História do Cheer Brasileiro │O encontro das vertentes

Rio Twisters Allstar. Esse era o nome do primeiro time All Star do país, dedicado ao cheerleading atlético, esportivo, voltado para competições. Um time Brasileiro era um sonho feito realidade para aqueles primeiros atletas que, até então, tinham como parâmetros técnicos a experiência de Cauê Souza no Cheer Eclipse Comets nos EUA e os vídeos que começavam a ser publicados lá fora no então recém nascido You Tube.

Os treinos com a turma de medicina da UFRJ, que se preparava para o OREM – atualmente sucedido pelo Intermed – também ajudaram nesse primeiro momento de disseminação do esporte no Rio. As redes sociais se popularizavam e o cheer começava a ganhar espaço aqui e ali, já com as primeiras publicações nacionais, como no vídeo do primeiro Double down de Cauê no Rio, gravado durante um desses treinos.

“Treinávamos cheer em todos os lugares: praças, Aterro do Flamengo, praias… Chegamos a pagar mensalidade para treinar em ginásios como um que tem em Piratininga, do Fellipe Venturino (que fica nos fundos da casa dele, é bem legal) e no Abel (uma escola) ambos em Niterói.” – Sofia Selles, ex-atleta

Foi justamente após o OREM que nasceu o Rio Twisters, com Cauê Souza como coach. Dessa primeira fase do primeiro time All Star nacional não sobrou muito além da memória daqueles que participaram dele. Os treinos eram nas manhãs de sábado, sempre que era possível. Treinavam porque queriam dominar o básico do esporte. Não havia competição naquela época, mas aqueles primeiros atletas seguiam treinando, sem saber o papel fundamental que teriam no futuro do esporte por aqui.

“As apresentações no OREM 2009 foram importantíssimas. Ali realmente foi inicio em termos de apresentação, porque até então só treinávamos, brincávamos. Dessas apresentações as coisas começaram a fluir de fato”.
Cauê Souza – coach e atleta

Um dos episódios mais curiosos do cheer competitivo brasileiro começou em um marco: o primeiro – ou um dos primeiros – Cheer Camp ministrado no Brasil. O evento nasceu de contato feito por Cauê Souza com alunos da Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR), que já tinha seu time universitário. Participaram do camp, em 2010, além da UFSCAR, o Deliders, da Unesp Rio Claro e as Texuguetes da Unesp Bauru, entre elas, Mônica Queiroz, outro nome que iria acompanhar o cheerleading daí para frente.

Rodrigo Gonçalves, fundador da UBC

UBC: a primeira entidade
São Paulo, naquele momento, invertia o eixo do cheerleading esportivo, tirando-o do Rio de Janeiro: a União Brasileira de Cheerleaders começava a tomar maior projeção, empurrando o cheerleading nacional para grandes mídias. O processo que fez nascer a entidade que mais tarde seria uma das bases do tripé que fundaria o cheer competitivo no país vem do desenvolvimento das práticas em São Paulo. Diferente do Rio, que teve seu início de fato pelo primeiro ginásio All Star, o cheer paulista tinha raízes mais culturais.

Pensada a partir do final de 2007, a entidade surgiu na esteira da crescente popularidade do Futebol Americano. A medida que o esporte ganhava notoriedade, um de seus traços culturais passou a ser pensado: a animação das torcidas nas laterais dos campos, o “cheer sideline”. Spartans, Storm, Rhynos, Gators, Silver Bullets e Poenix estavam entre as equipes da Federação Paulista de Futebol Americano que passaram a organizar a animação de suas torcidas. Eventualmente, para treinar essas equipes, nasceu a Comissão Paulista de Cheerleading, comandada pelos mesmos dirigentes que, mais tarde, criaram a União Brasileira de Cheerleaders, uma das 3 bases que fizeram nascer de fato o cheerleading competitivo atlético no Brasil.

