Nossa nova invenção: a categoria 2.1 – Afinal, cheer é esporte ou não é?

Erik Reis – Diretor Técnico do Cheer One Channel, Coach do All Star Avengers e Árbitro Born 2 Cheer

Não é só no Brasil que o cheerleading luta – e muito – para ser reconhecido como um esporte. E não é só nos tatames que essa batalha é travada: ela acontece nas reuniões com fornecedores e possíveis parceiros, em contatos com o poder público e com a iniciativa privada, dentro do jornalismo esportivo etc. É uma luta mundial – a série CHEER da Netflix mostrou como o cheerleading ainda é desconhecido como esporte para muita gente mesmo dentro dos Estados Unidos – que precisa de muita determinação e seriedade para ser vencida.

Na maior parte do tempo o Brasil faz o seu papel. Estamos investindo cada vez mais em desenvolvimento técnico e em contato e representatividade no mundo. Estamos no caminho. Acontece que de vez em quando a gente escorrega. E estamos no caminho de escorregar novamente ao insistir de maneira irresponsável em caminhar para longe do cenário internacional.

Tem uma expressão muito usada pela galera mais velha: a jabuticaba. Como a fruta só tem no Brasil, ela é usada para adjetivar tudo aquilo que o brasileiro inventa de fazer diferente do resto do mundo. Aquele famoso jeitinho brasileiro, sabe? Temos leis que são jabuticabas por serem uma maluquice jurídica que não acontece em lugar nenhum do mundo, só aqui.

Os dirigentes do nosso esporte são muito fãs de criar jabuticabas sempre que possível. Para “ajudar”, “democratizar”ou “tornar mais fácil” o trabalho de todo mundo e a participação de equipes nos campeonatos – ou seja, aumentar o lucro dos eventos e ginásios – criam categorias que NÃO EXISTEM nos códigos que regem o esporte. E fazem isso com a tranquilidade de quem troca de roupa, na base do achismo.

É o caso da categoria 2.1.

Ela não existe. E eu realmente penso que campeonatos e ginásios não deveriam encontrar espaço para inventá-la só porque têm vontade. Ainda que haja disputa, que se distribua medalhas e trofeus, ainda será uma categoria inventada, inexistente. Uma competição de algo parecido com o cheerleading, mas não de cheerleading de fato.

Sim, eu entendo que temos uma defasagem gigante no tumbling. Sim, eu entendo que ainda é difícil alcançar as exigências básicas. O debate é sobre o nível 2. Temos uma defasagem enorme no tumbling. Não temos ginástica nas escolas como lá fora. Nossos atletas têm o primeiro contato com o esporte já na faculdade. Mas isso não significa que devemos decidir nós mesmos, passando por cima das autoridades do esporte no mundo. E mais: justamente para países como o nosso existe a categoria non tumbling. Ela é oficial, reconhecida mundialmente. Não cabe opinião se é válida ou não.

Afastar o nosso cheerleading daquele que é feito no resto do mundo é uma irresponsabilidade sem tamanho. É declarar na prática que o cheer não é esporte, mas uma brincadeira que a gente muda de acordo com os nossos interesses.

Imagine o seguinte cenário: o Flamengo e o Botafogo chegam à conclusão que o gol do tamanho oficial está grande demais para os seus jogadores. Entram em contato com organizadores do Campeonato Carioca e decidem que vão dimiuir a distância das traves. Vocês conseguem IMAGINAR isso acontecendo no futebol? Não, certo? E o futebol é mais esporte que o cheerleading? E algumas equipes de ginástica e alguns campeonatos aumentando e diminuindo a altura dos equipamentos? Faz sentido? “Vamos descer aqui essa rede de vôlei porque meus atletas são mais baixos e o esporte tem que se adaptar a eles”. Recreativamente, pode ser. Profissionalmente, jamais aconteceria. E se nós queremos mirar em um cheerleading profissional, é hora de parar com as aventuras.

A simples existência desse debate mostra o quão importante são as entidades que regem o esporte. Essa discussão, se fosse acontecer, deveria existir dentro de um contexto de foco no desenvolvimento do esporte, da aproximação do Brasil com o centro de decisão do cheer, não no caixa de ginásios e campeonatos. A menos que a gente assuma de uma vez por todas que o cheerleading é só um produto que exploramos para ganhar dinheiro, não um esporte que nós amamos e queremos ver respeitado no nosso país.

A discussão ainda não está decidida e falta clareza para entender que as competições non tumbling – ao meu ver obrigatórias pelos códigos que seguimos (seguimos?) – não irão matar as acrobacias no cheerleading brasileiro como não fizeram lá fora. Falta calma para entender que todas as demais categorias com tumbling seguirão existindo e que treinar tumbling não torna obrigatória a disputa com tumbling. Ou torna. A decisão de quais categorias competir é dos ginásios e equipes. A categoria non tumbling é apenas mais uma opção, uma alternativa que só aponta para a democratização do esporte.

Agora é acompanhar o debate e esperar para ver. Vamos abrir mão da identidade esportiva e torcer o cheer nacional de acordo com a nossa vontade? E caso isso se decida dessa forma, como as entidades internacionais, que regem o esporte no mundo, vão ver essa aventura? E as associações nacionais, como irão se posicionar? A favor de quebras locais dos códigos de segurança que são internacionais? Vamos contiunuar criando jabuticabas?

Afinal, o Cheerleading é um esporte ou não é?

Certeza que todo mundo vai responder que sim. Mas tem que colocar na prática. Defender o esporte da boca para fora e criar categorias fantasmas é, no mínimo, assumir como ferramenta de gestão a contradição e isso não ajuda em nada o esporte brasileiro. Se é que realmente acreditam no status de esporte. A conferir…  

Fofo: Cheerflo / Cheer Extreme Code Black – Campeão International Open Coed Non Tumbling n.5 no último Cheerleading Worlds.



Nota da redação: Os artigos publicados com assinatura não traduzem necessariamente a opinião do Cheer One Channel. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate das questões relacionadas ao Cheerleading e de refletir as diversas tendências do pensamento, a pluralidade de visões e abordagens técnicas possíveis.

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