#DeixaElaTreinar: o Machismo no Cheerleading

O assédio não é o único problema das atletas de cheerleading. O machismo se expressa de diferentes formas e já passou da hora de falarmos sobre isso. 

Imagine que o machismo é um iceberg. Uma parte dele é bem visível e difícil de negar que existe, afinal de contas, ele está ali, na sua frente. O problema é que o iceberg não é só a parte que a maioria das pessoas consegue ver. Embaixo d’água, o iceberg é MUITO maior do que aparenta. Da mesma forma é o machismo na sociedade e, consequentemente, no cheerleading. 

Neste ano, explodiram denúncias de assédio no cenário nacional do cheerleading. O problema é que essa é só a parte do iceberg que está para fora da água. Além dele, as mulheres no esporte enfrentam diversas outras barreiras por causa do gênero. 

Coach mulher? 
No cheerleading, apesar de haver um número grande de atletas mulheres, é difícil ver treinadoras, mas elas existem. É o caso de Nayara Araújo, treinadora e dona do ginásio Arkhaios All Stars e treinadora do Team Brazil All Girl há 2 anos. No esporte desde 2012, Nayara se tornou coach pela primeira vez em 2015. Mas mesmo os anos de prática como atleta e treinadora não fazem com que Nayara deixe de passar por constrangimentos. Principalmente no início, ela conta que sentia muita resistência de atletas homens: “Dei treino para pessoas que tinham o mesmo tempo no cheer que eu e mesma idade que eu, então acho que esses atletas acabavam querendo impor a forma como faziam determinadas skills porque dava certo daquele tal jeito que eles faziam, ou porque eram mais fortes/treinavam de base e na época eu ainda treinava só de flyer etc. Eu percebo muito porque dou vários treinos com o Gabriel e a postura das pessoas muda muito, principalmente dos homens e dos responsáveis dos menores de idade. Hoje em dia, infelizmente, ainda sinto muito receio dando treino para alguns homens. Fico com medo deles acharem que algo é melhor de outro jeito e baterem de frente comigo. É um sentimento ruim.” 

Por parte de pessoas de fora do esporte, homens e até mulheres, essa desconfiança é ainda mais gritante segundo a treinadora. “Procuro sempre ser educada e manter o profissionalismo mesmo que duvidem, pois no final eles acabam entendendo, ou somente ignoro e faço o que tenho que fazer.”, conta Nayara.

Apesar do cenário espinhoso, Nayara diz que não acha que mulheres que sonham em estar a frente de seus próprios times e ginásios devem se limitar pelo medo de sofrerem machismo. “Mesmo passando por diversas situações constrangedoras, mostrar o meu potencial como líder e o quanto nosso esporte é incrível sempre supera o meu medo e frustração.”

Ela ainda fala para coaches mulheres e capitãs não deixarem que isso as limitem, as prendam ou as digam o que não podem fazer: “A gente coloca tanto nosso coração e coragem que no final dá certo! Minhas experiências com mulheres à frente como capitãs das equipes que dou treino sempre foram incríveis! Qualquer coisa, estamos aqui”, Nayara finaliza a entrevista. 

“Você tem força para levantar outra menina?” 
Quando falamos sobre machismo com as atletas, geralmente nosso primeiro pensamento vai para as bases mulheres que, principalmente em Coed, acabam sendo a minoria. “O machismo está sim dentro do cheer e de diversas formas, desde o preterimento de mulheres em relação a homens nas composições das rotinas do Coed e que possuem elementos mais difíceis – pois se acredita que as mulheres do time não são capazes de desempenhar algumas funções -, assim como a crença na existência de um padrão corporal ideal para flyers e bases femininas, além da inferiorização dessas mulheres”, disse Ana Karolina Rodrigues, base do time goiano Sealand.

Apesar de nunca ter passado por uma situação na qual explicitamente duvidassem da sua força como base dentro do time, Ana conta que isso não significa que havia igualdade de tratamento. “Havia um estereótipo por parte de algumas pessoas de que os meninos seriam ‘mais fortes’ e mais capacitados para desempenhar algumas funções, principalmente as consideradas mais difíceis. Durante o pós-treino, as mulheres eram muitas vezes rejeitadas em relação aos homens para testarem novos movimentos, dando a impressão de que acreditavam que eles seriam um pouco mais capacitados.” 

Ela também sente que o machismo, muitas vezes reproduzido por outras mulheres, também ajuda a travar a evolução de atletas que atuam como base. “Há algumas flyers que têm pouca disposição para treinar novos elementos com mulheres como base, mas que o mesmo cenário não se estende aos homens. Ouso dizer ainda que esse empenho em treinar com eles possa ser um dos motivos pelos quais eles evoluem muito mais em relação às outras bases. Já senti em alguns momentos e em algumas falas disfarçadas de dicas que alguns homens me passavam uma sensação de que eu não seria capaz de realizar aquilo com êxito, isso em âmbito geral do cheerleading.”.

