É seguro furar a quarentena e sair para treinar?

Na última semana, o Paraná trouxe à tona o debate sobre os treinos no período da quarentena. De treinos em locais públicos à reabertura de ginásio All Star, o estado é o primeiro a afrouxar o distanciamento social através do esporte. Afinal, é hora de voltar a treinar agora?

Exatos um mês e cinco dias após o início das medidas de distanciamento social no Brasil visando frear o contágio do Coronavírus, atletas debatiam sobre saúde, segurança e treinos. A discussão começou quando atletas criticaram a postura daqueles que estão descumprindo o isolamento social para treinar e defenderam a importância das medidas de distanciamento para que a crise passe mais rápido e o cheerleading – e o mundo – possa voltar a funcionar.

Embora a maioria tenha concordado com a crítica, havia pelo menos uma voz dissonante que tomou para si o recado e expôs seu ponto de vista sobre o assunto. Vitor Spricido é atleta bastante conhecido no cenário nacional, principalmente nas disputas de Partner Stunt, nas quais se destaca. Segundo o atleta, ele segue treinando apesar das orientações de autoridades da saúde do mundo todo, que apontam o isolamento social horizontal como única saída para vencer a crise do Coronavírus.

Treino e cuidados
Spricido não é, obviamente, o único atleta saindo de casa para treinar no meio da quarentena. Foi o único que respondeu imediatamente quando o assunto foi levantado, mas não faltam relatos de pessoas se encontrando para treinar. “Vejo algumas pessoas treinando, casais, amigos, mas acho que a atenção virou para mim no momento porque sou bem claro nos meus pontos e argumentações e isso acaba incomodando algumas pessoas. Quando tenho tempo acompanho atletas nos EUA – o atual epicentro da pandemia – e vejo grandes nomes como Gabi Butler e Logan Cain que, mesmo em lockdown, continuam treinando às vezes”, conta.

Thales Arthur Machado Soares, atleta do Tigres All Star, foi a pessoa que levantou o tema no grupo com a pergunta “por que tanta gente ainda está treinando?”. Segundo ele, sua crítica veio após saber que ainda há atletas treinando nos parques e praças da cidade, apesar da quarentena. “Essas pessoas estão sendo literalmente responsáveis pela propagação desse vírus que estamos todos lutando contra. Estão também sujando a imagem de toda a comunidade cheerleader de Curitiba. Para alguém vendo de fora, o que é visto são cheerleaders ignorando o isolamento social”, explica Thales. “Vitor disse que é um dos que estão treinando e que não se importava com a mensagem. Fiquei sabendo ali com os outros. Não era direcionado para ninguém, mas algo geral mesmo”, explica Thales.

Um dos fatores que chama atenção é o fato de Vitor ser atleta da Seleção Brasileira de Cheerleading para a temporada 2019/20. “Para muitos de nós esses atletas são exemplos”, destaca Thales. Segundo a União Brasileira de Cheerleading (UBC), a entidade segue oficialmente o direcionamento dos cientistas e autoridades médicas. Segundo Felipe Leal, presidente da entidade, a orientação da UBC para os atletas de cheerleading no Brasil é respeitar a quarentena. “Sabemos que isso pode ser desafiador e complicado para muitos e, por isso, todos os dias o treinador físico do Team Brazil produz um treinamento individualizado para que possa ser feito em casa pelos atletas da seleção. Dessa forma, esperamos poder ajudar nossos atletas a manterem a forma física e mental saudáveis. Recomendamos que os atletas sigam as orientações de cuidados básicos para reduzir o risco geral de contrair ou transmitir a doença. Procurar atendimento médico se necessário. Reforçamos também a importância de manter o condicionamento físico ativo durante a quarentena e, portanto, brevemente a UBC fará um treino especial para os atletas de Cheer realizarem dentro de suas residências”, destaca Leal.

 

Spricido é atleta de destaque do cheerleading do Paraná, principalmente no cenário do Partner Stunt. Foto: C1C


Treino adaptado

Embora o cenário nacional hoje inclua carreatas de negacionistas cobrando a reabertura do comércio e manifestantes que não acreditam na existência do vírus(!), no caso de Spricido, não há negação do perigo representado pelo Covid-19.

O atleta defende que cada um seja responsável pela gestão da sua própria segurança e atitudes e não antagonisa os treinos aos cuidados. “Tenho defendido sempre a importância dos cuidados e das medidas preventivas para não nos expor ou expor os outros ao Covid-19. Eu estou em quarentena, trabalhando em Home Office, evitando ao máximo sair de casa, assim como todo o Brasil está”, destaca Vitor. “No entanto, até um tempo atrás, eu era atleta, corria, fazia academia, diversos outros esportes e como várias pessoas, sou apaixonado pelo Cheerleading. Acho que cada um deve entender o risco a que se expõe e não deve ficar julgando as ações dos outros, assim como não faço com quem vejo treinando ou praticando atividade física fora de casa”, defende.

Vitor também busca tomar cuidados extras: “Eu evito treinar durante a semana, evito treinar dois dias seguidos (sábado e domingo) e peço para a flyer fazer uma higienização no tênis e nas roupas assim como eu faço para diminuir ao máximo os riscos antes do treino e quando chego em casa, pois como todos sabemos “tocar” é a forma mais fácil de fazer o vírus se proliferar. De qualquer forma existe um risco hoje em tudo que fazemos. No entanto, conversando com a especialista que tenho em casa, devemos seguir com as medidas preventivas básicas: higienizar sempre as mãos e colocar as roupas usadas no dia a dia para lavar”, destaca.

