Equipes All Girl realmente lidam com menos força?

Na temporada passada, duas rotinas de equipes All Girl trouxeram o partner para os tatames, dando força a um debate antigo: afinal, homens e mulheres realmente possuem força diferente?

Existem diferenças fisiológicas entre homens e mulheres que impactam nas práticas esportivas, principalmente naquelas em que capacidades físicas como a força e a resistência são necessárias, que é o caso do cheerleading.

Devido ao fato de os homens possuírem maior quantidade de massa muscular e menor gordura corporal e, também, por causa de fatores hormonais, eles acabam tendo um desempenho melhor no esporte.

Entretanto, isso não impede que as mulheres participem, cada vez mais, de atividades competitivas e que também pratiquem uma modalidade no mesmo nível dos homens.

Prova disso é que, na temporada passada, ginásios como a Marvel All Stars e o Spirit of Titans AllStar apostaram no partner como uma das habilidades presentes nas rotinas da categoria All Girl.

A decisão dos coaches

Segundo Alice Abade, coach da Theia – equipe All Girl nível 2 do Spirit of Titans -, suas atletas se dedicam muito para evoluir e conquistar novas skills. Dessa forma, colocar um quadro de partner dentro de uma rotina foi uma forma de mostrar para todas as atletas que os seus esforços e realizações são observados e reconhecidos.

Além disso, Alice ainda comenta sobre a diferença em relação a treinadores de times Coed e All Girl. “Eu não acredito que exista uma diferença entre coaches de Coed e All Girl, não é uma linha tão delimitada assim. Acredito que exista uma didática diferente em cada coach e uma dinâmica a se seguir a partir de como é o time. Claro que eu vejo uma diferença entre didáticas, quando se tem um All Girl em mãos você tem que prezar pela técnica sempre, e as coisas evoluem de forma diferente, por isso acredito que em muitos dos casos os times All Girl tem uma maior limpeza em suas execuções”.

Já pela Marvel, Leandro Rente, coach do ginásio, afirma que não teve nenhum receio, pois a atleta que executou o partner, a Julia Lemos, já faz isso há muitos anos.

Leandro ainda fala sobre a diferença que sente como treinador de equipes Coed e All Girl. “Embora em times Coed tenha a facilidade da força natural dos meninos, as equipes All Girl costumam ser mais comprometidas e sérias com o treinamento. Mas, eu diria que a maior diferença é que justamente pelo fator força bruta o All Girl tende a se valer na refinação técnica e sinergia da equipe. Eu não diria que tenho um favorito, os dois são muito diferentes e tem pontos bem legais a ser explorados”.

 

 

Como é fazer um partner?

Na Marvel All Stars, o partner estava presente na rotina do All Girl nível 3 – a equipe Furious Angels – e foi executado um walk in pela base Julia Lemos e pela flyer Jac Adami.

Jac conta que fazer um partner All Girl na rotina foi uma experiência surreal. “A gente treinou tanto pra conseguir isso. Nosso coach era homem, né, eles não encorajam partner All Girl tanto quanto coaches femininas. Então ter essa chance foi um baita ‘eu acredito em vocês’, foi muito importante pra mim”.

Já para Julia Lemos, fazer um partner na rotina foi uma grande responsabilidade. “Fiquei muito feliz e orgulhosa, primeiro por meus coaches e minha equipe acreditarem no meu potencial e no da Jacquinha, até porque em uma rotina All Girl não existe o quadro de partner então não precisávamos dele para nossa pontuação e ainda assim eles colocaram confiando no nosso esforço e acrescentando uma firula bem impactante em nossa rotina do ano passado. Confesso que fiquei muito nervosa em todas as competições e que nunca treinei tanto partner quanto o ano passado”.

Julia também fala sobre a diferença entre homens e mulheres como base no esporte. Para ela, apesar de existir uma diferença biológica e os homens realmente terem mais facilidade para hipertrofia e ganhar massa muscular, isso não impede que as mulheres também consigam.

“É muito possível, talvez tenhamos que treinar um pouco mais. Em questão de técnica, acho bases femininas muito mais técnicas e suaves fazendo stunt, aprendemos a nos ajudar muito mais rápido que os homens que muitas vezes têm a força para compensar. Eu costumo dizer que fazer stunt em All Girl é leve, mais rápido e mais suave. Coed por sua vez costuma ter muito mais tranco e disputa de forças. Mas nada disso é uma via de regra, depende muito de como os ginásios levam seus treinos e seus atletas também”.

No Spirit of Titans, o partner pode ser visto na rotina do All Girl nível 2 – a equipe Theia – e foi realizado um walk in pela base Carolinne Neves e pela flyer Sylviane Vitor.

Para Sylviane, fazer um partner All Girl na rotina foi muito recompensador. “É um quadro tipicamente de bases masculinas e que nunca antes na minha trajetória do cheer tinha sido cogitado ser feito em um All Girl. Ao mesmo tempo, eu me pressionei bastante porque não queria, de forma alguma, errar ali. Tinha que ser perfeito, limpo e bem executado, tinha que passar a mensagem aos olhos de todos de que sim, podemos e devemos como mulheres no esporte executar skills consideradas mais ‘difíceis’ e que exigem força. Porque somos fortes”.

Sylviane ainda afirma que ficou muito feliz dos coaches terem confiado nela para executar o elemento. Além disso, ela diz que fazer parte disso foi uma mistura de coragem e empoderamento e que ela teve muito orgulho de poder representar tudo o que acredita em um All Girl.

Por fim, para Carolinne Neves, fazer partner na rotina precisou de muito treino, mas foi incrível. “Cada vez que eu acabava as rotinas e tinha cravado o partner eu sentia uma felicidade tão grande no meu coração que nem sei explicar”.

Quanto à diferença entre homens e mulheres como base no esporte, Carolinne relata que pelas mulheres se preocuparem mais com a técnica as rotinas acabam sendo mais limpas, ao contrário dos homens, que muitas vezes se importam pouco com a técnica e fazem só na força.

Dessa forma, é possível entender que embora realmente existam diferenças biológicas que o gênero impõe as rotinas da Theia e da Furious Angels na temporada passada, ao trazer o partner como uma habilidade presente, mostram que as mulheres são capazes sim de executar um elemento que exige força, mas, principalmente, técnica e treino.

Texto: Letícia Conde (C1C SP)

Produção: Gabriela Oliveira (C1C SP)

Revisão: Isabella Boddy (C1C PR)

Arte da Capa: Rodrigo Mariano (C1C RJ)

 

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