Dirigente levanta suspeitas de favoritismos na escalação da Seleção Brasileira de Cheerleading

O Team Brazil, a Seleção Brasileira de Cheerleading, sempre foi um assunto delicado. Cinco anos depois da primeira participação do Brasil no mundial da International Cheer Union (ICU), ainda há muita mística, informações desencontradas, disputas e personalismos envolvendo o projeto que é amplamente respeitado como um dos mais ambiciosos e bem-sucedidos do esporte. Um aspecto, no entanto, nunca havia sido levantado com alguma projeção: a lisura da seleção dos atletas.

Não é como se a entrada dos atletas na equipe não levantasse temas para debate antes. A participação na Seleção Brasileira sempre foi condicionada a um fator financeiro e isso não é novidade. Os gastos são altos, os atletas falam abertamente sobre o assunto e a União Brasileira de Cheerleading vem trabalhando em políticas que buscam diminuir esses gastos e torná-los mais transparentes. Mas, no último fim de semana, o debate foi além.

O perfil @cheerpostbrasil, que produz conteúdo voltado ao esporte, publicou um story sobre a Seleção Brasileira de Cheerleading que causou desconforto entre atletas e coaches. No post, que era uma de diversas enquetes em série sobre temas variados relacionados ao esporte, o Cheer Post Brasil perguntava se os seguidores achavam que os atletas do Team Brazil eram escolhidos pelo seu potencial ou por amiguismos.

“No dicionário, amiguismo significa ‘preferência dada por alguém que tem poder a familiares ou amigos, independente de seu mérito pessoal: favoritismo’.”

Nenhuma reflexão deve ser tabu e não existe tema proibido. A enquete por si só não seria suficiente para instalar o clima que permeou grupos de Whatsapp e mensagens diretas na última semana. O texto que acompanhava a enquete era o problema. Nele, o perfil afirmou que acreditava que a maioria dos atletas da seleção nacional havia sido convocada por mérito, mas não todos.

Em nota de esclarecimento, o perfil voltou a afirmar que acreditava que “a maioria foi selecionada principalmente pelo potencial que tem como atleta cheerleader, destacamos ainda que a quantidade de atletas selecionada por amiguismos é pequena, e que mesmo que seja pequena ou insignificante isso tira a credibilidade do processo”.

A UBC no centro do debate

O Cheer Post Brasil é administrado por Fernando Calegari, atleta da equipe Universitária Kapytãs e da All Star Frontcheers, além de ser coach das equipes Fox Cheers, Hulkats e Lions. Fernando sustenta a história: segundo ele, há favoritismos e a escalação dos mesmos atletas em diferentes anos é um indício disso.

“Historicamente, sabemos que no início do Team Brazil era difícil conseguir pessoas para competir (…) De lá para cá muita coisa mudou, mas por ver as mesmas pessoas desde sempre, por ver que o cheerleading cresceu e desenvolve cada vez mais atletas, por não ver muita transparência por parte da instituição que administra o Team Brasil para quem está de fora, vê isso e vai achar que o processo está sujeito a falhas. Através disso, surgem fofocas e vários achismos”, conta Felipe. Outro fator apontado por ele seria a escalação de atletas “sem um mínimo de tumbling”.

A crítica à UBC acontece dentro de um contexto maior: a disputa entre a Confederação Brasileira de Cheerleading e Dança (CBCD) e a União Brasileira de Cheerleading pela representação do país junto ao ICU e, junto com isso, pela administração do Team Brazil. A disputa é antiga e já foi responsável por momentos como o desentendimento em Orlando, em 2017.

Calegari é vice-presidente da Federação Paranaense de Cheerleading e Dança, uma das três federações que fundaram a CBCD. A confederação foi criada como resultado de um longo processo que terminou no fim da parceria entre Lara Magalhães, hoje presidente da CBCD, e Felipe Leal, atualmente presidente da UBC. Ambos trabalharam juntos pelo fomento às associações no Brasil até 2018, quando a parceria foi rompida, como conta matéria sobre o tema.