Afinal, Vitor e todos os outros atletas que seguem treinando estão ou não estão em perigo? Devem ser criticados pela decisão ou merecem ter a opinião respeitada pelos demais? Legalmente, o Brasil ainda não decretou lockdown como muitos países fizeram a essa altura da crise. Os estados também não o fizeram e no local onde Spricido mora, o próprio prefeito, Rafael Greca (DEM), oscila em suas posições e mantém os parques abertos para o lazer. No que diz respeito ao comércio, o governador declarou recentemente que “nem autoriza nem desautoriza”. Treinar agora não é ilegal. Mas é seguro?

 

Em alguns estados do Brasil o sistema de saúde entrará em colapso nessa semana. Foto: Mário Oliveira – SEMCOM

 

Há treino seguro?
Para responder a pergunta, achar a fonte correta é fundamental. Nomes como Átila Iamarino, Drauzio Varella, João Paulo Santanna Pinto, médico especializado em Medicina do Exercício e do Esporte pela USP, têm a mesma opinião: nada justifica sair de casa nesse momento em que o país caminha para uma catástrofe completa. Nenhum desses nomes, porém, sabe o que é ser cheerleader, o que é o esporte, como ele funciona. Mas há quem saiba e pode falar com propriedade.

Luiza Borges é atleta do Grand Casino All Star e médica. Ela atua na “linha de frente” do combate à Covid-19 na Clínica da Família Rodolpho Perissé e na UPA Jardim Íris. Luiza sente falta do esporte na vida, mas não está treinando porque, segundo ela, é absolutamente impossível treinar de forma segura agora fora de casa. “É importante a gente entender que sair de casa envolve muitos tipos de exposição. Pra sair de casa todos precisam tocar na maçaneta pra abrir a porta, tocar em um botão de elevador, abrir o portão de um prédio. No caminho até o destino, acabamos entrando em contato com diversas pessoas, que podem ou não estar contaminadas e podem ou não estar seguindo as recomendações de segurança. Mesmo que ao sair de casa o atleta e sua flyer se preocupem com a higiene, ao chegar ao local do treino, provavelmente ambos já terão sido expostos ao vírus”, destaca a médica.

Mayara da Silva também é atleta. Afastada do Furious Angels, equipe All Girl da Marvel All Star, por causa de uma lesão, ela também está na linha de frente. Ela é enfermeira na Clínica da Família Bárbara Starfield, no Rio de Janeiro, e concorda com Luiza. “Não adiantaria não treinar em dias seguidos se apenas um momento já seria necessário para se contaminar.  A Covid-19 é uma doença de via respiratória e sua proliferação é por gotículas ao falar, tossir, espirrar. Realizando um stunt os atletas não têm o distanciamento mínimo entre a base e a flyer pra que se alguém estiver contaminado essa disseminação não ocorra. O que temos que pode diminuir a distanciamento das gotículas seriam as máscaras, que no exercício físico iriam molhar com suor e perder sua efetividade. Já seria ruim o atleta estar na rua fazendo exercício sozinho, com outra pessoa e não respeitando o distanciamento mínimo é pior ainda. Não adianta limpar o tênis se no cansaço vai ficar ofegante na cara da flyer e vice e versa. O vírus pode permanecer em superfícies. Como é possível garantir que no local em que eles estão pisando não tem vírus? Eles vão conseguir limpar a sola do tênis no meio de um toss ou walk-in”?

 

Autópsias apontam danos permanentes nos pulmões de pessoas que morreram com a doença. Foto: Heudes Regis /SEI

 


Fator individual?
Treinar agora não é uma decisão individual. Nesse momento não existe isso. Essa é outra afirmativa que encontra eco entre especialistas. Com o distanciamento como a única saída para evitar que mais de um milhão de pessoas morram no Brasil, furar a quarentena tem contornos de egoísmo e de descaso com a vida alheia. “Exercícios são importantes agora, mas eles devem ser feitos no domicílio. Sair de casa para fazer atividades não essenciais não é apenas um risco individual”, destaca Luiza.

Mayara completa: “Uma pessoa pode transmitir o vírus pra até cinco pessoas. Caso o atleta se infecte e tenha complicações graves, em um estado de calamidade de saúde, ele ocuparia um leito no hospital tirando o lugar de outras pessoas mais velhas ou com outras doenças que não teriam a oportunidade de tratamento. Não tem como a gente falar que a OMS está julgando a ação de um atleta no Brasil, não é julgamento, é recomendação pra saúde de todos. Ir contra isso é ser egoísta e não levar a sério a morte de pessoas que amamos ou que são amadas por outras”, defende.

Tanto Mayara quanto Luiza destacam que nesse momento, se apoiar em números de casos para decidir qualquer coisa é uma ilusão. “Sobre cidades menores sem muitos números de casos, como estão esses casos e essa transmissão? A pessoa consegue assegurar que a transmissão não é comunitária, que foram isolados todos os casos? Que os casos isolados estão cumprindo quarentena e não há risco de demais contaminações? Como estão as mortes na cidade? O número de mortes por questões respiratórias ou indeterminadas tem se mantido o mesmo? Se nada disso consegue ser respondido, é necessário se manter em alerta e evitar situações não essenciais. Os casos estão sendo subnotificados no Brasil. Eu não acreditaria no número de casos que qualquer esfera do governo está oferecendo”. As projeções que levam em consideração o aumento de mortes desconhecidas e causas relacionadas a doenças pulmonares obstrutivas apontam que o Brasil só registra 10% dos casos.

Texto: Rodrigo Mariano (C1C RJ)
Revisão: Isabella Boddy (C1C PR), Gabriela Rapp (C1C GO) e Letícia Conde (C1C SP)
Produção: Fernando Henrique (C1C MG) e Gabriel José (C1C SP) 

 

Instagram did not return a 200.