UBC reúne coaches e dirigentes para pensar o regulamento da temporada

A iniciativa até então inédita em uma década de gestão do cheerleading nacional tem como objetivo tomar decisões com base na perspectiva da maioria

A participação ampla de coaches e dirigentes nas decisões relacionadas ao esporte tem sido um dos pontos defendidos pela União Brasileira de Cheerleading nos últimos meses. Em tempos de quarentena, Felipe Leal, presidente da entidade, vem trabalhando para que a colaboração remota não pare. Nas últimas semanas, grupos de Whatsapp estão bastante ativos em atividades diversas, como o debate sobre o regulamento unificado que deverá nortear os campeonatos apoiados pela UBC na próxima temporada.

Nesses debates, profissionais e dirigentes de diferentes partes do Brasil discutem o regulamento na busca de um consenso. Segundo os representantes dos estados envolvidos no debate, a iniciativa está dando certo. Segundo Zazá Guttierres, vice-presidente da Associação de Cheerleading do Estado de Santa Catarina, “Todos os casos estão sendo bem analisados por todos os representantes para que assim se chegue a um consenso do que é melhor para o desenvolvimento do esporte no país”. Ele destaca, ainda, que a iniciativa descentraliza as decisões sobre o esporte do eixo Rio – São Paulo, como costumava ser na última década. Leticia Sinatura, veterana do esporte no Brasil, coach do Sanca All Star e representante da Associação de Cheerleading de São Carlos, concorda com Zazá: “Eu acho muito importante a participação dos estados e das associações. As realidades são bem diferentes e é difícil tomar decisões que impactam o Brasil todo tendo a visão de uma região restrita. Também faz com que os estados que ainda não estão tão desenvolvidos tenham uma visão estratégica dos caminhos que o esporte vai seguir”, destaca a coach.

Trabalho em construção
Como em todo debate plural, há discordância. No caso do regulamento da próxima temporada, o embate – bastante acalourado, segundo os envolvidos – é sobre a categoria 2.1. Até o fechamento dessa matéria, até onde foi possível apurar, Minas Gerais, Brasília e Paraná entendem que o ideal é que as categorias sejam as oficiais determinadas pelos códigos do esporte, sem competição para as chamadas “prep-division”, categorias de níveis com tumbling inferior ao resto da rotina – como no caso da 2.1 – listadas nos códigos como categorias para atletas que não podem se comprometer com um ano de treino. Entrariam também as categorias non tumbling, que são oficiais.

Segundo Letícia Sinatura, talvez o modelo da reunião atrapalhe as decisões. “Para ser muito sincera eu não acho que whatsapp é o melhor meio de fazer isso. Acho que deveria ser uma reunião, na qual o Felipe [Felipe Leal, presidente da UBC] explicasse os pontos e com a discussão as pessoas votassem. Isso garantiria a participação e compreensão de todos e uma real representatividade dos estados. Por enquanto, algumas coisas já foram decididas, mas alguns pontos ficam indo e voltando. Às vezes, falta um pouco de empatia nas tomadas de decisão, [com as pessoas] pensando somente na própria realidade e não realmente trazendo para o que faz sentido para o desenvolvimento do esporte no país. Isso digo em relação ao posicionamento de algumas pessoas/estados”, finaliza.

Isabella Menezello, presidente da Associação Mineira de Cheerleading, destaca que a discussão no grupo está correndo bem e que esses espaços de debate podem melhorar quando as associações estaduais puderem deliberar antes das reuniões nacionais. “É impossível todos concordarem em tudo, então estão ocorrendo debates e tudo mais, mas no geral todos estão sendo ouvidos e as decisões tem sido tomadas por meio de votação. Acredito que esse é um primeiro passo para uma regulamentação e democratização do esporte. Será melhor ainda quando as organizações estaduais tiverem suas reuniões próprias com seus associados e que dessas reuniões levem as demandas do seu estado para a reunião nacional. Eu tenho insistido para isso acontecer desde o ano passado. Tentamos alinhar alguns pontos dos regulamentos ano passado, mas ainda houve discrepâncias e discordâncias nos regulamentos que causaram muita dor de cabeça. Após reunião com a UBC e alguns dirigentes estaduais solicitamos que houvesse um congresso técnico anual e que esse congresso decidisse as regras da temporada”, conta.

Gargalos e pontos sensíveis
Para Erik Reis, que representa a Associação Carioca no debate, a iniciativa é muito positiva, ainda que aconteçam embates internos. “É ótimo que a gente possa ter pessoas experientes para debater questões que determinam o rumo do esporte. Precisamos disso”, destaca. Segundo ele, o período é de adapatação a esse novo momento, quando atletas e coaches precisam passar a pensar à frente. “Às vezes falta um pouco de posicionamento em prol do bem estar geral. As pessoas precisam sair um pouco da sua posição de técnicos, atletas e amigos de grandes personalidades e trazer à luz o que é melhor para o todo e não para si. Esse é um papel difícil de executar, mas temos caminhado bem no geral. E sim, parece que será um momento de decisões plurais, mas isso eu só posso afirmar com 100% de certeza na hora que as decisões estiverem tomadas e sendo executadas de forma impessoal. Por enquanto são discussões e ideias, sem nada completamente definido”, finaliza.

Gian Carlo, representando a Universo Cheer e a AECSC (Associação Esportiva Cheerleading São Carlos) ao lado de Letícia, também destaca os pontos sensíveis: “A princípio, no início das discussões, as opiniões estavam condizentes entre UBC e representantes nacionais, porém de uns dias para cá esse padrão se reverteu. Decisões de níveis são as principais discussões, colocando em pauta o que teoricamente é ‘melhor para o esporte’, até semana passada já havíamos decidido e chegado a um consenso (votado), sobre os níveis que a competição iria abrir, porém o cenário mudou por conta de solicitações de alguns ginásios, então provavelmente uma nova decisão sobre os níveis serão tomadas. Logo, acredito que ainda demoraremos alguns dias ou semanas para chegar novamente em um acordo. Como representante no grupo do Estado de São Paulo e à frente da AECSC, irei abrir uma discussão para que ginásios e times se posicionarem enquanto Estado diante da UBC, tentando democratizar ainda mais esse espaço aberto pela união”, conta.  

Para a UBC, o resultado geral foi positivo. Segundo o presidente Felipe Leal, “a abertura do regulamento nacional para os demais representantes esportivos dos estados é um marco importante a fim de reunir informações para desenvolver um regulamento único. As discussões foram acirradas dentro do grupo, porém chegamos ao resultado das alternativas de categorias para o ano 2020 e regras de crossover, idade entre outras que foram discutidas. Conforme o debatido, temos resultados positivos e também negativos, por conta de abertura de categorias e fechamento de outras, porém, com um viés de desenvolvimento esportivo para longo prazo”. 

Texto: Rodrigo Mariano
Produção: Juliana Dória (C1C BA),
Nicole Goldstein (C1C RJ) e Lilian Fontes (C1C RJ) 

Revisão: Isabella Boddy (C1C PR),
Edu “MiniGui” Lima (C1C RJ) e Fernando Henrique Maia (C1C MG)

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