Nós erramos. E pedimos desculpas.

Rodrigo Mariano – Diretor de Jornalismo C1C

Ano novo costuma ser uma boa época para fazer um exame de consciência e traçar metas para o próximo ano. Por isso, aproveitamos esse período para fazer uma autocrítica. Afinal, nosso trabalho vinha sofrendo críticas cada vez mais severas, e até acusações graves, irresponsáveis, inconsequentes e criminosas no final de 2019. Foi um fim de ano pesado.

Jogar a culpa no outro é sempre o caminho mais fácil. Não era possível que o problema estivesse apenas em alguns poucos leitores que só apoiam aquilo que os agrada. Eles existem, claro, mas nós também deveríamos ser culpados em algum nível. E éramos mesmo. E é por isso que esse editorial assinado por mim, diretor-presidente e editor do C1C é necessário.

Desde 2017 o C1C segue uma linha editorial que alimentou egos destrutivos em alguns espaços. Lidando pela primeira vez com uma mídia especializada no cheerleading, os personagens, grandes figuras para a nossa cobertura, acostumaram ao elogio fácil e passaram a ver qualquer crítica como um ataque direto e pessoal. Pior que isso: passaram a ver o engrandecimento do trabalho da concorrência como um ataque direto a si mesmos.   

Surgiram aí as paranoias. Nós estaríamos perseguindo equipes específicas ou protegendo alguns eventos porque falávamos mais de A e menos de B. Algumas dessas percepções, que não tinham nenhum reflexo na realidade, faziam parecer que as pautas do C1C eram decididas com base no que nós, os diretores, gostávamos ou não. Nem era verdade: evidenciamos muita coisa que, pessoalmente, preferíamos não ver em destaque, mas o trabalho da imprensa é reportar e é exatamente o que nós fizemos sempre. Ainda assim, as teorias da conspiração ganhavam cada vez mais terreno. E apesar de tudo, a culpa era mesmo nossa.

Eu explico: nossa linha editorial, como vocês ainda podem ler clicando aqui, tem como premissa o engrandecimento do esporte em primeiro lugar. Nossa primeira responsabilidade era com o desenvolvimento do cheer no Brasil. Por isso, muitas vezes optamos por focar naquilo que era bom, construtivo, positivo e evitar enfoques negativos. Queríamos mostrar e falar do melhor do que o cheerleading tinha para oferecer. Nunca nos escondemos: estava publicado o nosso norte, os nossos princípios-guias. Éramos assumidamente isentos, mas não imparciais.    

Funcionava bem com as equipes, mas no caso dos eventos, a relação era delicada. Como parceiros em potencial, todo evento era tratado com um cuidado extra. Afinal, justamente dali poderia vir o pouco que temos para investir no projeto. Nunca nos impediu de trabalhar dentro das melhores práticas do jornalismo, mas era andar na corda bamba porque nós, em algum nível, precisávamos desses eventos. Ia além: não foram poucas as vezes que sofremos pressão pesada de dirigentes para que não publicássemos algo que os prejudicaria em algum nível. Não cedemos, mas a pressão, de tempos em tempos, voltava a aparecer.

A questão é que no final de 2019, uma crise deixou evidente alguns pontos fracos no nosso processo de apuração e publicação. Ao evidenciar a opinião da maioria dos nossos entrevistados (coaches, organizadores de campeonatos e atletas) em relação a um evento, incomodamos outros eventos. E aqui, erramos.

Erramos porque ao escutar as fontes e reportar sua opinião, como funciona qualquer redação, grande ou pequena, nós realmente nos preocupamos com o impacto negativo. E jornalismo de verdade não se preocupa com impactos negativos. Na verdade, onde não há impacto, o jornalismo não cumpre seu papel social. É oco. 

Não é difícil entender como nós mesmos alimentamos essa situação. Basta olhar para o passado para notar que a decisão editorial de exaltar o trabalho feito pelo esporte só poderia levar a um caldeirão de egos. Em 2018, usamos expressões como “algo jamais vivido no Brasil” e, em 2017, “o céu é o limite” no título de matérias. Estranhamente, ninguém reclamou na época sobre a linha editorial que adjetivava eventos sempre positivamente. Mas quando os elogios trocaram de lugar…

Entendo hoje que ao buscar apenas o melhor, falhamos com o nosso público. Por isso, pedimos desculpas.

Prometemos que faremos de tudo para que nada disso volte a acontecer. Nós não dependemos mais de eventos e o enfoque no “engrandecimento do esporte” deixa de existir a partir de agora. De hoje em diante, nosso único compromisso é com a informação, com o leitor e com a nossa consciência. Nosso papel não é o de apenas elogiar: ao não criticar, faltamos com a nossa responsabilidade.

As denúncias de abuso por parte de dirigentes, de roubo de marcas, de total e completa falta de ética nas relações passarão a ser investigadas a fundo e publicadas. A lei, a jurisprudência emanada pelo Supremo Tribunal Federal e a Constituição Federal nos garante o direito de publicar tudo, absolutamente tudo, desde que a informação seja trabalhada jornalisticamente. E assim faremos.

As críticas serão, como sempre e cada vez mais, pensadas internamente na busca de soluções, mas nunca, jamais com o objetivo de acalmar egos feridos. Sempre que a crítica ultrapassar os limites da civilidade, haverá resposta: qualquer equipe, pessoa ou evento que se dedique a nos atacar de forma conjunta, planejada, arquitetada e totalmente desrespeitosa com o trabalho que nossa equipe realiza totalmente de graça serão sistematicamente expostos. A lei nos garante liberdade completa e irrestrita de pauta. A usaremos.

Nesse início de ano, repito o que falamos desde 2017: o Cheer One Channel veio para ficar. Mas a forma com que lidamos com o cotidiano do esporte que cobrimos há dois anos sofrerá mudanças ao longo do tempo. É natural. Por enquanto, o que posso prometer é um 2020 de jornalismo clássico, de jornalismo investigativo, de boas notícias sempre que elas existirem, mas de um olhar cada vez mais crítico sobre tudo que envolve o cheerleading brasileiro.

Vocês pediram, nós escutamos: arrancaremos alguns curativos e vai doer. Acontece. Jornalismo é isso.

E que venha 2020.

 

Instagram did not return a 200.