Intermed RJ-ES: Confusão de equipes e atléticas adiam a inclusão do cheer na pontuação geral

Fotos: Studio QG Fotos

O problema acontece em um dos campeonatos mais significativos para o cheerleading nacional: O Intermed é descendente direto do OREM, o campeonato que teve o primeiro time universitário com atletas All Star do país, um dos primeiros a treinar e apresentar em jogos universitários o cheerleading esportivo. Para além da tradição, há a técnica: em 2018, o Intermed foi considerado pelos árbitros um dos melhores, senão o melhor campeonato no rio no que diz respeito à técnica das equipes. De certa forma, isso se confirmou meses depois, quando a Medicina UFRJ, campeã do Intermed, também ocupou o topo do pódio do Campeonato Carioca, com uma pirâmide considerada uma das melhores já montadas no país. Clique aqui para lembrar dessa história.

Depois do sucesso de 2018, o Intermed 2019 vinha sendo cercado de expectativa: havia sido acordado no ano anterior que esse seria o primeiro ano em que o esporte contaria para o quadro geral. Faz sentido: a evolução progressiva do esporte alcançou um ponto que é cada vez mais difícil barrar a entrada oficial do esporte nos jogos, ainda que alguns opositores tentem fazer isso, sempre com base em prconceitos.

A expectativa das equipes foi frustrada na noite do sábado 7/6, quando a assembleia da Liga Intermed Rio de Janeiro e Espírito Santo (Lire) votou contra a inclusão do cheer na pontuação geral. A reação veio no dia seguinte: no domingo, um movimento foi iniciado por algumas das equipes de cheerleading participantes do Intermed repudiando a decisão da liga. Nas notas, as equipes apontavam que a liga não considerava o cheer como um esporte sério (como colocado na nota da Cheer Med VR) e que a decisão seria um desrespeito após promessas vazias, como explicita a nota da Cheer Med Macaé. As notas seguiram aparecendo na semana, com SharkLeaders, equipe da UniRio, Medicina UERJ e Alcateia Cheer, da Estácio de Sá João Uchôa.

 

 

O histórico
A assembleia do último sábado aconteceu dentro de um contexto que remonta ao ano anterior. De acordo com atletas das equipes, em 2018 os organizadores decidiram não incluir o cheerleading na pontuação geral porque algumas das universidades não possuíam equipes na modalidade. “Foi passado a todas as atléticas que em 2019 o cheer valeria para o geral e que todos deviam se organizar para isso ao longo do ano, criando seus times”, conta Luiza Borges, atleta da equipe da Medicina UFRJ Macaé.

A promessa da inclusão do cheer na pontuação geral em 2019 não é uma história pontual. Ela apareceu em mais de uma nota oficial das equipes e tudo indica que em algum momento a ideia foi realmente ventilada. Porém, não é consenso e, o mais delicado, não está em registro oficial. Segundo o capitão da premiada equipe Medicina UFRJ, o que consta em ata é um debate sobre níveis. “Na nossa nota de repúdio há, erroneamente, que nos foi feita a promessa de que [o cheerleading] contaria para o geral. O ‘combinado’, constando em ata, era tentar não reduzir o nível da competição, como aconteceu em 2017, quando a competição foi do nível 3 para o 2. Inclusive corrigimos isso na nota”, conta Cristopher Santos.

Segundo a Lire, que respondeu nossas perguntas por e-mail oficial assinado pela liga, o combinado realmente existiu: “Em reunião preparatória para o INTERMED 2018, surgiu a demanda da inclusão de modalidades na pontuação geral do campeonato esportivo, dentre elas, atletismo, tênis de mesa, judô, desafio de baterias e cheerleaders. A modalidade que tínhamos mais aceitação para inclusão era Cheerleading e ficou acordado que seria inviável na edição de 2018, já que muitas faculdades não tinham time ou que essa modalidade não era tão desenvolvida naquele momento dentro das faculdades participantes. Ficou acordado que até o Intermed seguinte cada um iria se preparar para que pudêssemos votar  a inclusão”, afirma a liga. A Lire destaca, ainda, que “todas as atléticas tinham ciência que esta modalidade poderia ser incluída na classificação geral, já que a votação para tal decisão iria acontecer em 2019. A decisão de se preparar ou não para isso é individual”.

