não desapareceram completamente -, dor de garganta, enjoo, pressão no peito e perda de olfato. O dela foi o quadro mais leve da casa.

Medo em família
Julia foi a última a manifestar sintomas na casa. Antes dela, seu pai e sua madrasta ficaram doentes. “Meu pai é de grupo de risco, ele tem mais de 60 anos, é obeso e já teve problemas pulmonares. Quando ele ficou doente, passamos a viver com um medo muito grande”, conta. 

À medida que piorava em casa, Marcelo Lemos passou a tomar as precauções necessárias para preparar a família para o pior. “Meu pai chamou a gente na sala e começou a ‘preparar’ a gente. Deu conselho para a economia doméstica caso fosse internado e o que deveria ser feito caso falecesse. Estávamos com muito medo”, lembra a atleta. A situação piorou um pouco mais quando a esposa de Marcelo começou a apresentar sintomas também. Não eram os mesmos do marido: Lene teve febre, crises de labirintite e dores de cabeça. Assim como Julia, Lene tem uma vida bastante ativa por ser professora de balé.

Poucos dias separaram o início dos sintomas da internação do pai de Julia: cerca de cinco dias. A família foi ao médico porque Julia estava sentindo uma pressão no peito que jamais havia sentido. Mas foi Marcelo que precisou ser internado. Sua oxigenação estava muito baixa, sintoma de comprometimento dos pulmões. “É muito desespero e tudo muito confuso. Meu pai teve que tirar tudo que estava com ele, entregar as roupas que estava usando e se despedir da gente. A partir daí, a gente não tinha mais contato com ele. A gente não podia ver meu pai nem falar com ele. Só conseguimos nos comunicar dois dias depois porque havia um telefone no quarto onde ele estava em tratamento semi-intensivo””, relembra.

“É muito desespero e tudo muito confuso. Meu pai teve que tirar tudo que estava com ele, entregar as roupas que estava usando e se despedir da gente. A partir daí, a gente não tinha mais contato com ele. A gente não podia ver meu pai nem falar com ele. Por sorte conseguimos falar com ele dois dias depois porque tinha um telefone no quarto onde estava em tratamento semi-intensivo”

Enquanto a família se preparava para se despedir, mais uma face da crise causada pelo Coronavírus se fez evidente no hospital. Uma senhora teve um colapso nervoso. Ninguém no hospital estava livre para ajudá-la. A mãe dela havia sido internada com uma diverticulite. Com 97 anos e com o medo de ir para o hospital e se contaminar com o novo Coronavírus, aquela senhora e sua família decidiram aguardar em casa para ver se a crise melhorava. Não melhorou e, agora, eles precisavam lidar com o medo dobrado, já que muitas pessoas internadas por motivos diversos acabam contraindo o vírus e morrendo em decorrência do Covid-19. “Desesperada, ela repetia sem parar `Minha mãe! Minha mãe! Eu nunca mais vou ver minha mãe! Minha mãe!’. Nós tentamos ajudar de alguma forma, mesmo preocupados com a internação do meu pai”, lembra Julia.

Marcelo Lemos teve um quadro de pneumonia com um comprometimento moderado do pulmão. Depois de cinco dias de internação, teve alta para seguir o tratamento em casa, mas o medo não acabou. “Cada um ficou isolado dentro de um quarto e a gente não podia abraçar meu pai. Ele saiu do hospital e eu não podia abraçar meu pai. Ainda não posso chegar para ele e falar `Puts, você tá bem` e dar um abraço nele e isso dói! Depois que ele ficou doente a gente, passou noites sem dormir com medo de ele não estar oxigenando bem no quarto, sabe?”, lembra.

Para a contaminação, basta um deslize
Não foi por falta de cuidados que a família Lemos teve que lidar com a roleta russa representada pela Covid-19. A quarentena foi respeitada à risca desde o primeiro dia. “Nós não furamos a quaretena nenhuma vez. Fomos ao mercado apenas três vezes. Usamos máscaras, luvas, camisas de manga comprida e calças. Ao chegar em casa, tiramos toda a roupa, passamos álcool gel no corpo todo e depois tomamos banho”, conta Julia.

Mas para um vírus com poder de contágio elevado, como o novo Coronavírus, nem sempre cuidados extremos são suficientes. Basta uma única ocasião, um único contato com o vírus e todos os cuidados anteriores se tornam inúteis. “Fizemos tudo que a gente podia fazer para tentar se proteger, proteger as outras pessoas, mas, ainda assim, nos contaminamos em algum momento. Pode ter sido no nosso prédio, que tem moradores doentes, incluindo uma que quase morreu na UTI. Não sei… Não tem como saber”.

