Críticas, ameaças e explicações: atletas reagem a supostos treinos na quarentena

No cenário nacional do cheerleading, as últimas semanas da quarentena foram marcadas pelo debate sobre os treinos durante o período de isolamento. Ginásios estariam abrindo, pessoas estariam se encontrando em locais públicos e privados para treinar. A reação da maioria vem expondo a situação sempre que ela se apresenta e, nesse fim de semana, o tom subiu envolvendo ameaças de agressão. Afinal, estamos falhando em um dos momentos mais críticos dos últimos séculos?

Atualizado às 14h45 de 25/05/2020


Na primeira semana de maio, uma matéria tentou responder a pergunta “é possível treinar com segurança na quarentena?” trazendo atletas que estão na linha de frente do combate à Covid-19. A matéria trazia, também, declarações de um atleta de destaque que aposta nos treinos com cuidados especiais. O debate que se seguiu à publicação movimentou redes sociais e grupos de whatsapp onde os atletas mantêm a comunicação em tempos de isolamento social. 

As reações foram marcadas por duras críticas e acusações. A maioria – talvez todos – que debateu o assunto publicamente se colocou contra o treino durante a quarentena. Vitor Spricido, o atleta que declarou seguir treinando tomando cuidados especiais, não encontrou o apoio público dos demais atletas que, segundo ele, também seguem treinando. Diferente de Vitor, talvez por medo de retaliações, eles não defenderam a ideia publicamente.

As acusações também tiveram destaque. Em inboxes, grupos e mensagens, nomes de atletas e ginásios surgiram, apontados por aqueles que se sentem pessoalmente atingidos pelo comportamento daqueles que descumprem as recomendações da Organização Mundial da Saúde e de especialistas. O fato é que em um Brasil dividido entre o posicionamento isolado do presidente da República e seus apoiadores e todo o resto do mundo, somado a um cenário catastrófico protagonizado pelo Brasil, o debate está posto e, cedo ou tarde, chegaria ao esporte.

Acusações e ameaças
A discussão sobre os treinos no momento em que o Brasil assume o epicentro da pandemia acompanhou a gravidade dos números. No último sábado, 23/05, Fabrício Gonzales de Rezende, atleta do Django All Star, provocou um forte debate em um grupo de integra. Após se posicionar contra o isolamento social horizontal, o atleta explicou que acredita ter motivos para querer se contaminar agora com o vírus: ele deseja se imunizar para que o Covid-19 não interaja com outra doença, como a Dengue. O atleta também destacou que 70% da população nacional irá se infectar eventualmente, um argumento bastante usado pelo governo sem bases científicas.  

Em inboxes, grupos e mensagens, nomes de atletas e ginásios surgiram, apontados por aqueles que se sentem pessoalmente atingidos pelo comportamento daqueles que descumprem as recomendações da Organização Mundial da Saúde e de especialistas.

O debate sobre o assunto caminhou para o final quando o atleta disse que estava indo jogar futebol e publicou foto onde aparecem outras pessoas ilustrando o que seria o jogo. Irritado com o comportamento do atleta, o coach, árbitro e atleta Fígaro Guilherme, finalizou o debate no grupo banindo Fabrício após dizer “Vai ser babaca e querer tirar onda com isso em outro lugar”. A discussão, então, deixou o grupo e foi para o privado, onde Fígaro explicou que o banimento não aconteceu por pensarem diferente: “É só ir no meu Facebook e você vai ver várias pessoas que pensam diferente de mim debatendo comigo. A questão é que você foi debochado, mandou foto só para aparecer. Estava tendo uma atitude tóxica e várias pessoas vieram me pedir no privado para te excluir (…) Todo grupo que você está e eu sou o administrador, vivem pedindo para te expulsar porque você é babaca, machista, egoísta, egocêntrico, metido. Não é uma questão de política ou ideologia. É uma questão de comportamento mesmo”.

Muito nervoso, Fabrício enviou áudios agredindo Fígaro com palavrões e ameaças. “Não deixa eu te encontrar, seu m**** do c******. Não me enche o saco porque a gente vai se encontrar algum dia em campeonato e sua carinha branca vai virar uma cara roxa. Estou te ameaçando mesmo. Te arrebento na porrada”, gritava Fabrício nos áudios. Todo o diálogo foi tornado público por Fígaro, que publicou os prints e encaminhou os áudios para o grupo, avisando a todos da ameaça.

“Todo grupo que você está e eu sou o administrador, vivem pedindo para te expulsar porque você é babaca, machista, egoísta, egocêntrico, metido. Não é uma questão de política ou ideologia. É uma questão de comportamento mesmo”

Segundo Fabrício, ele encaminhou a foto “para mostrar que existem pessoas que pensam diferente deles (se referindo aos atletas do grupo que defendiam o isolamento social), que eu não sou o único. Tinham umas 30 pessoas lá, homens e mulheres. Isso em uma resenha nossa. Imagina quantas outras tem por aí”. Sobre a discussão, o atleta explica que achou a exclusão do grupo autoritária e se exaltou: “Já estava bêbado e misturou com ele me chamar de machista, aí parti para a agressividade. Foi o calor do momento, mas se ele me chamar de machista na minha cara, aí o calor do momento não vai ser na frente de uma tela de celular”, declarou. Ao final da entrevista, Fabrício explicou que se sentia na obrigação de explicar seu posicionamento. “Sei que 90% daquele grupo só vai lembrar do áudio do Fabrício agressivo, mas vão esquecer da atitude autoritária do `DitaFigaro’ Bunda Branca”, finaliza.

