Ex-atleta denuncia coach do Django All Star, Dyego Mykael, por assédio

Com prints de conversas que ocorreram em janeiro de 2019 via mensagens diretas no Instagram, Giulia Gabriela, ex-atleta do Django All Star, publicou uma thread no Twitter expondo o caso ocorrido com ela. Os tweets da ex-atleta deram início a um movimento de inúmeras outras atletas e ex-atletas que contaram suas histórias.

A tarde desta terça-feira (26/05) foi marcada por uma denúncia pública de assédio relacionado ao cheerleading brasileiro. O caso teria ocorrido entre uma atleta e o treinador e dirigente do Django All Star, ginásio brasiliense. Histórias sobre casos de assédio no esporte não são novidade. Elas surgem de tempos em tempos tendo como característica comum o medo de quem sofreu o assédio de expor a sua história ou assumir a denúncia. Sem contato com a polícia – também muito comum nesses casos -, a vida segue sem que os casos venham à tona, alimentando um ciclo que, muitas vezes, se estende por muitos anos.

Giulia quebrou esse ciclo ontem ao publicar em seu Twitter prints de conversas com Dyego nos quais o coach aparece fazendo comentários sobre seus seios e insiste em receber fotos da atleta sem roupa. De acordo com as imagens, depois de a atleta ter negado o envio das fotos e explicado que era casada, o coach sugeriu que fizessem uma chamada de vídeo. Após nova negativa, o treinador seguiu pedindo uma foto como um presente e garantiu: “Ninguém vai saber”. 

A conversa continua no dia seguinte, 13 de janeiro. O treinador volta a pedir fotos da atleta sem roupa e ela, mais uma vez, nega. “Houve muita insistência. Me senti muito desconfortável, até porque ele sabia que eu sou homossexual, que tenho relações apenas com mulheres. Todo mundo que me conhece sabe disso”, conta Giulia. Segundo ela, no treino seguinte à conversa que tiveram, houve retaliação. “No treino seguinte dessa conversa, quando não dei moral pra ele, na primeira oportunidade de me humilhar e de me constranger na frente do time inteiro, ele fez. Conversei com várias meninas novas que também estavam no time comigo e elas também confirmaram que ele agiu assim com todas”, conta. A acusação toma contornos ainda mais complexos por, segundo Giulia, envolver atletas menores de idade com 15, 16 anos.

No início de 2019, como acontece com muitas pessoas, o período de tryouts levou Giulia até o seu primeiro contato com o cheerleading esportivo. Foi o amigo Caio, ainda atleta do Django All Star, que a convidou para conhecer o ginásio. Os contatos via Instagram aconteceram, segundo a atleta, após o segundo treino. Veja abaixo o relato de Giulia.

 


Denúncias se multiplicam
Impulsionadas pelas publicações de Giulia e pela ampla repercussão do caso, outras duas mulheres relataram publicamente experiências vividas com o coach. Elas não pediram anonimato: Geovana Paisante conta que Dyego deu um camp em Belo Horizonte no início de 2019, durante o qual fez contato com ela via Instagram. “Eu fiquei sem reação porque, quando ele me chamou no Instagram e deu em cima de mim, a gente estava no mesmo ambiente, eu ia ver ele de novo naquele mesmo dia. Então eu não estava acreditando que ele estava fazendo aquilo. Primeiro eu pensei que fosse algo da minha cabeça, que eu estava vendo maldade em algo que não tinha, mas depois eu vi que tinha maldade sim. Eu não sabia o que responder e como agir quando visse ele de novo, e ele agiu normalmente como se nada tivesse acontecido”, conta Geovana.

