História do Cheer Brasileiro │Os primeiros passos de um esporte nascente

Não foi no Brasil que a semente do cheer esportivo nacional foi plantada, é claro. Não é capoeira. É cheerleading. E embora o país seja farto em talentos entre ginastas, naquele ano de 2007, eram poucas as referências do esporte por aqui. Pela TV, era possível encontrar alguns filmes americanos sobre líderes de torcida que estereotipavam mais que esclareciam. Hoje, Bring it On e similares até são vistos com certa nostalgia e têm algum carinho dos atletas, mas não eram muito colaborativos à época.

O cheer veio de avião, em julho de 2007, carregado na mala de um atleta que ainda hoje é referência no cheerleading nacional. Cauê Souza morou nos Estados Unidos entre 2001 e 2007. Lá, foi atleta de cheer durante o high school. Em 2007, competiu o mundial de clubes pelo Cheer Eclipse Comets e, naquele mesmo ano, retornou ao Brasil. Era julho quando chegou ao país, direto para Volta Redonda. Nova realidade imposta pelo retorno, era hora de buscar alternativas para seguir treinando. Cheerleading não era uma delas. Não havia treinadores, times, entidades relacionadas ao esporte e a busca começou pelos similares e substitutos óbvios, como a ginástica.  

“Quando eu cheguei no Brasil em 2007, não tinha muita perspectiva de cheerleading, porque não existia aqui. Fui procurar algo na parte da ginástica, tumbling, pra continuar treinando”
Cauê Souza, coach e atleta

Mas não era a mesma coisa. Não era cheerleading. Mas logo seria. Naquele mesmo ano, Cauê conheceu estudantes de educação Física do Centro Universitário de Volta Redonda (UniFOA) e, a pedido da professora, mostrou alguns elementos para a turma em um workshop. Era uma modalidade desconhecida e a curiosidade era óbvia. Aos poucos, aquele cheer embrionário começou a atrair atletas do trampolim, tricking, parkour e fez nascer o que seriam os primeiros integras. Daquele tempo, só o próprio Cauê  é testemunha. Isso porque para os outros, as atividades eram divertidas, mas logo seriam esquecidas. Para Cauê, aquilo era incentivo para ir além.

A fagulha universitária
Naquela altura, os atletas universitários davam os primeiros passos na direção do cheerleading. Embora campeonatos de cheer não fossem nem uma ideia na mente de alguém, os jogos universitários já existiam. As torcidas já pontuavam e, consequentemente, cheerleaders na sideline dos times podiam ajudar nessa pontuação. Fernanda Koga e Sarah Lambet, ambas alunas de medicina na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), buscavam atletas e conhecimento para criar um time universitário para o OREM – atual Intermed –, que se aproximava. Cauê e Fernanda se conheceram na UFRJ e ele se comprometeu a ajudar com a ideia. Cauê conhecia a importância do fator competitivo no cheer e sabia que os jogos universitários eram um campo fértil para que ele nascesse no país.

Foi a partir desse objetivo que Cauê Souza passou a pensar em um cheerleading brasileiro possível. Ao mesmo tempo, o destino conspirava em Niterói, uma cidade perto do Rio de Janeiro, onde Márcio Tavares estava na frente do computador checando as últimas visitas em seu perfil no Orkut, entre elas, a de Cauê Souza.

Os pioneiros se encontram

O ano era 2008. Em uma cidade próxima ao Rio de Janeiro, Marcio Tavares zanzava pelo Orkut quando esbarrou no perfil de Cauê. Enquanto passava as fotos públicas, esbarrou em algumas tiradas nos EUA e reconheceu o cheer ali. Todo o contato anterior era por vídeos no You Tube e filmes, mas aquilo poderia ser real. E Márcio não deixou a oportunidade escapar: fez contato. O primeiro encontro dos dois aconteceu em um gramado em São Francisco, Niterói, onde  treinaram algumas skills simples juntos. Aqueles encontros passaram a ser frequentes e, com o tempo, passariam a receber mais interessados.   Esse foi o caso de Tarso vicente, por exemplo. Praticante de acrobacias há cerca de um ano, Tarso treinava na praia de Ipanema quando conheceu Márcio. A amizade que saiu dali levou o cheer para a vida de Tarso, a convite de Márcio. 