Ponto de discordância: os níveis
Um ponto levantado por alguns dos atletas e dirigentes como o motivo definitivo na hora da decisão foi a questão dos níveis. Segundo eles, não era a validade do cheerleading como esporte, mas a falta de consenso na decisão sobre o nível da competição que acabou deixando o cheerleading fora da pontuação geral por mais um ano. Com 21 atléticas, todas com poder de voto nessa questão, a decisão da Lire foi resultado de votação em assembleia. Foram 11 votos contra e 10 a favor.

Coordenador da equipe Cheer Estácio Lapa, cuja atlética votou contrária à inclusão do cheer na pontuação geral, Lucas Tavares destacou que a decisão foi mais política e não teve relação com o cheer ser ou não um esporte. Segundo ele, a principal discussão era em relação ao nível que o campeonato assumiria e as equipes tinham opiniões diferentes. “Alguns queriam que o campeonato fosse 2.1, outros que mantivessem 2.2, outros 3.2…. Estava uma bagunça e vários foram os questionamentos e desculpas em relação ao porque mudar ou não mudar [o nível 2.2 do campeonato anterior]. Alguns times disseram que devido a alta rotatividade dos atletas é muito dificil conseguir atletas que consigam, por exemplo, uma rondada flic, e por isso queriam descer o nivel do tumbling. Outros times mais experientes achavam que isso era, de certa forma, um absurdo”, conta Lucas, que defendia a subida para 3.2.

“No final de semana da votação, a que diria se o cheer entra ou não para o geral, ainda não havia uma definição de qual seria o nível da competição. Como eu vi que a maioria dos times estava querendo se beneficiar descendo o nível da competição e não buscar maneiras de elevar o nível do time, eu e minha atlética resolvemos não votar a favor do cheer contando ponto na pontuação geral antes que fosse estabelecido qual seria o nível da competição”, conta ele. Lucas esclarece, ainda, que o entendimento inicial seria uma votação para definir se a competição subiria ou não para o nível 3. Essa votação jamais foi realizada,uma vez que o debate passou a girar em torno de descer ou não o nível do tumbling, que será decidido em reunião no próximo mês.

 

 

Cheer é esporte
Entre as atléticas que votaram favoravelmente à entrada do cheerleading para a pontuação geral – 10 de 21 delas – ainda que a questão dos níveis estivesse em aberto, a justificativa é que, sendo um esporte como qualquer outro, não há motivo para que o cheer não esteja em pé de igualdade com as demais modalidades. Foi o caso da UNIRIO. “Nós votamos de forma favorável à entrada do Cheerleading no quadro de pontuação geral do Intermed por entendermos que é um esporte como qualquer outro e que deve ser valorizado. Acreditamos que a melhor forma de valorizar o trabalho dos nossos atletas seria a inclusão do Cheerleading na pontuação geral porque a equipe treina incessantemente como qualquer outra durante o ano inteiro para executar uma rotina de alto nível na competição do INTERMED. Entretanto, a maioria das atléticas optou por votar contra, cada faculdade com seus motivos internos, que não cabe a UNIRIO dizer, por não saber a realidade de cada uma. Apesar de ser uma decisão legítima e democrática por parte da LIRE, lamentamos profundamente o resultado da votação e seguiremos apoiando para que seja incluída no quadro de pontuação geral o quanto antes”, destacou Bernardo Machado, CDA da Associação Atlética Acadêmica Reinaldo Dias, da UNIRIO.

Para alguns atletas, as universidades que votaram contra a inclusão do cheer na pontuação geral fizeram isso por não terem se preparado. Algumas não têm equipe na modalidade, apesar da competição acontecer no Intermed desde 2016 e de forma mais estruturada desde 2017. Segundo Luiza Borges (UFRJ Macaé), não é incomum que as universidades não tenham uma equipe em determinada modalidade e isso costuma se resolver de forma diferente. “Nenhuma outra modalidade esportiva do Intermed precisou ser votada para entrar ou não na pontuação geral, mesmo quando algumas faculdades não tinham equipes naquela modalidade. Nós não temos uma equipe de futebol de campo, por exemplo. Para não levar WO [zerar a pontuação na modalidade] colocamos nove meninos no campo e competimos mesmo assim”, conta ela. Por que, no caso do cheerleading, a decisão foi diferente, não se sabe.