Já no Instagram, Mariana Parente Martins, ex-atleta do Django All Star, contou via stories a sua experiência e publicou vídeos falando sobre o assunto. Em alguns deles, muito abalada, ela conta que aguentou a situação por muito tempo. “Foi uma das minhas piores épocas. E eu não falei uma, nem duas, nem três que estava me incomodando. Pedi no privado para ele parar de gritar comigo nos treinos. Mas, a partir do momento que você não aceitava ficar com o cara, ele te tratava como se você fosse um lixo e era só com as garotas. Os meninos ele nunca tratou desse jeito. Eu sei que vou perder amizades por causa disso. Vocês passam um pano do cacete, mas tudo bem. Não vai fazer falta. Peço que as outras garotas que passavam pela mesma coisa para mandar mensagem para mim ou para a mesma garota que publicou o tweet e me fez ter coragem de falar. Eu vou falar tudo. Vamos ver se dessa vez o povo toma consciência, porque os meninos presenciavam isso e passavam um pano do cacete”, declarou.

 

 

No próprio Twitter, onde a primeira denúncia foi publicada, outras atletas também repercutiram a acusação abertamente. São relatos públicos e assinados e, por isso, importantes para o entendimento do caso. Um deles é especialmente dramático por envolver uma escola e crianças de 12 anos de idade. 

 

Como costuma acontecer em casos de assédio, as publicações de Giulia e das outras ex-atletas deram o pontapé para que outras histórias surgissem. Tanto em resposta aos posts no Twitter quanto por inbox, diversas mulheres relataram terem vivido episódios parecidos com o denunciado por Giulia, que encaminhou para a redação inúmeros prints enviados a ela. Nossa equipe também recebeu mais conversas de mesmo teor ao longo de todo o dia. Checamos a confiabilidade das fontes e, respeitando pedido das mesmas, manteremos o anonimato, direito garantido pela Constituição Federal de 1988.

 


 

O contraditório e a lei
Em casos como o que dominou todos os espaços virtuais relacionados ao Cheerleading no início da semana, os aspectos jurídicos são sempre um fator a ser considerado. Segundo André Raja, diretor Jurídico do Cheer One Channel, que acompanhou todo o caso durante a cobertura, o parecer técnico sobre a questão mudou ao longo do dia, a medida que novas denúncias surgiam. Raja explica que há diferença entre o que a lei e o costume definem como assédio. Legalmente falando, os primeiros prints não caracterizariam o ato, a menos que se leve em consideração que o coach usasse de seu cargo à frente da equipe para buscar favorecimento. “A comprovação de reiterado assédio (aqui utilizado fora do contexto legal) em face de suas atletas permite supor o dolo do aproveitamento de sua condição superior para atendimento de suas pretensões sexuais”, explicou Raja inicialmente.

À medida que o dia avançava e novos relatos surgiam, o parecer técnico foi atualizado duas vezes. Na primeira vez, ao final da tarde, o advogado apontou que, em face dos novos relatos, a conduta poderia ser enquadrada no artigo 216-A do Código Penal. Por fim, hoje, após os relatos envolvendo menores de idade, novo parecer foi encaminhado, apontando a presunção que a suposta conduta poderia ser classificada como crime previsto na Lei 8069/90, o Estatuto da Criança e do Adolescente. Para ter acesso aos pareceres da diretoria jurídica do C1C sobre o caso, clique aqui.    

Para assegurar o espaço do contraditório, uma das bases do jornalismo moderno, fizemos contato com Dyego Mykael por volta de 15h da terça-feira. O coach chegou a responder à nossa coordenadora de produção às 15h20, aceitando dar entrevista sobre o assunto. Depois disso, não conseguimos mais contato. Dyego saiu de pelo menos dois grupos de whatsapp relacionados ao cheer durante a tarde. Seu perfil no Instagram teve todas as publicações apagadas e a conta agora é privada. Até o fechamento dessa matéria, à 01h05, Dyego não havia voltado a fazer contato.

Procurada para repercutir o caso, a União Brasileira de Cheerleading esclareceu por nota oficial que o posicionamento da entidade virá após encaminhamento e avaliação da questão por parte de sua Comissão de Ética.

