Team Brazil Pan-Americano apresenta rotina criativa em showcase

A Seleção Brasileira de Cheerleading embarca para o II Campeonato Pan-Americano da International Cheer Union ICU no final de semana mas, como é tradição, antes de ir buscar os resultados internacionais, o time apresentou a rotina em um showcase aberto ao público. Como a data do Pan-Americano é muito próxima do início da temporada carioca, a direção da União Brasileira de Cheerleading decidiu casar o evento com o já tradicional Showcase do Arkhaios, no último domingo, dia 15 de outubro.

A rotina assinada por Davi França, como já era esperado, é criativa, bonita e fluida. Isso fica claro logo no início. Como acontece no mundial, os códigos do ICU não contemplam o quadro de dança e Davi aproveitou o cheer section para imprimir a sua marca. As tradicionais placas com as cores da bandeira e o “Vamos Bra-sil” foram substituídas pelas mais clássicas, que soletram o nome do país. O inglês entra no chant, o que é uma ideia inteligente para levantar a plateia que não fala português. Já os uniformes soletram Brasil com “S”, não abrindo mão da nossa língua. Fechando o quadro, Davi abusa do movimento e adiciona bandeiras ao fundo, trazendo mais um ar de novidade pra seleção. Foi um dos destaques entre os coaches e árbitros escutados.

“A ideia era trazer uma proposta nova, explorando mais os props e o canto. Trouxemos as letras soletradas em inglês para que as pessoas de outros idiomas possam colaborar com a gente. A seção cheer é muito importante para o ICU e a ideia era justamente valorizar mais e, talvez, sermos melhor pontuados”, explicou Davi.

Aspectos técnicos
A rotina segue com um ótimo aproveitamento de todo o tatame, já entrando para o primeiro dos dois quadros de Partner Stunts, muito valorizado pelo sistema de pontuação do ICU. Toss para extensão é seguido de uma transição para reposicionar a equipe para uma subida à prep e depois cupie com bom sincronismo. Vem em seguida um toe touch seguido de mortal para configurar um quadro de standing tumbling. Motions nos quadrantes em diagonal da direita a frente e esquerda ao fundo abrem para mais uma passada de standing tumbling e um standing full. No que diz respeito ao tumbling, inclusive, essa pode ser considerada uma das seleções com maior potencial, graças às special pass e à quantidade de piruetas.

Os dois quadros de stunts, um com bases duplas e outro com bases triplas funcionou bem para que as skills mais difíceis fossem entregues. No geral, os quadros ficaram bonitos e funcionam bem na rotina, com destaque ao movimento: novamente em diagonal, os stunts giram em canon com as flyers sustentando a perna até completarem meio giro e fazem um  desmonte em estrela. O efeito visual funcionou muito bem.

Foto: Dênis Braga

Assim como o quadro de Partner, os Baskets também mostraram que foram um desafio para equipe, coreógrafo e treinadores. Um dos quadros trouxe um basket de nível 3 e o último quadro traz três basket skills simultaneamente: três lançamentos com grupado com dupla pirueta (nível 6), um com pretty girl + carpado (nível 4) + arc e um último em destaque com para o grupo central, com um kick full kick full (também de nível 6) da flyer que causa um wow effect interessante no final do quadro que levantou as arquibancadas.

A pirâmide foi bem dinâmica e tentou aproveitar ao máximo todos os stunts envolvidos ao invés de centralizar a maioria das skills em poucos grupos, adicionando bastante movimento. Iniciada com dois rewinds seguidos de uma transição de mortal para trás estendido e um basket no meio para manter a dinâmica, a pirâmide segue para tic tocs e uma transição de meio giro seguido de mortal, passando pela altura de 2 e ½ onde logo após a recepção as flyers sobem novamente para auxiliar um mortal ao centro do tatame antes de voltar para uma transição de mortal com pirueta e encerrar a rotina com 5 libs na postura tradicional com a mão sobre o peito.

Foto: Dênis Braga

Bem mais que a rotina possível
Segundo o grupo técnico escutado pelo C1C, a beleza estética da rotina é indiscutível. Na técnica, Davi optou pela segurança: os quadros de Partner Stunts, por exemplo, que ocupa boa parte da nota das rotinas no ICU, cobriram os níveis 3 e 4, o que pode ser um limitante para o resultado final. O mesmo foi apontado no quadro de Baskets, com a maioria das skills bem executadas, mas menos complexas. Não por acaso, ambos são quadros de evolução lenta, exigindo muito tempo de treino e dedicação.

