Crises democráticas, comunicação e saúde mental: até onde vai a minha liberdade de expressão?

Vitória Velloso – Comissão de Psicologia do Esporte do Team Brazil

Nas últimas semanas, o cenário do cheerleading brasileiro assistiu chocado a uma série de contextos divergentes envolvendo seu maior representante nacional: a UBC. A insegurança quanto às esferas macropolíticas do governo brasileiro se soma ao cenário de instabilidade dentro do esporte, trazendo angústia crescente e contribuindo para a polarização e extremismo de opiniões. A esse cenário, damos o nome de crise. Mas o que é, exatamente, uma crise e como lidar com ela?

Segundo o ilustre filósofo Edgar Morin – se você ainda não o conhece, recomendo fortemente essa leitura simples e transformadora – crise é o que acontece quando um sistema está profundamente perturbado e as incertezas aumentam. Podem, então, ocorrer duas possibilidades, com consequências diametralmente opostas: ou a sociedade se organiza para solucionar a crise, criando soluções inovadoras; ou se apega ao velho – não ao velho governo, mas ao velho modo de se lidar com os problemas – acreditando que encontrou a solução designando um inimigo, frequentemente imaginário, um bode expiatório que é sempre acusado de todos os males da crise.

Precisamos lembrar que o cheerleading é um esporte de origem estadunidense, pautado por uma cultura extremamente competitiva e individualizante. No tatame, todos os motions e cheermixes visam demarcar quem é o melhor, quem chama mais atenção, quem acerta mais e dá mais close. Essa atitude, que cria uma estética incrível, motiva e dá identidade e energia ao esporte, torna-se extremamente tóxica quando “vaza” para o campo das relações interpessoais e da política esportiva. Entretanto, como ficariam essas atitudes se considerarmos o cheerleading como um espaço democrático, onde preza-se por uma postura de respeito, diálogo, compreensão mútua e onde se é valorizada a voz e posicionamento de todos na busca de um consenso ou de um equilíbrio?

É urgente lembrar que a liberdade de expressão, levada a seu limite, torna-se liberdade de opressão. Em um momento de distanciamento social, onde não podemos “olhar nos olhos” do nosso interlocutor, a radicalidade e a não compreensão encontram terreno fértil para prevalecer. Isso pode ser extremamente danoso, porque tendemos a buscar bodes expiatórios e colocá-los expostos às mais variadas formas de violência verbal e psicológica – seja por meio de posts, frases soltas, imagens, ou o que for.

Não se pesam os danos que nossa fala vai causar a outro ser humano – que pensa, sente e sofre como nós, que tem família e amigos.

Não se pesa se aquela pessoa é mentalmente atípica, se sofre de ansiedade ou depressão. Não se pesam as consequências trágicas que uma publicação pretensamente “objetiva” – que, no fundo, é estéril e nada faz para buscar soluções ou tecer críticas verdadeiramente construtivas – pode ter para alguém, ou
mesmo para o crescimento do cheerleading como esporte.

Ou seja: se queremos buscar as melhores soluções para a construção de uma gestão verdadeiramente representativa, devemos dar um passo além desse discurso que visa apenas vigiar, culpar e punir. Devemos ajudar a construir um ambiente mais favorável ao crescimento e popularização do cheerleading, à saúde e bem-estar dos nossos atletas, e aos valores esportivos descritos na Carta Olímpica: a amizade, a compreensão mútua, a igualdade, a solidariedade e o jogo limpo.

Não existe benefício à democracia onde prevalecem o desrespeito, a negligência com a integridade do outro e a não empatia. Precisamos urgentemente falar sobre o cuidado com a saúde mental dos nossos atletas, e precisamos fazer disso uma prioridade. Se a nossa fala não sugere uma solução, não tece uma crítica construtiva e apenas cria ibope ao agredir o outro, não há razão em dizê-la. Precisamos aproveitar as possibilidades da crise para articular um diálogo verdadeiramente crítico, informativo e construtivo, abrindo espaço para uma nova cultura alinhada ao profissionalismo e aos valores desportivos. Qual pode ser a nossa verdadeira contribuição para o esporte tal qual o queremos?

 


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