Ele me convidou para treinar cheerleading com um amigo dele que estava vindo dos EUA, Caue Souza. Me explicou o que era o cheerleading e a experiência que Cauê havia tido lá e que passaria pra gente aqui. Seríamos os primeiros brasileiros a praticar, aparentemente. Topei sem pensar.”
Tarso Vicente, ex-atleta

Em meados de 2008, o esporte ganhou impulso com a chegada de mais ateltas que formariam o grupo pioneiro do cheerleading no Brasil. Naquela altura, Márcio incluiria mais uma variável importante na história: o ginásio de ginástica olímpica da AABB São Francisco, em Niterói (onde mais tarde a Marvel All Stars fundaria a sua sede). Estagiário do espaço, ele já havia treinado algumas acrobacias por lá. Foi assim que ele conheceu aquele que seria mais um pioneiro do esporte e seu grande amigo: Leandro Rente. Leandro não só topou o desafio como levou com ele Sofia Seles. Esse grupo, somado a Renan Teixeira, foi o time de pioneiros do cheer brasileiro.

Eu estou presente no Cheerleading desde 2008, acredito que antes disso não haviam outras equipes além da nossa. Eu diria que o primeiro treinador de Cheerleading do Brasil com conhecimento técnico real foi o Caue Souza, a pessoa que me introduziu ao esporte”.
Leandro Rente, coach e atleta

 

Uma outra perspectiva
Embora a maioria dos mais antigos atletas do cheer em atividade e afastados apontem Cauê Souza como o responsável pela chegada do cheerleading atlético no Brasil, há uma versão suportada por alguns depoimentos. Nela, os professores de Educação Física Rodrigo Golçaves e Wendel Dantas, amigos de longa data, ambos professores de educação física e trabalhando com o Judô, encontram o cheerleading esportivo, já florescendo no Chile. Nessa versão, foram eles que trouxeram na mala o cheer desde o Chile e deram início ao seu primeiro grupo de treino no Parque Vilas Boas e no Ibirapuera, em São Paulo Capital. Outra versão é que Rodrigo Gonçalves havia conhecido um grupo de praticantes de uma espécie de cheerleading intuitivo e sem muita técnica e, por ter acesso a tatames por ser professor e competidor de judô, resolveu ajudar.

“As coisas aconteceram em paralelo. O esporte aconteceu naturalmente, por meio de algumas pessoas, sem que ninguém precisasse trazer ele. Os que mais se esforçaram pra trazer o esporte foram Rodrigo Gonçalvez e Cauê Souza. Embora o Cauê tenha sido mais bem sucedido, são ramos diferentes, com Rodrigo focado no lado escolar e Cauê no universitário e All Star”.
Mônica Queiroz, coach e atleta

 

 

Nota da redação
Vasculhar a história não é trabalho fácil. É preciso buscar fontes confiáveis, buscar os mesmos detalhes em diferentes histórias, confirmar versões. Sobre a introdução do esporte no Brasil, escutamos dez atletas e ex-atletas que viveram pessoalmente aquele momento. A versão que escolhemos para contar em detalhes é a que mais foi reforçada e contada pelas fontes, inclusive por pessoas que não têm mais contato hoje em dia com o cenário cheer. Oito dos dez depoimentos reforçavam a versão do cheer brasileiro derivando diretamente do cheer americano, via Cauê Souza. Nenhuma das duas que citaram a versão alternativa tinham certeza ou dados sobre ela. De qualquer forma, publicamos ambas para que nada fique de fora e possa ser desenvolvida a medida que novas fontes surgirem.  

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