O bom resultado entregue pela equipe no domingo tem como fator importante o tempo de treino para um elenco tão diverso, com atletas/coaches bastante conhecidos no cenário nacional – como Felipe Leal, Cauê Souza, Adriano Branco e o próprio Davi –, com novos rostos que não haviam participado da Seleção Brasileira antes e que ainda não possuem skills de nível 5: no cotidiano de treino em seus ginásios, o range dos atletas que compõem a equipe pan-americana vai desde o nível 2 ao nível 6. Davi precisou trabalhar com essas diferenças ao desenhar a rotina e fez um ótimo trabalho.

Foi consenso entre os escutados que Davi sabia que não pontuaria de maneira mais alta com o material humano que o tryout colocou à sua disposição. Em sete treinos a equipe técnica precisou focar no que era possível ensinar aos atletas para que fosse possível enquadrar os requisitos de nível. Para alcançar o resultado que a Seleção apresentou, foi necessário um reforço psicológico: a equipe segue para a Costa Rica confiante e com um forte sentimento de grupo, união e companheirismo que estão claros nas relações entre os atletas, resultado do trabalho bem sucedido de uma equipe de psicólogos que acompanhou a seleção desde o tryout. “Ter o acompanhamento profissional dos psicólogos proporciona pra gente um certo conforto. É um projeto muito intenso, o projeto do Pan é muito curto, a rotina é nível 5 e tudo isso abraça os atletas. Há um gasto psicológico e esses profissionais nos ajudam a trabalhar isso e buscar a calma necessária. Faz total diferença”, destaca Davi.   

Foto: Dênis Braga

Pressão do público
Nem as equipes mais estáveis, com atletas que se conhecem há anos costumam cravar rotina no showcase. Enquanto lá fora o evento costuma ter como objetivo apenas mostrar a rotina da temporada, por aqui ele é também um teste para coaches e atletas, assim como a primeira exposição para uma arquibancada cheia. Com o Team Brazil não foi diferente. Ainda assim, foram poucos os erros da apresentação: duas quedas sobre stunt no Partner, algumas mãos no chão no final de mortais e um stunt colapsado no centro do tatame.

De acordo com membros do corpo técnico consultado que acompanharam o time de perto, os erros que aconteceram no showcase não são comuns durante os treinos: um efeito típico do nervosismo pela pressão do público sobre os atletas. Caso nossa seleção chegue à competição mais relaxada, é provável que os erros não apareçam, ou sejam raros.

Foto: Dênis Braga

O fato é que Davi França e toda a equipe técnica do Team Brazil 2019/20 fizeram um bom trabalho na primeira experiência Pan-Americana do Cheerleading nacional. Essa seleção entra para o hall das pioneiras, ao lado da “Seleção de Bauru”, a primeira a sonhar com o mundial; o Team Brazil 2015, o primeiro a levar o Brasil ao ICU; e o Team Brazil All Girl 2018, nossa primeira competição feminina em mundiais. Se vai ser duplamente marcada na história como também a primeira a trazer uma medalha Pan-Americana para o Brasil, saberemos nos próximos dias. Mas com base na resposta do público – presente e por redes sociais – e na avaliação dos especialistas, estamos bem representados na Costa Rica.

“O projeto do Pan-Americano foi difícil, quase não aconteceu por causa do pouco tempo e dos poucos atletas com o tempo e dinheiro necessários. No fim tudo deu certo e quero muito agradecer a todos envolvidos no projeto pela vibe incrível, pelo envolvimento total no projeto. Tudo que fizemos até agora, para mim, já é uma grande vitória”, finaliza Davi. Nós – e o Brasil todo – concordamos. Agora é esperar o dia 19 e TORCER MUITO pelos nossos atletas na Costa Rica!

 


 

Nota da redação: Para a redação dessa matéria o Cheer One Channel colocou em prática um plano antigo. Pela nossa Diretoria Técnica, selecionamos um grupo de coaches/árbitros para redigir o texto com base nas observações, críticas e elogios desses atletas e técnicos. Eles são de diferentes ginásios e times universitários e buscaremos sempre pessoas de diferentes estados do Brasil com domínio técnico conhecido. Assim garantimos a pluralidade de visões e, ao mesmo tempo, a precisão técnica dos nossos textos. Para garantir também opiniões realistas sem criar constrangimentos, esse grupo não terá seus nomes revelados. Serão fontes sigilosas e, a cada novo evento ou texto técnico, diferentes pessoas serão convidadas a opinar e assim por diante. Aqueles que preferirem abrir mão da anonimidade serão identificados na matéria, como já ocorre com as fontes que não são sigilosas.