A necessária distância do cheer
O cheerleading não tem um papel coadjuvante na vida de Julia Lemos. Ao contrário: ela destaca que vive, respira o esporte. Coach de profissão, Julia não só pratica como atleta na Marvel All Star, mas também treina equipes de destaque no cenário universitário, como a Dragões da UFF, Hellsquad (Veiga Comunicação), Souza Marques Medicina e auxilia a gigantes da GV. Apesar do esporte ter um papel central na vida, desde o decreto de quarentena, tudo mudou. Pela primeira vez desde que conheceu o cheerleading, ela se afastou do esporte. Pela primeira vez na vida, parou de praticar esportes em geral.

“Quarentena é muito difícil para mim. Eu tive que parar aquilo que eu mais gosto de fazer, que é o meu esporte. Isso pesa muito para uma pessoa que tem trezentas mil coisas para fazer durante o dia, que está o tempo inteiro treinando, dando treino e, agora, tem que parar tudo e viver dentro de casa apenas, sem sair. E não só difícil fisicamente, difícil também psicologicamente. Eu entendo isso. O cheer é tudo para mim, mas a gente precisa ter consciência nesse momento. Precisamos ficar longe um do outro, precisamos cuidar da saúde uns dos outros. As pessoas estão morrendo. A gente precisa ter muita noção disso: pode ser você. Pode ser a pessoa que você ama, entendeu? Não dá para esperar isso explodir na sua mão porque não é legal viver isso. Eu estou falando sério… Não é legal, sabe?”, alerta Julia.

Compromisso com o coletivo
O cenário narrado por Julia Lemos não é ficcional. Especialmente no Brasil, os casos graves em jovens saudáveis são alarmantes. Muitos deles passam mais de três semanas sedados, entubados, com musculatura paralisada. E não são poucos. Segundo a Secretaria Estadual da Saúde, 41,5% das pessoas internadas acabam em unidades intensivas. Destas, quatro em cada dez serão entubadas para sobreviver. Há casos de pessoas aparentemente saudáveis, sem febre ou dores, mas que estão prestes a morrer, com uma oxigenação baixíssima no sangue. Essas chegam andando normalmente e vão direto para a UTI.

“Sou uma pessoa que é atleta, eu amo meu esporte, eu amo fazer exercício, eu sou extremamente ativa e, ainda assim, o meu recado pra vocês é: FIQUEM EM CASA. Não vale a pena passar por isso.”

Julia lembra, ainda, que há pessoas em direta exposição que merecem o carinho e o reconhecimento de todos. “Valorizem os profissionais que estão na linha de frente. Mayara e Luiza, porque vocês me ajudaram muito nesse momento em diversas formas diferentes e em momentos diferentes, eu queria agradecer e acho que seria legal agradecer a todo mundo que está nessa linha de frente que é tão perigosa, que é tão difícil. O bem que vocês estão fazendo pelas pessoas, mesmo para as que não enxergam, não respeitam isso, é enorme. Vocês são incríveis, vocês são maravilhosos, vocês merecem o mundo e as pessoas precisam respeitar isso”.

Passado o terror e ainda em alerta, à medida que a família melhora, Julia lembra que a luta contra o Coronavírus é responsabilidade de todos. “A gente precisa cuidar um do outro, a gente precisa ter amor ao próximo. Temos que ficar em casa porque pode não parecer, mas ajuda muito. O sistema de saúde está colapsando em diversos estados. Nós somos responsáveis diretos por isso. A gente precisa ter essa noção. Acho que o meu recado é que sou uma pessoa que é atleta, eu amo meu esporte, eu amo fazer exercício, eu sou extremamente ativa e, ainda assim, o meu recado pra vocês é: FIQUEM EM CASA. Não vale a pena passar por isso. Vamos tentar criar laços dessa forma, conversando, ligando um para o outro, vendo filmes com os amigos através de celular, fazendo exercício em casa, alongando, procurando um pouco sobre a história do cheerleading, estudando um pouco sobre o cheer, mas não saiam de casa. Fiquem em casa! Vamos nos proteger, vamos proteger o próximo, por mim, por você, pela sua família. Eu acho que é essa a mensagem”, finaliza. 

Texto: Rodrigo Mariano
Produção: Fernando Henrique (C1C MG) e Gabriel José (C1C SP)
   Revisão: Beatriz Melo (C1C RJ), Gabriela Rapp (C1C GO) e Isabella Boddy (C1C PR)

Instagram did not return a 200.