Na tarde de hoje, 27/05, o ginásio Django All Star publicou nota oficial sobre o assunto. Segundo o texto, Dyego será afastado do ginásio que dirigia até então.

 


Um novo tempo?

Os relatos, prints, vídeos e áudios com novas histórias relacionadas ao coach do Django All Star continuaram surgindo publicamente e de forma privada ao longo do dia. Giulia fez nascer no início da tarde de ontem um movimento até então não visto dentro do cheerleading brasileiro. Enquanto nos últimos anos os casos de assédio eram contidos dentro dos ginásios e seguiam escondidos, ontem diversas atletas e ex-atletas contaram suas experiências. Dyego certamente não é o único treinador que ao longo da carreira causou grande desconforto e estresse psicológico em suas atletas. As histórias são muitas e talvez agora venham à tona com mais frequência. É possível que a terça-feira, 26/05, marque uma mudança de paradigmas nesse sentido e os sinais já são visíveis. Já há um movimento espontâneo se formando entre as atletas que agora se organizam para criar um espaço seguro para aquelas que precisarem de apoio em casos de assédio dentro do esporte.

Sem medo da exposição, Geovana convida outras atletas a virem a público e contarem suas histórias: “Vocês não precisam ter medo de contar o que aconteceu, é um alívio poder falar sobre isso e ter alguém que fique do seu lado. Não podemos deixar isso passar em branco, precisamos expor essas pessoas para que menos atletas sintam o que nós sentimos. Vocês não estão sozinhas!”. Giulia reforça o apelo: “Não se calem. Falem mesmo. Eu sei que é difícil passar por isso e que o medo nos consome por muito tempo, mas, quando você percebe o apoio das pessoas que também não aceitam esse tipo de conduta, as coisas ficam mais leves e, graças a cada pessoa que opta por falar, uma outra pessoa está sendo salva. Queria abraçar todas aquelas que passaram por isso. Dizer que elas não são as únicas, que elas não estão sozinhas. Agora estamos juntas e podemos lutar juntas contra isso. Que sirva de alerta para os atletas, os alunos e pais de alunos. Essas coisas não podem passar desapercebidas e apenas deixar as coisas para lá”, finaliza Giulia.

 

 

Texto: Rodrigo Mariano (C1C Rio)
Produção: Nicole Goldstein (C1C Rio), Ariel Strauss (C1C Rio), Gabriela Rapp (C1C GO), Isabella Boddy (C1C PR), João Paulo (C1C DF) e Lilian Fontes (C1C RJ)
Revisão: Beatriz Melo (C1C RJ), Gabriela Rapp (C1C GO), Isabella Boddy (C1C PR) e Letícia Conde (C1C SP)

 

 


Nota da redação

Esta matéria é resultado de inúmeras colaborações externas e do trabalho de uma equipe que trabalhou incansavelmente ao longo da tarde, noite de 26/05 e madrugada de 27/05. Os prints foram cedidos pelas pessoas que enviaram as mensagens à nossa equipe ou à Giulia, que nos entregou o material. Ainda que não fosse necessário por tratar de matéria jornalística sobre tema profundamente relevante, a publicação das conversas foi autorizada pelas envolvidas nas mesmas. No final da noite, ficou claro que seria impossível publicar todo o material que recebemos com a colaboração de Giulia e com o trabalho da nossa equipe de produção. Por isso, nem todas as histórias e prints estão na matéria. Optamos por dar prioridade aos relatos assinados e aos primeiros relatos anônimos de fontes seguras que chegaram até nós. Agradecemos a colaboração daquelas que, mesmo não aparecendo nessa matéria, trouxeram relatos que nos ajudaram a confirmar a história. Todo o nosso apoio às vítimas de assédio, sejam quem forem, estejam onde estiverem. Vocês sempre encontrarão um espaço seguro no Cheer One Channel.

 

Instagram did not return a 200.