A crônica de um Cheerfest Supernational de tirar o fôlego

Um banner gigante, bem maior que os usados nos demais campeonatos realizados no país, subia devagar no meio da quadra que abriga o Cheerfest Supernational há duas edições. Ali, em uma ilha cercada por rios em uma cidade pequena do interior do Rio de Janeiro, o maior campeonato da história do esporte no país aconteceria em breve. Em menos de 12 horas, o ginásio estaria lotado por mais de mil atletas de 57 equipes vindas de sete estados diferentes. Enquanto essas equipes chegavam aos hotéis – parte deles previamente reservados pelo evento para garantir que todos os atletas teriam onde passar duas noites e evitar a inflação que o Cheerfest sempre causa – Cauê Souza, sua família e amigos preparavam o cenário da manhã seguinte. Os pombos que moram no ginásio não colaboraram com a limpeza naquela noite e, enquanto a produção (e o próprio Cauê) viravam, encaixavam e conectavam o cheer mat, o pessoal da limpeza tratava de limpar a sujeira das aves.

Sim, o campeonato é resultado de uma empresa familiar que funciona de maneira orgânica. Raoní Souza, irmão mais velho de Cauê, é daqueles personagens centrais das tramas clássicas que transita pelos bastidores resolvendo um problema atrás do outro. Tratou da papelada necessária para autorizar o acontecimento do evento e, apesar de trabalhar com prazos impossíveis, no dia do evento, tinha todos os carimbos necessários. Toda vez que aparecia, tinha um imprevisto pra contar e como resolveu a tempo de sem ser notado.  Beth, tia de Cauê, séria e concentrada, comandava um polo de arrecadação interna do campeonato: a venda de camisas, açaí e água – que no segundo dia, mesmo a apenas R$1,50, valia ouro graças a problemas técnicos do ginásio: a caixa d’água esvaziou e, ao ligar as bombas, o ar nos canos impediu o abastecimento por alguns minutos. Muitas torneiras abertas depois, o abastecimento se normalizou, embora a sujeira na caixa tenha interditado o bebedouro. A mãe da família Souza, Dona Cristina, é uma espécie de gerente informal. Distribui sorrisos, cuida da equipe, corre de um lado para o outro resolvendo pequenos problemas. Esse ano, recém operada, precisava descansar de vez em quando, mas não foi menos ativa por causa disso. “Daqui a pouco eu paro e vou embora”, ela dizia. Mas saiu de lá depois das equipes, acompanhada do marido Eduardo Souza, que também acompanhou o evento de perto. De resto, um pequeno grupo de amigos, conhecidos e parceiros mantiveram o evento acontecendo tranquilamente.

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O Cheerfest de 2018 deixou para trás o status de campeonato nacional e se transformou em uma experiência completa. Cauê empurra seu projeto na direção de um modelo bem sucedido internacionalmente. Ele replica experiências lá de fora aqui no Brasil da forma que é possível: adapta, redimensiona, busca parceiros e entrega. As entrevistas, que costumam acontecer nos corredores de bastidores de campeonatos, foram garantidas por uma parceria em troca de exposição maciça. Na saída das rotinas, uma experiência nova no país, mas bastante comum lá fora: os times podiam ver sua rotina imediatamente, assim que ela terminava. A TV ficou em uma saleta onde, no ano anterior, a equipe guardava caixas, um estoque de camisas para venda e as premiações. E foi assim que uma sala foi de depósito a um dos pontos centrais do campeonato, uma novidade que empolgou muito as equipes e ficou para sempre marcada pelo choro emocionado dos atletas. Tudo isso com uma TV de não muito mais que 18 polegadas, a força de uma ideia e investimento.   

