História do Cheer Brasileiro │O Caso Bauru

A Idade Antiga do Cheerleading Brasileiro tem início em uma cidade do centro-oeste paulista, cerca de 326 quilômetros da capital.  Assim como tudo no início, o hoje conhecido como Caso Bauru nasceu de um sonho dividido por diversos atletas inexperientes que não faziam ideia na época que eram, na verdade, desbravadores.­

Mas, antes de chegar a Bauru, uma breve retrospectiva: Cauê Souza treinava o primeiro time All Star do país, o Rio Twisters, no Rio de Janeiro. Em São Paulo, a UBC dava passos no caminho do sideline e do cheer universitário. Mas era em Bauru que uma iniciativa que marcaria o início de uma nova era pro Cheerleading tinha início. A cidade seria palco de um dos episódios mais curiosos do esporte no país, até bem pouco tempo pouco comentado.

O ano era 2010. Cauê, na mesma época em que fez contato com a UBC, ministrou um dos primeiros camps do país, em São Carlos. Estavam ali os atletas do Rio Twisters, da equipe de Medicina da UFRJ, do Deliders, UFSCAR e um time de dançarinas de Bauru. Não se sabe exatamente o que fez nascer a ideia naquela altura, mas ela nasceu. Cauê e Bruna Perandre pensaram grande: “E se formássemos a primeira Seleção Brasileira de Cheerleading e fossemos até o campeonato do ICU”?

A proposta foi prontamente aceita por todos os envolvidos. O esporte fervilhava no sangue e a vontade de ir onde ninguém havia ido era enorme. Mas não era só vontade. Bruna Perandre, ginasta renomada, tinha contatos em Bauru e daí surgiu a ideia daquela que seria a cidade-sede da seleção. E quem não era de lá, bem… Teriam que dar um jeito. Todo grande feito exige grandes esforços, certo? E foi assim que cerca de 25 pessoas deixaram suas vidas e foram morar em Bauru. Não, não era período de férias. Alguns atletas trancaram faculdade pelo sonho. Eles se mudaram e, entre idas e vindas, alguns se dedicaram ao projeto por 6 longos meses.

“Pessoas vieram de Campinas, Bauru, Jundiaí, São Paulo, Niterói, Rio de Janeiro. Pessoas que escolhi através de vídeos, Orkut e afins e que faziam algo correlato, como parkour, ginástica, dança… Explicamos o projeto, as pessoas toparam. A gente acreditava que chegaria lá” – Cauê Souza

A prefeitura liberou um ginásio para a equipe, conhecida como “Seleção de Bauru”. Ali eles treinavam e viviam. Dormiam em beliches em cima da laje do banheiro feminino, mas vez por outra alguns preferiam o fosso do ginásio onde treinavam ou a cama elástica. A convivência e a quantidade de treinos acabou criando uma equipe forte, principalmente no tumbling. A convivência também criava laços. E enquanto esperavam o patrocínio da prefeitura de Bauru, que bancaria a viagem e inscrições, treinavam.

“Treinávamos 6 ou 5 vezes por semana. A maioria dos homens tinha dupla pirueta e muitas meninas tinham kick full. Nos stunts éramos crus, mas tínhamos bases fortes e flyers com potencial. Se passássemos um ano treinando naquele ritmo, acho que ficaríamos entre os 5 primeiros no ICU” – Pedro Campelo

Um dos primeiros – se não o primeiro – Cheer Camp do Brazil, que deu início ao Projeto Bauru. Foto: Ariel Gricio / Arquivo Cauê Souza

O sonho adiado
Não houve uma data específica em que ficou claro que a primeira seleção brasileira não chegaria a de fato ser uma seleção. Prazos e datas iam se aproximando, passando e os apoios prometidos não chegavam. Os contatos na prefeitura não conseguiram capital político suficiente para disponibilizar as verbas necessárias e prometidas a Cauê e Bruna. Os patrocínios não vinham e atletas da equipe passaram a buscar ajuda também. Leandro Rente e Tatiana Callado se empenharam, mas nada funcionou. A inscrição para o mundial passou. O projeto não era mais realista.

“Os treinos eram basicamente à tarde e à noite. Foram muitas e muitas horas de treino nas quais ocorreram muitas lesões em grande parte da equipe. Chegamos a ter apoio de um fisioterapeuta local. As habilidades em stunts no geral eram muito fracas porque não tínhamos experiência nenhuma. aquele foi um ano muito difícil, mas de muita aprendizagem” – Márcio Tavares

Cauê, pressionado pelos atletas, sem uma resposta positiva do governo, deu a iniciativa por encerrada. Era início de março quando o capitão abandonou o navio. A Seleção de Bauru se desmontou aos poucos. Alguns atletas voltaram para suas cidades, outros ficaram por mais um tempo, como Marcio Tavares e Patrícia Santana, que permaneceram em Bauru por mais alguns meses, ainda treinando. Fato é que aqueles atletas viveram juntos e lutaram juntos pelo sonho da seleção, que só viria a se concretizar de fato cinco anos depois, muito pelo mesmo sonho mantido vivo por Márcio e Leandro, com o apoio da UBC.

Quase um mito
O “Caso Bauru” tem quase dez anos, mas é algo quase lendário no cheer brasileiro. Ganhou esse ar porque durante muito tempo, ninguém falava direta e facilmente do período. Era um elefante na sala do cheer. Pra além disso, tem roteiro de aventura, o que ajuda a dar cores de lenda para o fato. Mas aconteceu. Foi real. E foi bastante real também o rancor que por algum tempo os atletas guardaram de Cauê por conta do episódio. Mas o tempo ajuda a entender a história e, com certa distância, tudo fica muito humano.

“Eu tinha uns 19 ou 20 anos na época. Era inexperiente, imaturo, mas acreditei, como todo mundo e acabei pagando um preço. As promessas não cumpridas não foram minhas, mas da prefeitura. Sim, pessoas ficaram ressentidas com razão, embora eu tivesse feito o máximo para dar certo. Acho que depois de anos, agora o pessoal consegue ver que as minhas intenções são sempre as melhores para o crescimento do esporte. Eu não faria algo para não dar certo” – Cauê Souza

Hoje, esse episódio de sonho, coragem e um pouco de maluquice por parte de jovens decididos não traz mais rancor. Escutamos Pedro Campello, Leandro Rente, Marcio Tavares, Sofia Selles, Monica Queiroz e muitos outros sobre o assunto e a avaliação geral é de que aqueles treinos certamente ajudaram ao cheerleading brasileiro a evoluir logo em seguida. A Seleção de Bauru certamente emprestou seu DNA ao que viria logo depois dela: o nascimento do Rio All Stars e do All Star Avengers e, com eles, o cenário competitivo All Star do cheer brasileiro.

É justamente sobre essa fase que se iniciava e que deixa profundas marcas até hoje que falaremos no próximo artigo da série “História do Cheerleading Nacional”, lançada pelo C1C como parte das comemorações dos dez anos do esporte no Brasil. Até lá!

 

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