O silêncio dos campeões: uma clara evolução no caminho do respeito

É provável que pouca gente tenha entendido a foto que abre essa matéria, mas nenhuma outra poderia ilustrar melhor esse texto. Explicamos: à esquerda da foto, o Cerberus da UFRRJ recebe sua medalha de prata na disputa apertada do Universitário nível 3 do Cheerfest Supernational. Do lado direito, os atletas do Vikings C7, que já sabiam que eram os grandes campeões, interrompem uma comemoração silenciosa em respeito aos atletas do Cerberus, viram para eles e aplaudem. Só minutos depois, quando foram anunciados como campeões, os atletas comemoraram.

A cena se repetiu inúmeras vezes ao longo da premiação. Mais de uma vez o Arkhaios teve que segurar o grito. Choraram calados enquanto aplaudiam o segundo colocado. O mesmo aconteceu com a Bravo. Do cenário All Star do Rio, RCR e Marvel gritaram um pelo o outro. Do Paraná, Epidemia e Vikings, antes adversários-quase-inimigos, fizeram a torcida uns dos outros quando estavam no tatame. O mesmo aconteceu com BX e Pride: comemorações mudas, contidas, quase estáticas em respeito ao adversário que vivia o momento dele.

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Geralmente, não funcionava assim na temporada passada. O anúncio do segundo colocado sempre vinha com muitos gritos e comemoração do 1º lugar, anunciado por eliminação. Qualquer reação da prata era afogada pelos vencedores do ouro. O respeito ao momento do outro é reflexo direto de atletas mais conscientes e coaches que investem na formação humana em seus ginásios. É o caso dos grandes campeões do Cheerfest Supernational. Gabriel Rogoni, que comanda o ginásio ao lado de Nayara Araújo, explica que o respeito está acima de tudo. Inclusive do grito da vitória, que tem hora certa para acontecer. “Na minha opinião todas equipes sempre treinam muito, o ano todo, e só de estar no pódio já é uma grande vitória. Por isso eu ensino que devemos esperar o nosso momento para comemorar independente da colocação. Eu já presenciei situações em que o primeiro lugar comemora quando o segundo é anunciado, eu acho isso muito desrespeitoso, pois esse é o momento do segundo lugar, e não do primeiro. Todos os atletas deveriam respeitar uns aos outros, afinal, somos todos concorrentes e não INIMIGOS”, destaca.

Adriano Branco, coach do Pride, ouro no Universitário Coed nível 2, segurou a emoção dos atletas na hora do anúncio. “Por mais que o outro time tenha perdido o primeiro lugar, ele é um medalhista, ele está no pódio e a gente tem que dar o espaço para esse time comemorar a vitoria dele sem que ninguém atrapalhe isso. E alguém comemorando o primeiro lugar porquê não foi o segundo definitivamente atrapalha esse momento”, explica Adriano, e conta como foi na hora da premiação.“Chegamos lá esperando ficar entre os 5 melhores. Quando vimos que podíamos chegar ao pódio, começamos a ficar bem nervosos. Tentei acalmar a galera porque não sabíamos o resultado. Com o terceiro anunciado, avisei na hora: ‘não grita,segura e contem a emoção, porque o outro time vai comemorar a sua medalha’. Consegui conter a galera e todos choraram de cabeça baixa. Para mim é questão desrespeito. Nosso esporte está crescendo, esse ano teve uma evolução incrível de todos os times torcendo pra todos os times. Isso faz parte do espírito esportivo.Trago isso como uma referência do Marcio Tavares, meu coach no RCR”, conta.

O Coach do Bravo!, grande campeão no Coed nível 3, também  orientou os atletas na hora. “Faz parte do respeito e do espírito esportivo. Por isso, falei para eles segurarem a onda. É impossível que alguma comemoração não aconteça, é bem difícil, mas eu orientei sim. Todo mundo está preparado para ganhar e a comemoração é praticamente inevitável. Por isso acho ser papel do treinador orientar para que ninguém se sinta menor, até porque o segundo lugar é uma excelente colocação. Aliás, uma equipe que dá tudo de si e consegue fazer uma boa rotina, já deve se orgulhar”, destacou Cedrik Willian.