Perfil Cheer: Gabriela Barcelos

Série Perfil Cheer – Cheerleaders comuns com histórias incomuns.
Entrevista: Iago Bastos

Gabriela Barcelos era até bem pouco tempo uma atleta como tantas outras.  Gabriela – ou Gabi – é paranaense, de Curitiba, e tem 22 anos. Ela conheceu o esporte na faculdade através de amigos. Cerca de dois meses depois, ingressava na equipe All Star local: uma trajetória comum a tantos atletas.

Devido a sua vivência na ginástica artística e na dança, a afinidade com o cheerleading foi instantânea e somando-se ao seu biótipo bem característico de flyer, Gabriela se adaptou ao cheerleading perfeitamente. Sua passagem pela equipe universitária Borracheers (atual Dynasty) e pela equipe All Star The Royal Cheerleading foi ótima. Foram, segundo ela, cinco meses de convivência, treinos e aprendizado.


Muito bem acolhida nas duas equipes, Gabriela passou a se dedicar ao Partner Stunt e até uma semana antes do Campeonato Paranaense de 2017, tudo corria bem.O acidente durante o treino aconteceu no dia 02/11/2017 e tudo mudou daí para frente.


C1C: Como foi o acidente ?
Gabi: Eu me lesionei treinando Partner Stunt. Já tínhamos treinado o movimento (subida de reversão) antes e parecia que estávamos quase conseguindo, mas na hora que ele pegou na minha cintura para levantar, senti que o meu short saiu e no instinto de me cobrir eu acabei caindo, foi tudo muito rápido.

Foi uma reação instintiva então? O que aconteceu depois?

Eu bati a cabeça no tatame e logo senti que tinha algo de errado. O meu corpo estava ficando meio dormente. Ninguém tentou me levantar e nem fizeram movimentos bruscos. Eu sentia o meu corpo formigar cada vez mais, tentava mexer os braços e as pernas e com o tempo os movimentos foram diminuindo. Eu pedia para as pessoas encostarem nessas partes e fui sentindo cada vez menos também.

Já tínhamos treinado o movimento antes e parecia que estávamos quase conseguindo, mas na hora que ele pegou na minha cintura para levantar, senti que o meu short saiu e no instinto de me cobrir eu acabei caindo, foi tudo muito rápido.


O atendimento foi imediato? O quão grave foi a queda?
Chamaram a ambulância e fiz a cirurgia na noite do mesmo dia. Os discos entre as vértebras cervicais 5 e 6 foram parar na minha garganta. Isso fez a minha medula ser esticada, me deixando tetraplégica.

Eu estava me recuperando bem nos primeiros dias. Ainda conseguia mexer um pouco os meus braços mas o inchaço na medula aumentou e agravou a minha situação. Tive que ser entubada e a lesão então afetou o meu sistema respiratório. Fiquei algumas semanas respirando só com ajuda de aparelhos, e por ter um tubo na minha garganta eu não podia falar, não comia pela boca e não podia beber água. Eu não mexia mais nada do meu ombro para baixo e perdi toda minha massa muscular. Mas aos poucos,  bem aos poucos mesmo, eu fui melhorando, fiquei 40 dias na UTI e com muita fisioterapia eu voltei a respirar sozinha, comer pela boca e comecei a mexer os meus braços de forma sutil.


Em que momento você recebeu a notícia ? O que se passou pela sua cabeça ?
Eu fiquei sabendo que tinha me tornado tetraplégica “oficialmente” no dia seguinte que fui operada. Já tinham me falado algo antes mas eu nem sabia o que pensar, não tinha a menor noção do que realmente significava além de não andar e não mexer muito bem os braços. A minha mãe estava comigo na hora e só lembro de ter falado para ela que se eu ficasse igual a mulher do filme “A Menina de Ouro” eu não ia aguentar.

Mas os avanços começaram logo a aparecer, certo?

Sim. A minha lesão não comprometeu toda a minha medula e por isso eu recuperei movimentos do meu braço e tenho sensibilidade em grande parte do meu corpo.

Tínhamos um local adequado de treino e pessoas de spotter. Não tinha como impedir mesmo. Simplesmente aconteceu.

Que sequelas ficaram daquela descida de stunt que deu errado?

Não recuperei o movimento dos dedos da mão e nem das pernas. Sou cadeirante, dependo de cuidados diários e preciso tomar vários remédios por não ter muito o controle do meu corpo internamente.

Quais as possibilidades de recuperação no pós trauma ?

No final de agosto até metade de outubro do ano passado, eu fiquei internada em um hospital de reabilitação em Brasília, o Sarah Kubitschek. Aprendi muito sobre a minha lesão e pude ver que eu posso fazer muitas coisas, inclusive esportes.  Também tive acesso a procedimentos que podem melhorar a minha qualidade de vida.

Pode ser que eu recupere mais movimentos mas não tem como saber pois a lesão é bem complexa e variável. Apesar disso tudo, hoje, com 1 ano e 4 meses de lesão, consigo fazer várias coisas sozinha e estou me tornando cada vez mais independente.


E pensar que tudo isso começou em um treino comum. Como foi aquele treino?
Era um treino do The Royal. Estávamos treinando a rotina pro Campeonato Paranaense que seria na semana seguinte. Eu me lesionei no intervalo do treino quando estava treinando Partner Stunt. A rotina não era para aquele campeonato, mas estávamos pensando em competir no Campeonato Brasileiro que seria no mês seguinte.


No seu entendimento, houve negligência por parte dos treinadores e/ou atletas ?
Não foi o caso. Tínhamos um local adequado de treino e pessoas de spotter. Não tinha como impedir mesmo. Simplesmente aconteceu.

Como foi a relação com a equipe depois do acidente?

Eles me apoiaram na época. Chegaram a pensar em não competir, mas competiram com uma fitinha roxa no pulso em minha homenagem. Hoje em dia eu não tenho mais tanto contato com as duas equipes.

De lá pra cá, o que mudou na sua vida e como você tem lidado com essas mudanças?

Essa é uma pergunta difícil de responder porque a minha vida virou de cabeça pra baixo. Não é nada fácil pra uma pessoa que já estava acostumada a correr atrás das coisas sozinha, de um segundo para o outro, não correr e nem ao menos conseguir ficar mais em pé sozinha.

Dizem que estou lidando muito bem com isso tudo por ter aceitado e encarado o que me aconteceu desde o começo, e isso fez uma grande diferença pra minha recuperação, mas tem vezes que fica muito difícil. Tenho que viver um dia de cada vez e enfrentar batalhas todos os dias. O que me deixa mais tranquila é que sei que o pior já passou e sei que vou melhorar cada vez mais.


Não existe stunt no mundo que exija mais força do que Gabriela vem empregando com firmeza. Para quem quiser conhecê-la mais a fundo e acompanhar sua evolução de pertinho, ela tem um perfil no instagram: @gabi.mmb. A história da Gabi é importante para que nunca percamos de vista o fato de que o cheerleading está entre os esportes mais perigosos do mundo. No caso dela, foi uma fatalidade. Mas é importante que todos os atletas façam o possível para diminuir probabilidades e garantir a segurança de flyers e bases.

Instagram did not return a 200.