Um embate constante
Essa não é a primeira vez que Fígaro se vê no centro de um debate sobre atletas que furam a quarentena. Ele vem sendo incisivo na defesa do isolamento social e da paralisação completa dos treinos e da prática de esportes coletivos durante a quarentena. Duas semanas atrás, após a publicação da matéria sobre o assunto no C1C, surgiram denúncias de atletas que seguem treinando e ginásios que se recusam a respeitar a quarentena. Pelo receio de gerarem comprometimento, a maioria dessas acusações são generalistas, não citam nomes, tornando impossível a apuração dos fatos. 

Assim como no caso de Spricido, que acabou representando sozinho um grupo mudo de atletas que seguem treinando, um nome se destacou: Felipe Leal, presidente da União Brasileira de Cheerleading (UBC), foi apontado como um dos atletas que seguiriam treinando.

As afirmações não vieram de desconhecidos: Fígaro é árbitro da Brasil Cheerleading, empresa de Leal, e amigo de longa data. Comentando a matéria publicada na qual a UBC se colocava oficialmente contra o treino durante a quarentena, Fígaro afirmou que “ ficou faltando falar que o presidente da UBC não está seguindo a própria recomendação da entidade de não furar a quarentena para treinar. Se querem passar essa orientação para todo mundo do esporte, eles têm que dar o exemplo pelo menos”. A mensagem foi enviada no grupo Integra Rio, que reúne atletas do estado. 

Surgiram denúncias de atletas que seguem treinando e ginásios que se recusam a respeitar a quarentena. Pelo receio de gerarem comprometimento, a maioria dessas acusações são generalistas, não citam nomes, tornando impossível a apuração dos fatos. 

Fígaro segue explicando como o presidente da entidade máxima de representação do esporte junto à autoridade mundial, a International Cheer Union (ICU) estaria treinando. “Sim, ele está passando a quarentena com a namorada. Mas, eles estão recebendo visitas de outras pessoas para treinar e estas outras pessoas estão treinando com outras pessoas também”, e completa: “inclusive atletas da seleção brasileira, ex-atletas da seleção brasileira, menor de idade”. As declarações tomam contornos ainda mais complexos, uma vez que Leal apresentava um quadro febril no dia 8 de maio. Justamente por isso, ele ficou completamente isolado logo depois.  

Segundo o presidente da UBC, a acusação é fruto de um engano causado por seu trabalho junto ao TikTok, onde posta vídeos relacionados ao cheerleading com periodicidade estipulada pelo contratante: cinco por semana. 

Segundo Felipe, assim que chegou em Brasília, onde mora a namorada, com quem está passando a quarentena desde então, foi até o ginásio Django All Star gravar os vídeos que teria que publicar nas próximas semanas.”Visitei o ginásio e fiz vídeos para um dos trabalhos que tenho, o TikTok, visto que não posso trabalhar com coreografias, pois todos os meus times estão de quarentena”, explica Felipe. Em outra mensagem, o presidente da UBC esclarece que “grande parte dos meus vídeos são pré-gravados e sou obrigado a repostar no meu Instagram pessoal”. Esses posts no TikTok e no Instagram teriam causado a confusão. Felipe destaca também que ainda há vídeos gravados antes da quarentena em Brasília para publicar e que segue em quarentena. O presidente da UBC não esperava pelo que aconteceu: “Infelizmente, o meu caro amigo Fígaro, hora nenhuma veio conversar comigo para esclarecer o que aconteceu, e acabou supondo que sim pois eu posto vídeos regulares no tik tok, e começou a disseminar acusações. O pior foi que as pessoas começaram a ir na onda dele e até hoje ninguém veio perguntar ou falar nada”, conta Felipe.   

Dyego Mikael, coach e dirigente do Django All Star, confirma a história contada por Felipe. Dyego explica que, na verdade, o ginásio parou suas atividades no início da quarentena. “O Django não está tendo treinos presenciais desde que a quarentena começou. Cancelamos  os treinos assim que foi dada a ordem de pausa. Mantemos os treinos online. Incentivamos fortemente os atletas a manterem sua qualidade de treino físico, por meio de vídeos institucionais de preparo físico. É importante ressaltar que quarentena não precisa significar sedentarismo, ainda é possível praticar exercícios físicos em casa”, destaca o coach.

O Django All Star se posicionou formalmente na tarde desse domingo sobre o episódio envolvendo Fabrício e Fígaro. Em nota, o ginásio reforçou que “repudia qualquer forma de violência, ameaça, tortura física ou psicológica, que atente contra a integridade da pessoa humana, sua vida e liberdade”. A nota ressalta também que “a atitude tomada pelo atleta não representa os valores carregados pela equipe”. 

 

Texto: Rodrigo Mariano (C1C Rio)
Produção: Nicole Goldstein (C1C Rio)
Revisão: Carina Fischer (C1C PR), Isabella Boddy (C1C PR) e Letícia Conde (C1C SP)

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