Trinity Cheer Sports: desistir nunca foi uma opção

No final da semana passada o Trinity Cheer Sports treinou em um ginásio fechado pela primeira vez em nove meses. Foi a primeira vez que a formação atual da minha equipe teve acesso a aparelhos educativos, colchões e passadeira. No ginásio que abriga o Arkhaios há anos, o Trinity se reencontrou consigo mesmo. Enquanto olhava Nat treinando os nossos atletas, finalmente com condições mínimas de trabalho, muita coisa passou pela cabeça e achei que poderia ser interessante dividir uma coisa ou outra com quem nunca viveu a experiência.

Erik Reis é coach do Trinity Cheer Sports e Diretor Técnico do Cheer One Channel.

No final de 2017, o Trinity Cheer Sports era a equipe com o segundo melhor aproveitamento no nível 4, atrás apenas da Marvel por 10 pontos no Ranking C1C. Dos 11 ginásios que compuseram o ranking naquele ano, ocupávamos o quarto lugar em número de medalhas com apenas duas equipes. A temporada havia sido muito conturbada, com dois acidentes sérios no dia do primeiro campeonato mas, mesmo assim, os pódios vieram nos nacionais.

Os baques começaram meses depois. Pyter Arêas foi navegar novos mares fora do país. Alguns dos atletas que estavam com a gente desde o All Star Avengers escolheram outros caminhos. Alguns outros foram convidados por coaches para integrar seus ginásios com bolsas e também nos deixaram. A renovação foi de cerca de 90%. Apenas 5 de mais de 40 pessoas ficaram.

Em junho do ano passado, treinávamos uma equipe guerreira no nível 2. Era preciso voltar às bases e eu jamais seria irresponsável a ponto de forçar e comprometer o desenvolvimento dos meus atletas para buscar níveis mais altos. Atletas antigos toparam o desafio junto com a gente e tudo caminhava bem. Foi então que a Rio Sport Center fechou.

Foi difícil. Eu via o Trinity, uma equipe tradicional do esporte, não ser citada entre “as grandes” em conversas e matérias, mesmo aqui no C1C.

O Trinity estava na rua. A equipe era pequena e nós nunca cobramos alto. Na verdade, há quem sempre tenha visto a gente como uma “equipe pobre” justamente por isso. Pode ser… Não incomoda a gente. O problema é que entramos no que eu chamei de “paradoxo da estrutura”: por não termos um mínimo de estrutura, não tínhamos atletas suficientes para gerar o caixa que nos permitiria ter a tal estrutura. Estávamos presos em um looping, treinando no Engenhão, chovesse ou fizesse sol.

Foi difícil. Eu via o Trinity, uma equipe tradicional do esporte, não ser citada entre “as grandes” em conversas e matérias, mesmo aqui no C1C. Eu via as pesquisas não considerarem a gente ao falar do Rio. Eu via as apostas e planos da temporada passando longe. Nada disso era fácil. Mas com a luta e dedicação de atletas incríveis, fizemos um bom trabalho na temporada 2018. Aquela rotina tinha tanto significado que é impossível explicar em palavras. Mais uma vez, quem fez bonito no tatame foi convidado para outras equipes. Outros apenas seguiram vontades antigas, o que é justo e normal. Fato é que, mais uma vez, o Trinity foi completamente renovado.

Nós éramos invisíveis por um bom tempo e para alguém que dedica 100% da sua vida profissional ao cheerleading, isso não era fácil. Mas nenhuma vez desistir foi uma opção. Eu não estava sozinho nessa: Dih e Nat seguiam firmes e fortes comigo, seja lá onde fosse possível treinar. Quando eu balançava, eles me seguravam. Mesmo cientes de que estariam longe da estrutura ideal, atletas acreditaram no nosso trabalho. Apostaram na gente. Alê, ainda que namorando em outra equipe, seguiu com a gente. Sorrilha, voando ou não, não abriu mão do uniforme azul petróleo, mesmo quando tudo parecia bastante perdido. A equipe cresceu, mesmo com um tryout realizado em local público, e os atletas vestiram a camisa da equipe como poucas vezes eu vi acontecer em uma década de cheerleading.

Então, entre os companheiros coaches que pinçavam atletas, entre os que faziam piada com os nossos treinos no Engenhão, entre os que falavam com pena da equipe e entre os que propunham absorver os atletas bons do Trinity em seus ginásios, dois deles escolheram fazer diferente. Entendendo que a desistência não era uma opção para mim, Nayara Araújo, que além de ser a melhor coach desse país, dona do premiadíssimo Arkhaios Allstars, é minha amiga desde o início de tudo, se colocou à disposição um dia depois do fechamento da Rio Sport Center. Eu não pedia ajuda porque não queria sobrecarregar ainda mais alguém que além de treinar o talvez maior ginásio do país ainda é responsável pelo Team Brazil All Girl, mas ela seguia oferecendo ajuda.

Então, entre os companheiros coaches que pinçavam atletas, entre os que faziam piada com os nossos treinos no Engenhão, entre os que falavam com pena da equipe e entre os que propunham absorver os atletas bons do Trinity em seus ginásios, dois deles escolheram fazer diferente.

A grana continuava muito curta e ela sabia disso. Nayara sabia, inclusive, dos dramas internos da equipe e resolveu agir: se desdobrou dentro do clube e correu atrás por nós junto à administração. Enquanto lidava com suas obrigações, ela também buscava horários e espaços possíveis para que o paradoxo da estrutura fosse quebrado. Enquanto ela buscava soluções, pouco tempo atrás, outro coach ofereceu ajuda. Marcio Tavares, do Royal Cheer Rio, colocou seu espaço à disposição e passou a buscar o menor preço para que coubesse no nosso orçamento. Em cerca de 15 dias, duas equipes trabalhavam para ajudar uma terceira que vivia uma crise.  

E, assim, em 11 de maio, deixamos o Engenhão. No último domingo de manhã cruzamos as roletas do novo espaço que nos recebe.  

O Trinity Cheer Sports ocupa a partir de agora parte do domingo do Grajaú Contry Club, casa do Arkhaios Allstars. E eu, que julgava ser praticamente impossível ver coaches se colocando em risco, abrindo suas portas, estendendo a mão, apostando de verdade no cenário competitivo e dando a outra equipe um pouco daquilo que alcançaram, conduzi o treino de uma equipe profundamente motivada porque me provaram o contrário. Estava todo mundo muito feliz. Foi um treino importante para a gente e acho que o pior passou.

Agora, com a base segura, nos reorganizaremos e voltaremos para o espaço que sabemos ser nosso. E, mesmo quando isso acontecer, Arkhaios – e também o RCR – sempre terão a nossa gratidão. É esse tipo de postura que determina quem é grande de verdade, quem é campeão de fato, quem realmente faz a diferença para o esporte. É raro, não é para qualquer um, é grandeza para poucos, mas ainda bem que eles existem.

Minha total gratidão do Arkhaios. Muito obrigado, RCR. O Trinity Cheer Sports segue VIVO como sempre. Na rua, no Engenhão, seja lá onde fosse, desistir nunca foi uma opção.

Escrevam aí: JAMAIS será.

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