Investimento pesado
O Cheerfest é bem sucedido onde outros campeonatos falham não só pela organização na hora do evento. Na verdade, perto do Campeonato Carioca, por exemplo, era possível apontar buracos, como a ausência de alguém da equipe organizando a área de aquecimento e a entrada dos times. Também não havia identificação para a equipe além da camisa do evento personalizada com a palavra “staff” nas costas. As muitas credenciais e o controle rígido sobre o público que entrava e saía do evento, algo também marcante no Carioca, não aconteceu ali. Mas tudo funcionou apesar disso, graças a um organizador que se desdobra a em vários e a  uma figura central na organização: Mônica Queiroz. Ela ia de apresentadora carismática – sem exageros, sem brincadeiras bobas e piadas constantes – a gerente de campo em segundos. “Não vai ter entrevista agora. Não tem tempo. Não dá. Faz depois”, disse ela em determinado momento depois do próprio Cauê autorizar uma entrevista que atrasaria o andamento do cronograma. A entrevista aconteceu. mas só depois da rotina que acabou não atrasando. Uma espécie de braço direito, ela assumiu o papel de entrar onde outros não estão e organizar tudo que acontecia no interior das grades de ferro azul escuras que separavam público e área do tatame.

O alto investimento no campeonato, no entanto, estava em todo lugar. Apostando em uma mudança da marca, o tradicional banner azul deu lugar a um novo, dois metros maior em cada lado e um metro para cima. A estrutura rangia para subir enquanto as catracas eram giradas. Um sistema de iluminação no chão e na estrutura de ferro que sustentava o banner garantiriam o toque de espetáculo que o cheer tem gravado em seu DNA esportivo. O tatame desse ano era um cheer mat. Até para quem não é esportista era claro que a sensação era bem diferente daquela dos tatames comuns. O preço? 42 mil reais + taxas de transporte. Subir a qualidade da infraestrutura não é barato e o Cheerfest estava decidido a investir. 

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Todo o sistema de vídeo e transmissão foi pensado na semana anterior ao evento. A ideia era contratar um telão de led, mas só havia os projetores em alta definição à disposição. Depois de alguns testes para garantir que a iluminação não atrapalharia nas imagens, a produção fechou o contrato. A ideia era que, além das entrevistas dos intervalos, o telão mostrasse as rotinas para quem estivesse no espaço de aquecimento – não, ele não foi colocado ali por acaso – e nas arquibancadas. Mas faltava algo. O contato com o Cheer One Channel foi feito três dias antes do campeonato. Cauê conhecia alguns dos planos do grupo de mídia e propôs a parceria: além da cobertura especial, contratada no mês anterior, havia a possibilidade de uma participação especial com entrevistas ao longo do dia com representantes da equipe. Depois de mais de 4 horas de negociação, a parceria saiu. Foram 80 entrevistas ao vivo transmitidas em um telão e uma vinheta que girou centenas de vezes para o público exato do grupo de mídia especializada. Mais uma vez, todos ganharam. A única condição da organização do Cheerfest era profissionalismo. Cauê fez questão que o diretor de jornalismo assumisse o posto. “Não posso colocar nada que não seja profissional no Cheerfest sem comprometer o modelo do campeonato”. E assim foi.

O investimento mais inteligente, e talvez o mais caro, no entanto, foi colocado na arbitragem. Para o Cheerfest, o tempo das cheer celebrities passou. Era divertido trazer grandes nomes do cheer internacional para arbitrar, mas não era mais possível lidar com erros nas notas. A produção do Cheerfest foi diretamente ao Varsity buscar uma boa opção. Foi assim que encontraram a Pro Score Cheer. A empresa chilena trabalha com uma mesa de 6 jurados – no caso do Cheerfest, todas mulheres – e um coordenador. Todas as árbitras estão no cheerleading desde a década de 2000. Algumas, desde a década de 90. Duas delas eram representantes oficiais do Varsity no Chile. Além de distribuir notas, a equipe se preocupou em dar um feedback detalhado para as equipes e limpar irregularidades do primeiro para o segundo dia. O resultado não podia ser outro: notas consideradas por todos justas e corretas. Sem dúvida nenhuma, no que diz respeito à confiança de atletas e programas nos árbitros, o Cheerfest foi onde nenhum outro conseguiu ir.