“Se existe um suposto favorecimento, a instituição que deve mostrar o contrário, apresentar relatórios, documentos, mostrar que o processo foi inteiramente justo, mostrar transparência” –  Fernando Calegari

Segundo Calegari, não há relação direta entre a acusação e seu trabalho junto à confederação. Ele lembra que está no esporte há cinco anos, tempo durante o qual formou opinião sobre as entidades. “Se hoje eu tenho críticas às instituições que representam o esporte, elas foram construídas ao longo de todo o meu percurso, não exclusivamente ao entrar na CBDC”. Ele também destaca que a crítica não foi pessoal. “Se isso está sendo visto como um julgamento, é preciso entender que é um julgamento sobre processos, não sobre pessoas. Em nenhum momento foi posto em prova a qualidade dos atletas da seleção”, explica Fernando.

A UBC é, desde sempre, responsável pela escalação do Team Brazil. Felipe Leal destaca que a acusação só pode se referir ao primeiro ano da equipe, quando o contexto era outro. “No primeiro ano, aconteceu uma seletiva, mesmo que informal. Os Treinadores convidados pela UBC escolheram os melhores atletas possíveis naquele momento, que tinham a capacidade de participar, e ainda por cima, acreditar no sonho da Seleção. Para quem não sabe, no início do esporte no país, houve uma tentativa de levar os atletas ao mundial, mas infelizmente não aconteceu”, conta Felipe. “A partir daquele ano, a seletiva ficou cada vez mais rigorosa e os critérios de seleção, cada vez mais transparentes. Hoje, contamos com Editais que selecionam tanto os atletas como os treinadores, assistentes, preparadores, psicólogos e todos que queiram participar como corpo técnico da seleção pela UBC”, finaliza.

“O comentário feito nesse perfil é tendencioso e isso ofende todos os que participaram direta e indiretamente da organização do projeto Team Brazil, bem como os seus atletas” – Felipe Leal 

Como as acusações não foram dirigidas a uma equipe específica, o fato poderia ter ocorrido em outras gestões. Por isso, Rodrigo Gonçalves – presidente da UBC de 2009 a 2017 – e Clara Ascêncio – presidente de 2018 a 2019 – também poderiam ajudar a entender a questão. Rodrigo Gonçalves destaca que não pode falar sobre o assunto sem antes saber em que gestão o fato teria acontecido. “Se a pessoa disser em qual gestão foi e o que aconteceu, estou à disposição para falar sobre, caso tenha sido na minha gestão”, declarou.

Já Clara explica que sempre deu autonomia completa aos coaches da seleção para escolherem os atletas com os quais iriam trabalhar. “Eu sempre deixei os coaches autônomos na decisão sobre quem faria parte do time onde eles seriam os líderes, sabe? Eles tinham esse poder e eu não interferia sobre pessoas escolhidas, até porque eu tinha outras muitas coisas para resolver relativas ao mundial e outros projetos da UBC. Sempre confiei que a escolha deles seria por um bem maior da seleção como um todo, levando em consideração seus conhecimentos técnicos e profissionais, mas justamente por não entender ao certo como era essa escolha, não consigo dizer se havia ou não algum tipo de favoritismo”, conta Clara.

Os profissionais envolvidos

A alegação de favoritismo cai no colo de um grupo de profissionais que, ainda que não tenha sido a intenção, estão direta ou indiretamente citados. São atletas, coaches e membros das comissões técnicas que participaram do processo de escalação das cinco seleções que representaram o Brasil no mundial. Entre os diretamente envolvidos estão os coaches das seleções nacionais, que sempre tiveram total independência para escalar a equipe.

Além de Davi França (RCR), atual coach do Team Brazil Coed, e Nayara Araújo (Arkhaios), do All Girl, Leandro Rente (Marvel) foi o responsável pela escalação das equipes ao longo dos anos. Marcio Tavares (RCR), coach da seleção de 2015, estaria fora da crítica, já que Fernando destaca que no início do projeto a dificuldade em encontrar atletas justificava uma escalação menos rígida ou transparente.

