Pablo Vittar, Conselho de Educação Física e os desafios do mercado de técnicos de cheer

Os exercícios físicos acompanhados remotamente e os perfis que oferecem conteúdo com treinos se multiplicaram na pandemia. Mas nem todo mundo pode orientar, nem mesmo via redes sociais, o treino de outras pessoas: para isso é preciso ser um profissional de Educação Física, e o conselho vem trabalhando bastante na fiscalização.

A cantora Pablo Vittar pode vir a responder criminalmente por ter feito o trabalho de educadora física sem a formação necessária para isso em uma live. Ela sugeriu um treino para pernas e glúteos aos seguidores no início de maio. O conselho Regional de Educação Física da Primeira Região (CREF1) recebeu queixas e oficializou uma notícia-crime no Ministério Público Estadual.

Em nota, o CREF1 destacou que “conteúdo específico de orientação ou prescrição de treinamento especializado de atividade física é função própria do profissional de Educação Física devidamente registrado no sistema CONFEF/CREF’s, nos termos da Lei Federal 9.696/98”.

Pablo chegou a dizer no vídeo que não é Educadora Física e que havia aprendido os exercícios em outros vídeos e com amigos. Além de sugerir número de repetições e tempo de descanso, Vittar também sugeriu o uso de cargas para potencializar os exercícios.

Segundo o presidente da Associação Brasiliense de Cheer e Dance: ( ABC&D) – Daniel Veloso -, se Vittar admite que sugeriu exercícios, admite também o exercício ilegal da profissão. “Naturalmente, há uma repercussão maior em virtude da notoriedade pública da cantora e do quase ineditismo de casos assim. Há de se considerar que a profissão é reconhecida, legalmente, há apenas 22 anos e que o próprio Sistema CONFEF/CREF’s está desenvolvendo formas de fiscalização, visando a proteção do beneficiário do exercício físico orientado”, conta Daniel, lembrando os casos similares com Gabriela Pugliesi e a atriz Claudia Raia. “Há visões discordantes, porém, ao meu ver e no entendimento da maioria dos conselheiros, a lei é muito clara. Há ainda várias disputas judiciais, o que vejo como natural, para um país não muito cumpridor de regras como o Brasil.”

E o cheer?
No cheerleading, o assunto ainda é tratado como tema delicado. A maioria dos coaches dos ginásios mais tradicionais, e mesmo dos novos clubes, hoje são educadores físicos formados ou em formação. Durante a pandemia, principalmente nos primeiros meses, quando os treinos em casa com acompanhamento de um treinador via redes sociais entrou definitivamente na moda, houve denúncias de atletas sem formação passando exercícios e atividades físicas via Instagram e Zoom.

O tema está no centro da atuação de Daniel: “Eu tenho uma atuação de predominância legalista. Um dos motivos da criação da ABC&D foi de proporcionar conscientização da importância da formação para prescrição de treinos no Cheer”, conta ele.

Daniel destaca que, no caso do cheerleading, há um contexto que precisa ser entendido, mas não tem dúvidas em relação ao caminho que deve ser seguido daqui para frente: “Obviamente, o Cheer tem uma diferença de ser um movimento novo. Há algum tempo, ainda discutia-se se o Cheerleading era esporte ou não. Um dos meus posicionamentos pessoais é: entender o Cheer como esporte (o que realmente é, considerando os movimentos, vigor físico e treinamentos) traz diversas vantagens: relacionamento institucionais, possibilidade de apoio governamental etc. Entretanto, também apresenta obrigações. Uma dessas obrigações é que a prescrição de treinos seja feita exclusivamente por profissionais de Educação Física. Então fico muito satisfeito quando vejo diversos coaches estudando EF e atletas formando-se e tornando-se coaches”, explica.

Precarização do trabalho
Leandro Rente, coach e dirigente da Marvel All Star e um dos primeiros atletas de cheerleading no Brasil, tem dedicado parte do seu tempo na quarentena a apresentar, explicar e demonstrar exercícios físicos que vem praticando no sítio onde está isolado com a família. Ele explica que, sem a formação, alguém que recomende exercícios em posts pode acabar levando alguém a se machucar.

Mas, trazendo para o mundo do cheerleading, Leandro destaca que o exercício ilegal da profissão também precariza o trabalho daqueles que de fato dedicam a vida profissional à educação física. “O problema real são pessoas que não são formadas em Ed. Física mas dão personal, ou treinos ao vivo, como acontece muito no cheerleading, especialmente no meio universitário. E essa culpa não é apenas de quem está dando o treino, mas de quem contratou os serviços do mesmo, sem checar a formação da pessoa”, defende.

Leandro aponta que os treinadores sem formação costumam cobram um valor irrisório ou nada pelos seus serviços. “São pessoas que não têm conhecimento em anatomia, biomecânica, prevenção de lesões. Não sabem identificar, corrigir e adaptar problemas posturais e fisiológicos de seus alunos, são apenas repetidores. Eles usam os conhecimentos técnicos que absorveram como atletas e passam da sua forma, daí vem os acidentes, que já estão propensos a acontecer em um ambiente apropriado, e com um treinador formado. Isso sem falar nos efeitos colaterais de ‘prostituição’ do esporte, porque estas pessoas estão ‘roubando’ vagas de outros que têm o cheerleading como meio de vida, e os forçando a diminuir seus preços em função da livre concorrência”, finaliza Leandro.

Instagram did not return a 200.