Disputas acirradas e clima de festa
Quando o sábado amanheceu e as equipes começaram a passar pelo tatame, ficou claro para qualquer um que entende minimamente do esporte que aquele campeonato mudava tudo. A evolução dos times era enorme, a concorrência era muito apertada e um erro ou outro que no ano anterior podiam ser vistos como normais, dessa vez era decisivo para definir a cor de uma medalha e a presença ou não no pódio. O Cheerfest teve embates de tirar o fôlego, “national material” – como dizia o mix do RCR – do Universitário ao All Star.

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A tradição dos times que se enfrentavam, os muitos campeonatos e títulos que a maioria deles traziam, tudo contribuía para o clima que dominou os dois dias de competição. No primeiro, com um toque a mais de nervosismo para atletas e staff; o segundo, com um clima de integração entre equipes e da festa de viver o esporte em essência por um total de 24 horas. A evolução na técnica e nos detalhes foi visível, tanto nas categorias All Star quanto nas categorias Universitárias que, aliás, cada vez mais se aproximam e competem de igual para igual. Mas não foi essa a única evolução. Em cada canto do Cheerfest, a integração das equipes era bem maior que o costume. Antigas rixas sumiram ao longo da temporada e os encontros que aconteceram ali. A torcida de todo o estádio para cada time que entrava na arena, o respeito e a comemoração de todos pelos times que chegavam ao pódio fez o esporte brilhar naquele fim de semana como nunca.

A pré-temporada 2019 vai nos dizer muito sobre a evolução do cheerleading. Só o tempo nos ajudará a entender totalmente o que o Cheerfest deixou claro em Volta Redonda. Mas uma coisa é certa: o esporte deu passos largos nesse ano e esse movimento não tem volta, para a alegria de todos.

Experiência Cheerfest
Campeonatos são campeonatos. Times disputam por medalhas em uma arena. O que o Cheerfest entregou na sua quarta edição vai além. Há uma experiência envolvida, um clima que permeia o ginásio. É verdade que outros campeonatos, ao seu modo, também alcançaram algo parecido, mas o Cheerfest tem algo a seu favor que adicionou uma pitada extra à experiência: Volta Redonda.

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A cidade é bem pequena e concentra todos os visitantes próximos ao Centro e da Vila, bairro nobre da cidadezinha. Na época do Supernational, os hotéis lotam de atletas e o efeito disso – mais forte que nunca nesse ano – é de viver, por dois dias, em uma realidade paralela, onde o cheer é mainstream. Uma volta no Sider Shopping é suficiente para esbarrar com camisas de diversos times de vários estados. Os atletas estavam no supermercado na sexta à noite, andando pelas calçadas no sábado pós-competição. O McDonalds, a única coisa que permanece aberta pela madrugada, por volta das duas da manhã era praticamente uma filial do Cheerfest. Nas filas, nas mesas, dentro e fora, atletas de programas e universidades se encontravam.

O café da manhã dos hotéis também é um encontro de times. Elevadores lotam de uniformes de cores diferentes. Entregadores de pizza fazem fila na porta durante a noite (atletas comem mais pizza do que costumam assumir publicamente) para dar vazão aos pedidos. Não se sabe exatamente o impacto financeiro que a cidade tem com o campeonato, mas é fato que, por duas noites e dois dias, Volta Redonda é a capital do Cheerleading. E viver essa experiência não tem preço. Que venha o Cheerfest 2019. Muita gente já está ansiosa.

     
   
Na próxima matéria, os grandes campeões no meio de uma multidão de atletas: desde os que que alcançaram um lugar no pódio até os que nem chegaram nele, mas saíram vitoriosos.