“Entre 2007 e 2008 alguns times consolidaram suas equipes de Cheerleading que participavam de apresentações, abertura ou intervalo de jogos e torcida”
Yoko Oliveira, atleta.

No final de 2008 e início de 2009, as integrantes do grupo de cheer sideline do Storm, treinadas por Rodrigo Gonçalves, formaram a UBC, a princípio para lecionar “clínicas de cheerleading”. Embora aos poucos acrobacias e levantamentos fossem aparecendo, o foco não era o cheerleading atlético, uma vez que as apresentações estavam ligadas ao Futebol Americano. O cheer sideline ganhou espaços na mídia como algo curioso, parte da cultura americana trazida ao Brasil, garantindo as primeiras aparições na grande mídia. Em matéria do Estado de São Paulo de setembro de 2008, por exemplo, o destaque é para cheerleaders “inspiradas em filmes americanos”. Além de Rodrigo, Wendel Dantas, professor de inglês, estava à frente da Comissão Paulista, desde que alunas se mostraram interessadas nesse traço cultural americano.

“Até aquele momento não havíamos pensado na possibilidade de exploração do aspecto esportivo, pois não havia um número grande de interessados – ou não apareceram em nossas pesquisas – em serem atletas. Além disso, o perfil das pessoas interessadas era de estar vinculado a uma equipe de Futebol Americano. Após acompanhar a caminhada e desenvolvimento do Futebol Americano em 2005 pelo professor Wendell Dantas, foi possível comprovar que não havia o acompanhamento de equipes de Cheerleading (Sidelines), contrastando esta realidade com a Norte Americana, Wendell teve a ideia de “trazer” o Cheerleading para o país.
Rodrigo Gonçalves – fundador da UBC

Por anos a UBC ofereceu cursos e clínicas de cheerleading sideline, mas a faceta competitiva, atlética, esportiva só viria a vingar mais a frente, quando o cheer carioca, sempre voltado ao esporte, encontrou o cheer paulista, mais voltado para a cultura. Em 2009, a UBC já estava consolidada e projetava objetivos claros para divulgação, organização e consolidação do cheer atlético no país. Essa nova visão era resultado direto da aproximação da entidade do International Cheer Union (ICU) e United States All Star Federation (USASF). Outro encontro importante para moldar aquela nova UBC foi com Tatiana Zapata, cheerleader do Chile que, naquele ano, fazia mestrado em física na Universidade de São Paulo (USP). A partir dela, o contato com o cheerleading chileno se estreitou, bem como a troca de experiências. Foi nessa época que o ex-atleta e coach chileno Benjamin Beltran e o Brasil se encontraram. 

“Em 2010 Benjamin Beltran esteve em São Paulo e ministrou um “Camp” (hoje chamaríamos de workshop) e, a partir daí, não paramos mais de trabalhar com o foco esportivo”.
Rodrigo Gonçalves – fundador da UBC

Um primeiro contato
O primeiro contato entre a UBC e o cheer esportivo já praticado no país aconteceu através do Rio Twisters. Aquele encontro seria responsável, anos mais tarde, pela pedra fundamental do cheer esportivo no país, mas ninguém sabia disso naquela altura. O contato se deu primeiramente com uma professora de Educação Física envolvida no projeto do Rio Twister e, mais tarde, diretamente com Cauê Souza.

Mas não foi ali ainda que a mágica aconteceu. Ela só surgiria de fato em 2011, com as relações que se estabeleceram entre UBC, Rio All Stars e, mais a frente, a partir de 2012, com o All Star Avengers. Acontece que antes das competições que foram fundamentais para o desenvolvimento do esporte, São Paulo foi palco de um dos episódios mais curiosos e marcantes do cheerleading brasileiro: a Seleção de Bauru ou “O Caso Bauru”, como muitos o conhecem hoje. Depois dela, e graças à convivência que ela proporcionou, nasceu o Rio All Star e a história se desenrolou a partir daí.

Mas essa é uma história para a próxima matéria da série Know Your Story.

 

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