Um novo caminho para o nascimento dos times All Star

Erik Reis
Equipe Cheer One Channel

Início de 2011.  Tryout, dentro do cheerleading, era uma expressão vaga demais. Não fazia sequer sentido. Nós, os atletas da época, adotávamos até uma postura sem muito sentido, cortando atletas crus e buscando gente com experiência. Mas que experiência? O nosso amado cheer mal existia! A gente procurava quem aprendesse a fazer uma prep rápido, tivesse base em tumbling, algo que fosse útil ou demonstrasse uma certa consciência corporal pronta.  Isso tudo em um cenário em que não havia opções de equipe. Cá estamos, em 2018. E equipes nascem como coelhos. Só na virada do ano foram cerca de 6 novas equipes com estrutura pensada e, em alguns casos, com um grande número de pessoas. Tryouts continuam não sendo tão avaliativos, mas agora integram todas as pessoas, pois existe a possibilidade de alocar cada um em um nível próprio a sua habilidade.

Entender o cenário brasileiro tomando o americano como base é complicado. Lá fora existe uma linha de progressão que deveria ser a nossa meta, o foco a ser adotado e implantado no país. Crianças de dois anos de idade tem aulas de tumbling em qualquer escola, uma vez que a ginástica artística é obrigatória na educação física. Desde muito cedo – muito mesmo – já se tem contato com o cheer. A maioria das escolas posssuem programas e, quando não possuem, há diversos programas All Star grandes e famoso com níveis 1 e 2 de altíssimo rendimento à disposição. Esses futuros atletas crescem já imersos no meio do esporte e chegam prontos – ou algo próximo disso – para os níveis 5 e 6. Na faculdade, já são um atletas muito experientes.

Aqui o cenário se estrutura de forma contrária. As equipes All Star, que por aqui ocupam o topo do esporte como ginásios profissionais, nascem dentro de um boom cada vez mais expressivo do esporte: os universitários crescem exponencialmente há anos, nada mais natural, já que é deles a raiz do cheer. Esse crescimento desenfreado se choca com um problema: um inevitável prazo de validade. Os times universitários tem uma janela bem delimitada, que é o tempo que o atleta está na faculdade e, muitas vezes mais curto que isso: o tempo que ele consegue se dedicar ao esporte e levar os estudos em paralelo sem comprometer nenhum dos dois. Para a maioria deles, o Cheer não é carreira. Então, cedo ou tarde, eles priorizam as matérias e a formatura, deixando o esporte de lado.

No universo All Star a carga competitiva é diferente. Os campeonatos são voltados somente ao cheer, enquanto os desafios em jogos universitários envolvem uma grande festa, bebedeiras, vários esportes. Chegar à categoria All Star e passar a ter as competições como foco costuma se tornar um novo estímulo. Esse é o caminho: quando o atleta que era do universitário cansa desse ritmo festeiro e quer uma competição mais acirrada, migra pra um All Star. É verdade que equipes tradicionais como a UFABC e UFSCAR  – e outras que só agora passam a integrar o cenário nacional, como Epidemia, Helgas & Hagares, entre outras – nem sempre se enquadram nessa regra, mas estas são as excessões. Para alguém que está competindo em uma equipe universitária,  em um cenário de mais de 200 equipes, a probabilidade de ser atleta de uma que tente consolidar seus atletas pra uma competição de nível nacional é bem baixa.

Na migração para o All Star, os atletas acabam vertendo pra duas opções: um time formado, ou formar um time? Em alguns cenários regionais do país (na verdade, desde que vocês não estejam no Rio de Janeiro) um time formado ainda não é bem uma opção. E, assim, essas pessoas formam uma nova equipe. Correm atrás de outros atletas que estão com a mesma gana, a mesma vontade de permanecer no cenário competitivo, mesmo que sua faculdade não o faça para além dos seus próprios jogos universitários. Uma variação disso são os grupos dentro de determinada faculdade que querem integrar outras pessoas que estão se formando, se formaram, ou simplesmente não são da mesma faculdade, mas são da mesma cidade. Então, criam uma equipe All Star formada em 90% pelos atletas de uma mesma equipe universitária.

A questão é que a movimentação, no fim das contas, acontece quase igual. Esses times partem em grande maioria dos universitários, se tornam All Stars e fazem o cenário crescer desenfreado. Para mim, que vivenciei o primeiro nacional com menos de 10 times no campeonato inteiro – e apenas um time All Star –, ver o esporte se consolidando em um caminho com mais de 10 times por categoria é extraordinário. O início de 2018, com Grand Cassino, Black Lions, Revolution, Sanca All Star, Django All Star, entre outros, é o prenúncio de um crescimento sustentável do cenário All Star, graças ao boom universitário de anos anteriores. É a reta final de um trabalho que começou há exatos dez anos. Para quem estava lá, é indescritível o prazer de ver o cheer alcançar novas marcas no seu caminho de consolidação no Brasil.   

 

*Erik Reis é coach do Trinity Cheer Sports

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Instagram did not return a 200.