EDITORIAL – Stunts na pandemia: depressão com aparência de férias

Em maio deste ano, o C1C publicou matéria sobre os treinos na pandemia. Na época, início da proliferação do Coronavírus, a maioria de nós estava em casa, mortos de medo de uma doença sem cura que matou exatas 566 pessoas no Brasil no dia da publicação.

Era unânime na época que treinar era absurdo. Foi difícil encontrar quem falasse sobre. Um atleta do Paraná foi, naquela matéria, a voz que dizia que era possível fazer stunts naquele momento. Ele foi sumariamente “cancelado” pelo público. Quem quiser refrescar a memória, é só passar no nosso Instagram e ver a repercussão do post que divulgava a matéria.

Lá em maio, era absurda a ideia de quebrar o distanciamento para treinar. As imagens dos caminhões levando os corpos em caravana na Itália ainda estavam frescas na mente e o aluguel de caminhões frigoríficos para estocar corpos em hospitais era apavorante. Correr o risco de entrar para as estatísticas por causa de um stunt? Nem pensar. Quem fazia era irresponsável e inconsequente na visão da maioria.

Hoje, sete meses depois, a Covid-19 continua sem cura. Tem vacina, mas é difícil saber quando ela chegará aqui com o governo caótico e totalmente descolado da realidade que ocupa o poder. Se na época eram 8.588 mortes, hoje são 183.822 no total. Não acha os números totais um bom indicativo? Ok. Vamos aos dados do dia: se no dia que aquela matéria era publicada havia morrido 566 pessoas, hoje, enquanto esse editorial é preparado, morreram 968. Os dados de São Paulo, estado com um enorme número de casos, não foram contabilizados. Podemos, sem medo de errar, dizer que hoje, 16/12, morreram mais de mil pessoas vítimas do Coronavírus.

Não foi à toa que, sete meses depois, estamos em situação muito pior do que estávamos em maio. O distanciamento foi sendo flexibilizado por todo o lado, forçado por uma lógica econômica burra e frequentemente anticientífica. No cheerleading não foi diferente. E tem motivo: tudo já estava funcionando pelas ruas e os ginásios precisavam abrir. São pequenos negócios com caixa muito limitado e, em maioria, mantidos unicamente pelas mensalidades dos atletas. Foi um retorno lento, bem planejado por coaches e dirigentes, cercado de regras e protocolos. Reabriram oferecendo aulas de tumbling, que não exigem contato e proximidade, e começaram a construir seu espaço dentro de um “novo normal” necessário.

Mas, em algum ponto, como todos sabemos, a coisa degringolou.

Hoje, no pior momento da pandemia, os stunts estão nos stories do Instagram com uma frequência assustadora. Não só passou a ser aceitável a proximidade e os muitos toques que as habilidades exigem, como algumas pessoas acharam uma boa ideia dar publicidade a eles. Todo o alcance e influência à disposição disso. Elas filmam e postam, como se o mundo fosse o mesmo do início do ano. Mas ele não é. E não estamos falando do início de novembro, quando chegamos a nada irrelevantes 200 mortes por dia no final de um período de queda após meses em um platô altíssimo. Estamos falando de agora. De hoje. Do último fim de semana e muito provavelmente do próximo. Da próxima viagem da galera.

Há pouco tempo, recebemos uma crítica por não assumirmos um lado nesse debate. Sempre assumimos. Fizemos campanha lá no início, escutamos médicos, trouxemos as informações e alertas que, inclusive, poderiam vir de outros lados e não vieram. Também publicamos textos sem julgamento sobre o assunto porque no nosso trabalho tem espaço para tudo. Para as informações mais rápidas, as notícias; para aprofundar assuntos, as matérias; para apresentar perfis, entrevistas etc. Para opinião, os editoriais.

É triste que nessa altura, nós, a comunidade do esporte, decidamos normalizar o descaso com a vida. Que a gente opte racionalmente por viver esse momento histórico assim: sendo parte do grupo daqueles que decidiram ignorar. Dos que não se importam com a própria vida ou com a vida da flyer, da base, do spotter e dos familiares deles. É impensável que tenhamos que esperar que um dos nossos morra para que o resto de nós acorde. Se é que já não morreu. O caminho final de um pai, uma avó, um amigo, uma mãe pode ter passado por uma prep. A sua prep. Jamais saberemos.

Mas as mídias nos stories estão em dia, certamente. Prioridades.  

 

Texto: Rodrigo Mariano (C1C RJ)
Revisão: Isabella Boddy (C1C PR)