Os tryouts para o Team Brazil tiveram início em 2016, sob o treinamento de Leandro, que  comandou o time Coed até a temporada 2018/2019, quando nasceu o All Girl. Leandro conta que muitos fatores eram levados em consideração na escalação da equipe, mas que todos eles sempre serviram para identificar os melhores nomes para a rotina. “Tudo pode ser encarado de forma positiva ou negativa, por isso existem os famosos ‘haters’. O que posso dizer é que durante minha administração eu sempre procurei escolher as melhores opções e combinações possíveis de atletas, considerando as opções disponíveis. Talvez seja uma surpresa para alguns, mas não são todos os atletas do Brasil que participam do tryout. Muitos deixam de participar por falta de tempo, dinheiro ou motivos pessoais”, conta Leandro.

Sobre os atletas que selecionou, Leandro garante que o processo não foi injusto, e que todos mereciam o espaço que tiveram na equipe. “Foi um imenso prazer e honra poder ter trabalhado com tantas pessoas talentosas e esforçados. Independente do que digam, cada um deles mereceu estar lá, pois se dispuseram a todos os sacrifícios e comprometimentos da jornada, e fizeram história. Esses atletas foram e são peças importantíssimas no desenvolvimento do Cheerleading Brasileiro, e ninguém nunca vai poder tirar isso de vocês”, defendeu.

“É chato ver esse tipo de situação em um ano tão difícil. Os atletas gastaram dinheiro, treinaram e não puderam ir ao mundial. O que eles merecem agora é apoio e uma polêmica dessas é bem desagradável. Mas nós estamos expostos a esse tipo de coisa. Tudo bem” – Davi França

Quem ocupa a liderança e o treinamento da equipe Coed hoje é Davi França, que foi escolhido na primeira seleção de coaches da história da seleção. Ele liderou duas equipes: a do campeonato Pan Americano de 2019 e do Mundial de 2020, que não aconteceu. Para ele, basta olhar para as equipes e saber um pouco mais sobre o processo para constatar que o favoritismo não existe. “Desde o Pan, o processo seletivo foi legítimo. Dos atletas que participaram do tryout, apenas um não foi escalado porque tínhamos um número de vagas estipulado”, lembra Davi. Já na escalação da equipe para o Mundial, Davi teve um número maior de atletas disponíveis. “O processo, mais uma vez, foi legítimo. Todos os atletas foram analisados e a cara do time responde por si só: é uma equipe mista, com caras conhecidas e outras não. Há atletas de diversos estados”, aponta o coach.

Calegari não apresenta nomes de quem teria sido favorecido e de quem teria sido parcial na escolha dos atletas para a seleção nacional. Segundo ele, expor esses casos não é relevante para o debate. Ele também disse não conhecer ninguém disposto a dar mais informações. “Acho que ninguém quer apontar o dedo para ninguém. Não consideramos isso relevante. Somos um perfil de divulgação do esporte onde tratamos de temas pertinentes, além do entretenimento. Não iremos buscar expor ninguém relacionado a essa situação”, explica. 

Também foram escutados dezenas de atletas de todos os anos. Destes, nenhum alegou ter sentido algum tipo de favoritismo na escalação das equipes das quais fizeram parte. A maioria destacou, ainda, que não há uma enorme oferta de atletas de nível para os coaches reprovarem para dar a vaga para conhecidos. Muitos também falaram sobre os motivos apontados pelo @cheerpostbrasil como indicativos do favoritismo nos tryouts. Algumas dessas declarações e o debate sobre a questão estarão na matéria da próxima quarta-feira, aqui no Cheer One Channel. Tentamos contato com Nayara Araújo, atual coach do All Girl, mas não houve retorno até o fechamento deste texto.

Texto: Rodrigo Mariano

Produção:Fernando Henrique (C1C MG), Lilian Fontes (C1C RJ), Louise Aguiar (C1C RJ) 

Revisão: Isabella Boddy (C1C PR)

Instagram did not return a 200.