Treinadores: Um mercado interrompido sem perspectiva de retorno

Com a pandemia do COVID-19 assolando o mundo, o Brasil só acumula, com o passar dos dias, mais e mais casos – que já passaram dos 75 mil. Sem previsão de retorno dos ginásios, muitos treinadores estão passando por momentos complicados. Se a renda vem dos atletas, mas os ginásios estão fechados, como é que fecha essa conta?

Você sabe do que vive o seu coach? Foi literalmente isso que o Cheer One Channel foi atrás para descobrir. A equipe conversou com treinadores de estados – e ginásios – diferentes e cada um tinha uma realidade para retratar no meio da pandemia. Alguns com dificuldades maiores que outras, mas todos com algo em comum: o trabalho interrompido e um desenvolvimento prejudicado de seus respectivos atletas, fazendo com que eles tivessem que improvisar de maneiras extremas.

Representando os paulistas, conversamos com Jonas Dias, head coach do Galaxy All Stars. Apesar do treinador ainda não ter o cheerleading como renda principal, as mensalidades foram cortadas em 50%. O ginásio ajudava seus componentes fazendo caixa para os campeonatos, assim evitava problemas quando a temporada de competições fosse iniciada.

“Agora meio que perdemos o caixa do atleta e estamos só com a mensalidade destinada ao ginásio e suas manutenções. Nem pelo trabalho dos treinadores em si estamos cobrando, pois nem eu nem a coach Fernanda tínhamos o cheerleading como principal renda até então.”, relata Jonas.

Ele também conta que o ginásio não tem previsão de volta e que, apesar de estarem tendo treinos online, se houvesse algum campeonato nessa temporada, o Galaxy não participaria.

“Minha expectativa pro ano que vem é voltar com força total, esperamos que as coisas estejam mais tranquilas, tomando todos os cuidados, mas que possamos seguir com um ano de muito treino.”


Já na cidade maravilhosa, o coach Adriano Branco teve um impacto diferente e muito mais complicado. O também atleta – que representa o Royal Cheer Rio – não fala apenas da questão financeira, mas também de ver projetos sendo deixados de lado.

“Pra mim, está sendo uma das experiências mais horríveis da minha vida, porque eu sempre fui uma pessoa de contatos humanos. Eu não nasci pra ficar de frente para um computador e sem poder trabalhar com o que realmente me dá prazer. Está sendo muito difícil.”

O coach achou que logo tudo fosse se resolver, mas as coisas não eram tão simples quanto a imaginação poderia desenhar. Os dias viraram meses e a fase ruim se perpetuou por tempos inesperados.

“As contas continuam chegando e por mais que eu ainda more com meus pais e eles me ajudem, na medida do possível, a independência financeira faz muita falta. Acabo ficando frustrado e desestimulado. Estou realmente tentando ser o mais positivo possível de que tudo isso vai passar logo, mas no momento está sendo muito complicado por dois motivos: 1) não fazer mais o que eu amo fazer, e 2) por estar realmente quebrado financeiramente.”, afirma o carioca.

O treinador já tinha fechado 15 rotinas, todas já visualizadas, planejadas e prontas para serem executadas, e contou que ver os planos serem engavetados dessa forma, por falta de opção, era realmente frustrante.

“Eu tenho equipes que já demonstraram interesse em trabalhar comigo esse ano e acho que vamos continuar de onde paramos no ano que vem, então isso não me preocupa tanto agora. Me preocupa quando isso vai passar. Infelizmente essa temporada acabou sem nem ter começado, que a gente consiga reunir forças pra continuar fazendo com que o esporte continue crescendo e se tornando forte no Brasil.”, finaliza.

Pegando uma carona para Minas Gerais, a conversa foi com o Golden Lions. Ian Cerqueira, coach recente do time mineiro – e atleta no Brasília Xtreme -, contou um pouco de suas questões na temporada de 2020. Por trabalhar na ginástica acrobática e no circo – além de ter alunos de cheer -, a maior perda, para o coach, foi o trabalho que poderia ter sido realizado.

“O pouco contato que eu tive com os atletas afetou demais o fator de motivação. Eu entrei pra treinar o Golden esse ano, a decisão foi muito recente. É difícil em tão pouco tempo estabelecer uma disciplina dos atletas treinarem em casa com constância, sem o restante do time e sem treinador.”

O coach ainda completa: “Um trabalho de base precisava ser feito, muitos atletas não tinham tumbling e os que tinham precisavam de ferramentas para evoluir, tudo isso foi afetado.”, relata.

Mas, financeiramente, Ian não foi tão afetado.

“Eu tenho 19 anos, moro com os meus pais e estudo em uma universidade pública. Dificuldades para sobreviver eu não passo, apenas tive que entender que eu tinha um padrão de gastos que eu – por enquanto – não posso manter mais.”

No Paraná, o Cheer Factory mantém sua rotina de treinos online com a galera de Curitiba. Apesar de ter ficado chateado com as ideias não testadas, o coach Nelson Fernandes tentou tirar o máximo de positividade da situação que parecia se perdurar.

“Vários atletas melhoram seu flex, condicionamento físico e criaram o hábito de treinar em casa. Nós, coaches, também aprendemos muitas coisas, principalmente a nos adaptar com novos tipos de treino, e acredito que vamos poder usar coisas que aprendemos na quarentena após o término dela.”

O coach também comenta que o Factory criou protocolos para alongamento dos atletas e desafios voltados ao cheerleading, além de treinos físicos diários e a constante necessidade de inovar.

“Além disso, fizemos duas lives com o intuito de cuidar do bem-estar do atleta. Uma com uma psicóloga e outra com uma nutricionista.”, completa.

Já na questão financeira, o coach comenta que não vive de cheer atualmente, mas que o esporte era uma parte enorme de sua renda. “Hoje estou sem receber nada do cheer e tive que voltar a trabalhar fazendo delivery.”

Com dificuldades e “perdas” diferentes, todos seguem firmes e acreditando que a próxima temporada será uma divisora de águas. Com muita fé, o comum entre todos eles é a esperança de um 2021 diferente e, principalmente, presencial.

 

Texto e produção: Daniella Espindola (C1C RJ)

Revisão: Gabriela Rapp (C1C GO) e Isabella Boddy (C1C PR)

Arte: Ana Julia Pickler (C1C PR) e Gabriela Goulart (C1C RJ) 

Instagram did not return a 200.