Sobre como contornar a situação, Ana é enfática ao dizer que nossa sociedade precisa aprender mais sobre igualdade. “Nós precisamos falar sobre o preconceito, a discriminação, o machismo, o racismo, a homofobia, a misoginia, pois não é mais cabível em uma sociedade que evolui tanto esses pensamentos tão retrógrados. Precisamos, acima de tudo, não nos calar e ensinar a todos e todas o respeito a nossa existência, liberdade e direito de escolha, seja ela em casa, seja ela no treino.”

Flyers e a objetificação  
Outro grupo que sente o peso do machismo no esporte são as flyers. Segundo Isabelle Gomes, flyer da equipe universitária All Girl UFFianas entre 2018 e 2019, muitas vezes as pessoas – principalmente homens – tratam flyers como objetos sem vontade própria que estão ali à disposição de treino. Isabelle conta, inclusive, que já passou por situações em que perguntam para a base com quem ela estava treinando se poderiam treinar com a Isabelle, em vez de perguntar para ela mesma. “Em treinos nunca aconteceu, mas em integras sim, mais de uma vez inclusive. É bem desconfortável, porque a autorização de fazer algo ao meu corpo tem que partir de mim e não da minha base. Parece tão óbvio, mas aparentemente as pessoas esquecem isso.” 

Uma situação ainda mais grave que essa foi apontada pela flyer: bases que realizam movimentos sem perguntar para ela se ela se sente confortável em treinar aquela skill. Isabelle conta que, logo depois de ter falado que não queria fazer partner, simplesmente fizeram enquanto ela estava no stunt. Ela treinava base dupla com outras duas pessoas, quando uma das bases saiu e deixou a outra para tentar o partner. “Cheerleading é um esporte que exige muita confiança entre os atletas. Simplesmente passar por cima da minha palavra me causa muito medo, sabe? Mas, infelizmente, é algo que aprendi a lidar quando não treino com a minha equipe.”

Cheerleaders como fetiche 
Outro grande incômodo apontado pelas atletas é a visão das pessoas de fora do cheerleading considerando o esporte como fetiche. Apesar de ter sido reclamação entre pessoas de equipes all stars, as cheerleaders de times universitários relatam casos mais explícitos e pesados de objetificação, fetichização e sexualização das atletas, principalmente como uma espécie de ferramenta dos times adversários para desmoralizar a equipe. “Em maioria, as atitudes partem das arquibancadas. Nos julgam pelos uniformes e acham que estamos ali para provocá-los, esquecem que se trata de um esporte assim como o futebol. É cultural, infelizmente o patriarcado ainda é dominante dentro das quadras.”, conta Maria Vitória Cardoso, cheerleader da equipe universitária Magnatas, de Tocantins. Segundo ela, a rivalidade acaba ultrapassando os limites muitas vezes e são as equipes de cheerleaders que tem que ouvir as ofensas. 

Isabelle também sente isso fora do meio esportivo. “De quem não faz parte do cheer sempre tem uma objetificação relacionada à indústria pornográfica. Já aconteceu muitas vezes de conhecer alguém, geralmente homem, que transforma nosso esporte num fetiche. Isso acaba causando umas situações bem desconfortáveis. Sabe, é um uniforme e é um esporte, que inclusive exige muito trabalho e dedicação. É horrível como sempre transformam em algo sexual.”  

Com esses e tantos outros relatos que mulheres já ouviram dentro de times, em grupos de WhatsApp, em integras e campeonatos, fica bem claro que existe um elefante branco na sala do cheerleading que ninguém queria comentar. Porém, aos poucos, as mulheres do esporte estão comentando e apontando as problemáticas por trás dessas e diversas outras visões preconceituosas que ocorrem dentro e fora do tatame. Um verdadeiro movimento de sororidade e união feminina de atletas de cheerleading tomou conta das redes sociais nos últimos meses e pode acabar trazendo mudanças significativas para a evolução das atletas e para a qualidade de treino das equipes. Agora, resta saber se os homens entenderam o recado e, finalmente, vão #DeixarElaTreinar.

 

Texto: Ariel Strauss Baptista (C1C RJ)
Produção: Gabriela Rapp (C1C GO)

Revisão: Beatriz Melo (C1C RJ), Isabella Boddy (C1C PR)
Arte: Gabriela Goulart (C1C RJ)

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