O tratamento especial ao esporte vai além, segundo Luiza. “As decisões são tomadas por pessoas que não entendem nada do esporte. Só um dia antes da competição nós atletas ficamos sabendo quando e onde será a competição, que costuma ser no último dia, depois das equipes fazerem muito sideline. Já aconteceu no meu time de uma flyer competir de mão quebrada. Tem foto dela no stunt de gesso porque a competição foi no último dia, ela era goleira e se machucou. Então são muitas pautas que a gente levanta todo ano e a Lire continua ignorando as nossas reivindicações”, conta Luiza.

Segundo a Lire, não há tratamento especial. “Desde a sua primeira edição em 2016 temos as mesmas modalidades pontuando pra classificação esportiva geral, nunca antes havendo votação para inclusão de outras modalidades. Ressaltamos ainda que o Campeonato de Cheerleading do INTERMED foi criado pela LIRE em 2016. Desde a nossa fundação, um campeonato lindo ocorre, e nós a cada ano buscamos melhorar cada vez mais a estrutura oferecida, nos adequando ao máximo aos pedidos, que são ouvidos cautelosamente todos os anos, em reunião anterior ao evento com os representantes de cada equipe. Além disso, são contratados profissionais da Federação Carioca de Cheerleading para que a avaliação técnica seja feita da forma mais imparcial, evitando possíveis viés. Também há uma premiação para a equipe campeã, visto que assim como qualquer outro esporte merecem ser exaltadas”, consta no texto.

 

 

Motivos diversos
Em uma história complexa que adiou o peso do cheerleading dentro de um campeonato que é “solo sagrado” para o esporte, apenas um consenso: os motivos para o “não” de cada uma das 11 atléticas podem ser diferentes. “Quanto ao motivo da não aprovação, sugerimos que o Cheer One Chanel entre em contato com as atléticas, diretórios e centros acadêmicos responsáveis, para assim saber o motivo do posicionamento de cada uma delas. A realidade vivida por elas e o real motivo de seu posicionamento, somente poderá ser esclarecido individualmente, pois eles são diferentes, tanto dentre as que votaram pela inclusão ou não na pontuação do campeonato esportivo. Acreditamos que todas as faculdades que compõem a Liga respeitam cheerleading como uma modalidade esportiva. A LIRE durante a reunião dá voz a todas elas, mas o voto é individual. Aproveitamos o espaço para reafirmar o respeito que a Liga Intermed Rio de Janeiro e Espírito Santo tem pelo esporte cheerleading, com a certeza de que é sim uma modalidade esportiva”, finaliza a nota da liga.

Não foi fácil entender o que aconteceu na assembleia de 8/6 e o histórico do debate sobre a pontuação geral do Intermed. Tudo o que conseguimos reunir nos últimos 3 dias está na matéria. O próprio acesso às fontes foi pejudicado: parte dos representantes das atléticas se recusou expressamente a falar, como no caso da atlética de Medicina da UFF, que votou contra a inclusão do cheer na pontuação geral. Outros visualizaram e não responderam – como no caso da UFES – ou nem retornaram contato. Alguns falaram, mas sob sigilo de fonte, com medo de represálias. Há, inclusive, quem enfrentou problemas sérios por ter se posicionado. Foram poucos os que aceitaram assinar suas falas e, embora isso atrapalhe o entendimento da questão, investigamos e trouxemos nessa matéria o que conseguimos coletar de informação. O julgamento sobre o fato fica a cargo do leitor.

Nota da redação:
O espaço, como sempre, está aberto: convidamos as atléticas que votaram pela não inclusão do cheerleading na pontuação geral do Intermed – Medicina Teresópolis, Unig Nova Iguaçu, Medicina Valença, FMP, UFES, Unesc, Universidade de Vassouras, Multivix, UFF e Unig Itaperuna – a entrarem em contato conosco para apresentarem sua versão pelo email cheer1channel@gmail.com ou whatsapp 21 98255-8114. Caso haja um número expressivo de contatos, podemos produzir nova matéria sobre a mesma pauta.